jorge bichuetti
...Uma arte complexa e angustiante. Lidamos com pessoas, e com pessoas geralmente no abismo de uma crise.
Diante de nós, vemos vida, mas a vida nas encruzilhadas do destino.
Dor, perda; sofrimento... Solidão, vazio... Desamor...
Eis o temário predominante de uma terapia.
São feridas, cicatrizes; sonhos não- realizados, frustrações...
O terapeuta vê diante de si os excrementos da vida e a potência de um corpo que se desconhece vida e por isso se fez lágrimas, sintomas, padecimento...
Se delira... Não ousa delirar, sonhando um romance de amor e felicidade.
Se escuta vozes... Não ousa escutar um hino de esperança.
O terapeuta lida com vida. Mas frequentemente ele tem por demanda vida estropiada, alma dilacerada.
Insensível, ele nega-se a ver o calvário e evita devir-se Simeão, o cirineu.
Anuviado, ele omite-se e foge da possibilidade de se devir Zumbi, o libertador- guerreiro dos Quilombos.
Ele trabalha, e ás vezes, atrapalha, pois crê na ilusão de que é preciso abster-se, não- cooperar e de que é necessário frustrar, deprimir...
Pretende-se ajuda, explicando o adoecer.
E de tanto rondar pelas feridas do corpo e excrementos da alma, num devir- urubu, ele se alimenta de carniça, e não vê que a dor alheia é um analisador do que precisa de tratamento, esta merda de vida, vida medíocre, rotina robotizada; este mundo mercantil e desumano, consumista e cheio de competição.
Assim, ele age fazendo do entristecer sua arma de ação.
É a terapia- saber prévio, codificando e adaptando, recondicionando o homem para que servil ele retome a lógica do mundo de vendedores e vencedores.
É a terapia- Pilatos e soldadesca romana: lava-se as mãos e ainda se dá vinagre, diante da sede e se tem sempre uma lança com a qual se fabrica da queixa uma chaga à espera de que da cruz venha a ressurreição.
Diante da dor, renunciei-me urubu e tento terapeutizar num devir- beija- flor, sabiá... Curió, pardal... João- de- Barro...
Isto é, inspirado na multiplicação dramática, uso com bastante freqüência a multiplicação musical.
É a música como mais um instrumento na caixa- de- ferramentas da terapia , de uma terapia que se define vida produzindo vida, vida nova , mais vida.
Relembrando casos e casos, devo admitir que minha dúvida para com Freud, Jung, Lacan, Reich; Pichón- Riviere, Baságlia, Deleuze- Guattari e Baremblitt não é maior do que a minha dúvida para com Rita Lee.
Rita Lee é uma estrela...
Quando nasceu, nasceu deixando astrônomos e astrólogos enlouquecidos; o céu perdeu e o chão da Terra se divinizou... O divino humana de uma estrela que se ocultou, num terno e rebelde devir... A estrela se fez mulher, flor, poesia...
Rita Lee é agora uma índia cosmopolita, uma deusa tupiniquim; uma fada cibernética e uma bruxa angelical...
Bela e criativa. Uma guerreira desarmada, que mulher valentia ousou enfrentar crítica e críticos para manter sempre, desarmada, porém , jamais desalmada. Alma livre, mutante... Alma- invenção...
A estrela nasceu... todavia, para isso... quanta mutação.A cegonha intimidada a entregou e ela veio numa nave espacial que enamorada, com ela ficou, fazendo do coração (Lar? Bar? Templo?... Sei lá!...) moradia.
Cantando é intérprete... Através dela, canta um coro de anjos e querubins que traduzem as lágrimas e sonhos de um povo mutante, e multiplicam os frutos já não mais evitado, embora ainda proibidos, e, também, ensinam que atrás do porto existe uma cidade: São Paulo na Guanabara, Nova Iorque em Jerusalém... Ouro Preto nascendo Paris e Londres no meio do Pantanal...
Ela é feiticeira e santa, terapeuta e menina- mãe.
Pop... Rock... Canção...
Simplesmente, mulher, singular e plural, que mundana nos leva aos céus do amanhã e que divina é a ousadia de desejar, sonhar e lutar fazendo do presente, o amanhã teimosia que se exige já.
Ela é inspiração, provocante...
Provocação, inspirando o virtual, o novo, o inusitado.
À ela devo alguns bons momentos da clínica vivida, onde suas canções me permitiam agir, com ternura, sem perder o poder do fogo, a capacidade de impactar nos processos terapêuticos, vinculando compreensão e solidariedade, mudança e vida
Escolhi quatro lembranças... Já que são inumeráveis os casos que roubei suas canções para lidar clinicamente com determinado conteúdo exposto.
Nos tempos atuais, um texto longo... Ah! Corre o risco de ser lido apenas pelo próprio autor.
Primeiro: Senhor F. quarenta anos. Casado, dois filhos. Funcionário público.
Motivo do tratamento: depressão, stress, desinteresse pela vida, pelo trabalho e pela família.
Depois de três meses de terapia, ele reclama :a minha vida é um zero à esquerda. Nada tem graça. Custo a suportar as oito horas de trabalho, chego em casa, desmonto... Durmo e no outro dia é tudo igual.
Olho. Em silêncio, vejo sempre de terno pardo; repetindo as mesmas queixas.
Recordo outras intervenções: o desmonte da sua dependência materna e sua antipatia pelo pai; a criança superprotegida, a lenda familiar de que ele gerenciaria a fazenda, substituindo o patriarca, fazenda perdida na falência familiar; e a sua obsessão submissa no trabalho etc, etc e etc.Recordo, e ainda, em silêncio, escuto uma ressonância musical. Dentro de mim, uma voz ressoa insistente.
Expontaneamente, eu canto:
o Se Deus quiser/ um dia eu quero ser índio,
Andar pelado pintado de verde.
Num eterno domingo...
Espanto. Ele chora e dialogamos longamente.
Falamos sobre rotina e lazer, sobre cotidiano e prazer... Desgaste e desfrute... Etc, etc e etc...
Conversamos sobre a impossibilidade de se sobreviver, longe dos nossos desejos...
Das linhas de fuga- experimentos onde somos nós e fugimos da rotina e do esperado.
Inesperadamente, ele dispara uma série de mudanças na sua vida: passa a reunir amigos e familiares e cozinha, num jantar íntimo semanal; começou a sair, a se divertir e alugou um sítio, onde cuida de um pomar, e uma pequena plantação de feijão.
E agora, o funcionário- índio, o homem que redescobriu o seu domingo vive assintomático, sem medicação e sem queixas.Os homens sorriem... Sorriso baixo, todavia irônico.
Discutimos: machismo, a questão feminina.
Relembro teoria espúrias: a inveja do pênis, a castração; heranças de uma ideologia travestida de ciência. Imaginário do ritornelo edípico.
Peço a palavra e ouvindo notas musicais que iam se conjugando, cantei:
o Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra.
Um sexto sentido maior que a razão...
O debate se aprofundou... Todos falaram...
Desta conversa surgiu dois trabalhos: uma oficina de cidadania em que a questão da mulher e o machismo foram lidados e um laboratório ''Elegia à mulher'', descrito no livro ''Lembranças da Loucura''.Hoje, a problemática mudou... O machismo, às vezes, ainda surge, porém, já se depara com coletivo de homens mulheres que diante dele assume uma posição de luta: por isso, não provoque,/ É cor de rosa choque...
o Não volto... Não quero tratamento... Meus vizinhos me chamam de louco..
Preocupado, sinto-me paralisado. Sem argumentos. Conheço sua história. Sei dos preconceitos enfrentados no cotidiano.
Penso... Penso... Não encontro argumento novo. Já havíamos conversado longamente, várias vezes.Impotente. Escuto um som ressoando, provocante e revolucionário e faço dele a minha intervenção:
o Mas louco é quem me diz / E não é feliz... Não é feliz... Eu juro que é melhor...
Se eles são medíocres, estigmatizadores; se eles desconhecem cidadania, direitos humanos, eu prefiro ( e prefiro mesmo) os que ousam ser Cristo, Napoleão, Di Capri, Allan Delon... Leila Diniz...
''Eles rezam muito'', mas são o inferno.
Atualmente, este usuário é um excelente advogado da loucura. Sabe se colocar, defende o diferente, o singular; o direito e a crise.
E, principalmente, continua se cuidando e produzindo vida, arte...
Quarto: A adolescente Z. Crise impertinente. Rodopia, vaidosamente, num delírio monotemática e repete de cinco em cinco minutos: Eu não a mulher mais bonita.
Um dia, depois de ouvi-la, n vezes na mesma cantinela, atrevi- me e cantei: Miss Brasil 2000...
Ela levou um susto. Arredia, quis desconversar, contudo após uma hora, expontaneamente, procurou-me e numa conversa sincera e lúcida, discutimos: estética e ética, outros talentos, a sabotagem de não se investir no que temos de alheios e negando os próprios e sobre o caráter singular, a beleza pessoal.
Agora, ela canta , escreve, tece...Não é Miss; mas vai construindo um 2000 que lhe tem parecido ''legal''.
Estes exemplos clínicos não podem ser desprezíveis. Quando pensamos o pouco que se consegue interpretando e tantos psicóticos cronificados, desamparados, devo ser autêntico e dizer:
o Rita Lee, que tal nós todos- loucos, artistas, aprendizes de feiticeiros- nós o humano que ainda louco pelo novo, por um mundo novo, numa banheira de espuma, numa nave espacial ou simplesmente no palco do cotidiano, descobrindo a loucura de ser... Ser... Viver, sobreviver...
Sobreviver, resistindo, viver, sonhando...
Assim , finalizo, dizendo, também:
o Ave, Rita Lee... Seu canto é poesia- de vida e de vida capaz de afugentar os fantasmas da morte que tantas vezes nos atravessam a estrada.
Sigamos , cantando...
E rogando aos deuses que a ''Estrela do devir'' possa persistir, seguindo também, encantando este mundo que então estará mais próximo do mundo de justiça e liberdade, ternura e solidariedade, que mundo- clamor de um povo que pode se descobrir mutante.

Se Deus quiser
ResponderExcluirUm dia acabo voando
Tão banal assim
Como um pardal
Meio de contrabando
Desviar do estilingue
Deixar que me xingue
E tomar banho de sol
Banho de sol!
Banho de sol!
Banho de sol!...
Se Deus quiser
Um dia eu viro semente
E quando a chuva
Molhar o jardim
Ah! Eu fico contente
E na primavera
Vou brotar na terra
E tomar banho de sol
Banho de sol!
Banho de sol!
Sol!...
Se Deus quiser
Um dia eu morro bem velha
Na hora "H"
Quando a bomba estourar
Quero ver da janela
E entrar no pacote
De camarote...
Rita Lee
Se Deus quiser, e ele há de querer!!! E enquanto isso vamos cantando, bailando e sonhando... bj
Samara
Samara, um dia, aprendemos a volorizar o desejo e a vida, mas passamos muito tempo gastando o tempo num faroeste pós-moderno...
ResponderExcluirA tribo e suas cachoeiras, o vento e as estrelas, os pássaros... nosssos copanheiros de viagem nos esperam...
abraços jorge