quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

DEPENDÊNCIA QUÍMICA: AVENTURA, VIAGEM OU SERVIDÃO ( I )

                                                                                  JORGE BICHUETTI

Comumente, diabolizamos a problemática da dependência química... Vemos desvio, delinqüencia, autodestrutividade, mimetismo social, rebeldia, marginalidade...
Normôticos, olhamos para os que vivenciam as experiências com drogas e os condenamos... Dizemos simplificando o problema: procuram a morte com as próprias mãos...
Este é o pensamento policialesco e normatizante, higienista e moralizante.
Não é um consenso...
Frei Beto , no texto " Vida, sim; drogas, não", para a revista Caros Amigos, declara que ninguém suporta a normalidade. Sugere que só possível superar uma dependência química através de uma paixão, de uma causa amorosa, política, ética, estética ou existencial...
"A normalidade é a mediocridade institucionalizada" ( Miziara, L. In: A Salamandra)
Rotelli chama a atenção para a função de amplificador da consciência das drogas; e assinala que elas não são em si o problema, mas a compulsão que gera um funcionamento à maneira dos buracos negros que esvaziam o sentido da vida e da caminhada. Eles a procuraram porque desejam algo mais do que lhe era oferecido pelo sistema, pela racionalidade técnico-instrumental, pelo modo de viver da subjetividade capitalística. Assim, conclui que aos processos de reabilitação necessitam serem mais sedutores do que o mundo das drogas...
Cuidamos e , depois, os vemos recaídos; contudo, nosso cuidado é um arranjo ortopédico de recuperação da vida anterior , já esgotada no momento da busca da droga.
Deleuze chega com contribuições valiosas...
O uso da droga , para ele, é uma experimentação vital; cujo perigo mora no buraco negro da repetição compulsiva, na ausência de uma linha e fuga( plano de consistência) que permitiria o indivíduo voltar desta dsterritorialização de alta intensidade e incomensurável velocidade, sem cair no vazio novamente ou na rotina cinzenta negada.
Acrescenta mais: antes o homem funcionava investindo sua energia e desejo no campo mnésico e dos afetos, que se mantinham eternizados no inconsciente como representações...
Agora, diagnostica uma mudança neste investimento: investimos nas percepções...
Percepções micro e macro que dilatam o mundo e o subtrai do terrível desencantamento imposto pela lógica mercantil, prática e funcional.
Deste modo, podemos dissolver os preconceitos e pensar o uso compulsivo e a própria fissura.
O uso compulsivo de drogas pode vincular:-se:
- a própria química;
- cultura do tudo posso, um funcionamento narcísico, onipotente e fálico;
- reverberações dos fantasmas da cena primaria;
- o efeito gangue - grupalidade/ tribo/ grupo assujeitado;
- a ausência de planos de consistência para sustentar novos investimentos no universo das percepções;
-e o império das reproduções com esgotamento do instituído;
- falta de uma paixão e causa-paixão;
- e a própria insufiência de uma vida que permanece desencatada, estriada e cinzenta.
A fissura e desejo de uso que retorna com voracidade, inexplicavelmente, após, a vivência de uma desintoxicação, estando a pessoa sóbria.
Quais as hipóteses possíveis: n:
- a sobriedade é uma vida amputada;
- funcionamento normôtico, sem vitalidade, alegria e bons encontros;
- e , especificamente, a problemática das percepções.
As sensações brutas e as paixões estão sob o domínio do cronos, não retornam...
Já as percepções e a arte são experiências que ocorre na ruptura com o tempo cronológico, podendo ser reativadas...
A ressônancia desta reativação gera uma forte vontade de uso...  a fissura.
Então, a autonomia está em se produzir uma vida com singularidade, solidariedade , multiplicidade e investimentos potentes no universo perceptivo.
E o aprendizado de se bifurcar, criar outras saídas, quando do retorno destas percepções, protegendo-se não pela falta ou negatividade, mas pela criação, luta e afirmação de vida.
Re-encantemos a vida e o mundo...

13 comentários:

  1. "As vezes, nossa vida é colocada de cabeça para baixo,
    para que possamos aprender a viver de cabeça para cima."
    abraço. maria alice

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  2. Bom dia querido Jorge!
    Belo texto... bela reflexão...
    Vejo você mais tarde!
    bjs
    Sumaia

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  3. Minha amiga Maria alice, virouu maga, fada e bruxa... É verdade... Nos contorcemos para descobrir as potências adormecidas do nosso corpo e alma.
    E assim seguimos... Devagar, pois já tive pressa... abraços com carinho e ternura. jorge

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  4. Jorge postei esse artigo no Uzina. Obrigada pelo diálogo amigo.
    beijo
    Marta

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  5. marta, agora, lerei o capítulo e farei uma ramificação, pois este pequeno texto somente pega escritos outros .Abraços .Beijos e canções...
    jorge

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  6. Jorge, vou reeditando as matérias no ar. tá lá, mas vou mexendo, quando posso, mudo a foto, mudo tudo até uma hora que não mexo mais (?) . o bom na internet é essa facilidade de editar. Reeditei, acho que já parei, o artigo sobre fissura. Acho que agora ficou bonito.
    Decalcando vou escapando um pouco da minha agonia aqui de fazer um trabalho em grupo.... Grupo!
    beijo
    M

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  7. Trabalho de guerreira que coletiviza num tempo de solidão e individualismo...
    Abraços jorge

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  8. Bem que eu gostaria muito menos de solidão e individualismo. Tá difícil conviver, Jorge. Muito difícil. Acabo de vir de um buteco de brasileiros que vivem aqui. Pra mim é uma tortura conviver com gente, principalmente com pessoas que saem para "curtir".
    Tô ficando down?
    beijo
    Marta

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  9. Marta, é assim... Os butecos já não os cenários paradisíacos, nem os encontros honram Spinoza.... Mas vamos vivendo... Tecendo redes nas virtualidades e nos sonhos... Voando, furfando sobre o mediocre e buscando o horizonte azul. abraços jorge

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  10. Por uns segundos, me vi compartilhando o mesmo sentimento implícito de Marta, refletido nas suas palavras quando se refere à convivência com pessoas que saem para "curtir"...
    Curtir o quê? A mesmice? A continuidade das aparências? A hipocrisia? A alienação? Algumas idéias utópicas ainda nem mesmo concebidas? De alguma forma, eu tenho tentado buscar a minha essência, ou melhor, entendê-la primeiramente. Encontrar o valor real para mim de tudo que é “natural” e já “preconcebido” para a maioria das pessoas que me rodeia, sob pena de me enxergarem como alguém desconectada com os "normais". Mas, uma vez ocorrida a desterritorialização, hei de caminhar para obter, mesmo que temporariamente, a reterritorialização. A meu ver, sem que eu me acomode, o que é muito tendencioso da minha parte, tampouco que eu deixe a minha ansiedade acelerar o processo, vez que eu corro o risco de não assimilar bem os meus propósitos verdadeiros, advindos das profundezas do meu ser, alguns ainda em estado latente, mas prestes a virem à tona. A busca de um estado de paz, sem tantas inquietações e conflitos que acabam por distorcer meus anseios salutares e sentido fundamental de uma vida simples que me proporcione momentos felizes e verdadeiros me trazem uma visão simplista deste meu novo território. Jorge, abraços fraternos, com muito carinho e admiração...
    Miriam Siqueira Cunha

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  11. Jorge, caso eu tenha enviado o mesmo comentário mais de uma vez, por favor delete-o e me desculpe, estou longe de ser uma internauta expert...rs.
    E também sinta-se a vontade para não publicar meus comentários fora do contexto de um artigo publicado. O fato de escrever algo a respeito do que leio já me faz muito bem. Abraço, Miriam

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  12. Querida Mirian, como interpretaste com precisão sua caminhada: ousadia e prudência... Vôo e chão.. Nossos passos, sem servidão às expectativas dos outros... abraços com carinho e ternura. Jorge

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