Jorge Bichuetti
Tudo cinza. Silêncio. Assepcia... Nenhuma flor, nenhuma cor... Fúnebre, clima de morte... Espaços de temor e agonia...
Assim, são nossos equipamentos de saúde... Ousam tentar ajudar num devir urubu...
Nenhuma flor na sala , nenhum quadro de alegria.... Não se ouve Zeca Pagodinho, nem mesmo uma nobre música clássica...
Tudo cinza... feito para chorar e se encolher de medo ou de desespero, mas corpos desvalidos que buscam um deus , uma cura, como se a própria saúde e doença não fossem modos de andar a vida , modos de caminhar...
Nossos serviços são iatrogênicos, para os que sofre e para os que trabalham... ´e um sobre-peso, uma cruz, um calvário, uma lenta e perene agonia...
Uma encruzilhada na na nossa vista: ou mudamos os serviços de saúde ou nos resiguinemos e junto com os usuários de tédio, também, morremos...
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Uma outra clínica é possível e ela pulsa e clama nos nossos corpos: uma clínica de cuidado e alegria...
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Para isso, temos que transformar a relação do trabalhador de saúde com os que sofrem, com seus corpos dilacerados, num bom encontro...
Todo bom encontro é marcado pela alegria e ele compõe, vitaliza e potencializa os corpos do encontro: trabalhadores e corpos sofridos...
a alegria não é ao salvacionismo: é companhia, ternura, acolhimento, esperança e partilha...
Um devir Simeão... Não substituí o Cristo no calvário, lhe faz companhia e por carrega cruz quando este exausto já nada conseguia... Não lhe rouba a dor , nem se apropria da divina ressurreição...
Partilha, coopera... Fica do lado, escuta, compreende, ama... Mesmo sem ter a esperada e necessária solução.
A alegria não nasce no expontaneísmo, nem no duro esforço: vêm do bom encontro.
E um bom encontro pede um contexto de acolhimento e vida.
Inclusive, por que não contar com os efeitos páticos: uma música, vasos de samambaias e flores, quadros e pintura colorida, vida chamando vida...
A alegria contagia e potencializa os corpos envolvidos no encontro. A alegria não nasce só do heroísmo, podemos criar dispositivos de acolher, onde o outro se sinta, e nós também, num re-canto de paz, esperança e felicidade.
Rasguemos os manuais de onipotência e narcisismo... Sejamos boa gente, uma boa e disponível companhia.
Na hora da dor e da morte, quero uma fita amarela: todos querem companhia e compreensão, direito a lágrima e a fé, a um gesto de carinho, uma mão no adeus e uma sentida mirada que lhe diga que era uma vida ... uma vida querida, um homem e um caminho, junto de outros , longe da solidão...
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Há uma crise instalada. O paradigma médico individual já não consegue hegemonizar uma equipe nem solucionar as dores da vida.
Um deus esfacelado com um trono vazio...
Um novo cuidado é preciso ser inventado.
Faliu o tecnocentrismo, o hospitalismo, a medicalização... que fazer? .. o que inventar?...
Cuidado: amor, ternura vital, carícia essencial, justa medida, conviviabilidade, compaixão e solidariedade...
Um novo cuidado instituinte que só será implantado se os quem pensam nas dores e amarguras dos que sofrem no adoecimento e nas filas dos serviços de saúde, o assumirem como desejo e vontade de potência.
A vida é um passar e um sucumbir... O insuportável é solidão e o desamparo nas vivências de dor da vida humana.
Na crise instalado, há um vazio... Ocupamos ou não.
Se não ocupamos, carregamos conosco o cinza instituído nos serviços de saúde que possuem a cara da morte, morte que quem ali vive e trabalha incorpora no próprio corpo.
Há uma revolução no ar... Façamo-la ou continuemos tristes e vendo nosso povo excluído e abandonado nas horas tristes e amargas da doença, da dor e da morte.
Cuidar é partilhar...
Cuidar é.amar e se dar... companhia e compaixão nas agruras da dor e nos sacrif´cios da reabilitação...
Cuidar é amar...
Cuidar é afirmação da vida na vida que sofre e vê estropiada pelas desventuras do caminho.
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O mundo chora e sofre... cuidemos, alegremos... Transformemos nosso ofício de cuidador numa militância pela vida.
Uma lágrima secada e compartilhada...
Uma dor dividida e partilhada...
Um carinho na agonia...
Um gesto de amor e compaixão...
Tudo isso muda a realidade de exclusão e desespero da vida dos que padecem e da vida dos que trabalham, tendo por ofício a alegria de ser a voz da vida nas travessias difíceis e na própria hora da partida.
Estamos falando que a medicina mitificada e endeusada, por muito tempo negará... Como a ciência não perceberá...
Falamos do que pode o amor no cuidado dos que sofrem...
O mundo anda surdo, mas a voz do amor é escutada e esperada pelos que padecem na dor...

Simplesmente BÁRBARO! Que Deus te ilumine sempre com essa consciência de si e do outro. Cheguei à conclusão de que nada terei a reclamar no PROCON...rsrsrsrs! Beijos, mil beijos em teu coração solidário, fraterno e poético.
ResponderExcluirTânia, sinto-me sustentado no seu carinho e impulsionado a crescer para não distanciar-me tanto do horizonte visto.
ResponderExcluirA vida é e será sempre um espetacular laboratório. Nos re-fazemos todo dia.
Assim, vamos buscando um novo patamar de vida, prometo aceitar a alquimia do destino, me re-fazendo num sentido da intensificação da ternura e suavidade,
para, merecer seu carinho.
abraços com ternura, Jorge
À primeira escrita
ResponderExcluirEnsina-me a chorar, a tresloucar,
O teu beijo é um doce cantar
O teu gemido me impele a ousar
Quero a paz narrar deste momento
Nossas vidas em movimento
Instrumentos de nossos próprios sentimentos
Minhas lágrimas escorrem por dentro
Inundando a minha alma de paixão
Devir emoção
Tomando conta do meu coração
Sonhar
Simplesmente navegar
Nos braços da ilusão
Sob o olhar forte da lua
E a permissão imediata das estrelas.
Tânia Marques 20 de fevereiro de 2011
Tânia, poesia linda: com a pele escrevendo no luar, ou o luar tatuando a pele; pura emoção... um mergulho da vida no oceano da paixão;
ResponderExcluirAbraços com ternura e carinho, Jorge
é ...pbens à Tania ...pelo lindo poetar ....
ResponderExcluiré isso amigo ... por aqui poesia e coisas sempre ....sempre bordeadas pela bondade de seu coração
Abraços
Adilson, formamos um carinhoso grupos de apaixonados pela vida-poesia, um caminho de se tecer no entre anores e um novo dia.... Amamos a poesia e , assim, vivemos na suavidade mágica dos que voam na amplidão do azul do infinito.
ResponderExcluirA Poesia da Tânia é belíssima... Esperamos novas contribuições suas.....
Com carinho, abraços, Jorge
Jorge
ResponderExcluirQue texto cheio de verdades. A esperança desses paradigmas novos aparecem aqui e acolá. No nosso hospital escola os corredores são exposições de arte. Temos o pessoal da faculdade de música que vem cantar para e com as pessoas no hospital. Pode ser um começo, mas é.
A humanização dos serviços de saúde são urgentes assim como os do sistema educacional.
bjos
Anne
Pois ... vc abriu seu blog falando de cuidado .. num belissimo texto ...
ResponderExcluirE eu ... te mando esse poema ácido ...
Menino travesso
Menino travesso,
Cabeça cheia de mundos
E fantasias de heróis...
Dormia sob marquises,
Cama dura sem lençóis,
Olhava o mundo às avessas,
Pura sorte, pura cola
Viver é muito duro
A morte não dói...
A casa fugiu,
Fugiu a escola...
Nos palácios...
Discursos englobantes
De risonhos palhaços,
Capazes de tudo dizer,
Inclusive...
O seu próprio fracasso...
... Menino travesso,
Cabeça cheia de mundos,
Viver é muito duro
A morte não dói...
(©by Adilson S. Silva)
Anne, como é gratificante ver a vida se humanizando, não? Penso que o processo de humanização da saúde, da educação, do rua e do trabalho geram um novo homem: amoroso, confiante na vida e no outro, cheio de ternura e esperança, vivo-potente...
ResponderExcluirUm caminho de lutas que dá sentido às nossas vidas...Abraços com ternura e muito carinho, Jorge
Adilson, a poesia afeta e produz mudanças contagiando o desejo de uma nova vida; os poemas ácidos costumam ser mais potentes, pois nos comovem e nos indignam... Nos faz desejar e sonhar com um outro mundo possível...
ResponderExcluirEste menino travesso está belíssimo, meu amigo;
Abraços , Jorge
Muito bom, lembrar dessas pessoas tão especiais que se dedicam em ajudar os outros em se alguma forma aliviar a dor....a solidão...ou mesmo a falta de esperança em dias melhores...pessoas assim são um pouco anjos que espalham alegria, paz, amor e alivio aos corações já tão maltrados pela doença...Deus o abençõe Dr. Jorge pelo seu trabalho e reconhecimento dos outros. Fique com Deus.
ResponderExcluirSara
Sara, a vida necessita dos que se dão, aliviando as agruras da caminhada.
ResponderExcluirUm gesto de carinho na hora da dor alivia e reergue, alguém que sofre caído no chão. O amor e a generosidade criam uma nova vida,
Abraços, Jorge
Cheguei ao seu blog pelo tema "clínica do cuidado", q muito tem me interessado e atraído. Gostei da sua produção. Vc escreve bem, escreve com a alma. Aqui tem sentimento, mas tem razão tb. Muito bom! Parabéns =)
ResponderExcluirIsa, que possamos trocar e crescer no caminho da reinvenção do cuidado-amor... abraços com carinho, jorge
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