quarta-feira, 3 de março de 2010

BONS ENCONTROS: A MULHER E SEUS DESAFIOS

A MULHER, HOJE... PARA ONDE VAMOS?


Hoje, ouviremos a palavra de Maria Thereza Rodrigues da Cunha, psicóloga, mestre em saúde coloetiva, ex-secretária de saúde e atual secretátria de desenvolvimento social da cidade de Uberaba. Uma das pioneiras do projeto Caps-Maria Boneca...
8 de março. Dia da Mulher, hora de pensar nas lutas do caminho e na sua realidade, desfios e sonhos. Por onde seu porvir- liertação?...

Aqui, então, teremos sua reflexão sempre violosa, com espírito de quem sente o mundo, sonhando-o mundo novo...



" Querido Jorge, para mim é um grande prazer e um eterno aprendizado participar de algo com você, meu eterno amigo,companheiro de grandes lutas e grande mestre.

Coincidência ou não, sábado último, enquanto esperava para fazer exames, li na sala espera de um consultório médico uma entrevista com Patrícia Pilar onde ela falava que para a saúde de nossas vidas, precisamos manter um fio na dependência com o outro, senão a arrogância e a onipotência nos aniquila enquanto ser humano. Segundo Patrícia, a busca pela independência que a mulher tem vivido e experenciado nas últimas décadas tem trazido conquistas incríveis, mas também muita solidão.
Achei esta questão muito interessante, me fez pensar muito. O que ganhamos, com nossa ascensão profissional, social, no esporte e no mundo político nas últimas décadas? Com certeza muitas foram as conquistas, são vitórias inquestionáveis.
Também precisamos anasilar o que perdemos com todas estas conquistas, que a princípio, eu acredito ser a solidão a maior questão a ser pensada concordando assim com a atriz).
Hoje nascemos, crescemos, estudamos em mundo ainda muito machista, que incoerentemente recebe uma influencia muito grande (enorme) da mães/mulheres responsáveis ainda por grande parte da educação dos seus filhos. Vivemos um mundo novo, mas ainda educamos nossos filhos em patamares antigos, muitas vezes preconceituosos. Precisamos enfrentar esta discussão.......
Trabalhamos muito, crescemos, invadimos as universidades, o mercado de trabalho, mas ainda dirigimos pouco, comandamos pouco, situação incompatível com a contribuição enorme que damos a vida produtiva em nosso país.
A cada dia mais e mais mulheres cuidam sozinhas de sua família. Geramos os filhos, na maioria dos casos educamos quase que solitariamente, trabalhamos fora, mesmo assim são muitas as mulheres que padecem de escravidão familiar, sexual, que são mortas por companheiros inconformados com a separação.
O que será que nos falta? Não sei bem, mas se livrar de preconceitos arraigados, do moralismo impregnado durante séculos não é tarefa fácil e nem pequena, é de um gigantisco incalculável.
Talvez a grande sacada que as mulheres estão tendo com todas as suas conquistas e vitórias, foi de assumir que ela tem um jeito próprio, uma maneira diferente de ver o mundo, de se relacionar com as pessoas, uma capacidade não melhor, nem pior, mas diferente do mundo masculino. Esta diferença não é para nos diminuir, mas sim para que possamos compreender que temos um maneira própria de ver e de cuidar das ciosas e das pessoas.
Não somos nós que defendemos tanto a diferença? Pois é, as conquistas para o mundo feminino serão cada vez maiores, na medida eu acredito que as mulheres assumirem suas diferenças, seu modo característico de ver o mundo. Nossa sensibilidade, nossas emoções sempre a flor da pele, nossa capacidade de ver um mundo cada vez mais amplo, nosso apreço ao diágolo, não podem ser vistos como defeitos, como problemas, tudo isto é sim uma grande e diferente forma de ser e de viver.
Espero ter contruido....... "  Dra Maria Thereza Rodrigues da Cunha




Assim eu vejo a vida
                Cora Coralina

                                                                                      

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
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Uma mulher
          bruna lombardi



Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela

a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca

uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora

o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
*********
A MARIA THEREZA NOSSA GRATIDÃO PELA CONTRIBUIÇÃO, E TODOS QUE REFLITAMOS E QUE USEMOS NOSSAS FORÇAS PARA QUE O MUNDO SEJA MENOS MACHISTA E VIOLENTO, MENOS ALHEIO AO TERNO E SUAVE, GUERREIRO E AMIGO QUE NOS TRAZEM
AS MULHERES


Agora,  teremos conosco a palavra de Evacira Coraspe.
Evacira Coraspe, jornalista, é uma liderença de inegável lucidez: exemplo de solidariedade, serenidade e cidadania.

EVACIRA CORASPE

Evacira: O que pode a Lei Maria da Penha?

                                                       A Mulher tem proteção garantida?
                                                        Ou tudo ainda é um sonho?

A Lei tem alto valor social.
Como instrumento legal a Lei Maria da Penha, funciona como um freio à violência contra a mulher. É um ato punitivo para homens que agridem fisicamente suas companheiras. Seu aspecto efetivo refere-se a aplicação com eficiência, restringindo a impunidade e ferramenta que mete medo em alguns homens. Medo? Não garante proteção absoluta. Mas para quem não respeita, um pouco de medo já ajuda. O sofrimento não é apenas físico, mas emocional, psicológico, moral.
Se é um sonho?
O sonho reside em em ser participante de uma civilização, cujo contexto histórico não necessite de punições, ou leis para proteger a mulher, o ser humano belíssimo que é o sexo feminino.
Sonho que a sustentabilidade do ser humano seja sensibilização, educação e fraternidade.
Sonho com a renovação de comportamento, com mais amorosidade e que não seja necessário recorrer ao mundo jurídico para dizer basta. Não me agrida. Não me mate.
Sonho está na perspectiva de que: A mulher tem um corpo, onde existe uma alma e um coração que pulsa.
É preciso substituir a força bruta pela força carinhosa e dignidade.



EVACIRA, COM CARINHO RECEBEMOS SUA DÁDIVA... A LEI É UM PAPEL MORTO, SE NÃO VIGIAMOS, LUTAMOS, ASSUMINDO O SONHO DE UM NOVO MUNDO, MUNDO DE TERNURA E AMOR, ONDE A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA, NÃO SEJA VIOLADA PELO MACHISMO DOMINANTE...



Todas as vidas

                                                                               Cora Coralina



Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.


EVACIRA

                                        ( Às mulheres que num devir família são, também, solidariedade)
                                                                             jorge bichuetti


Conheço alguém, alguém, afilhada da ira
que se atrelando à fé soube devir-ternura;
carregando sua cruz, o fel da vida atura
e, assim, mais do que musa , ela é a própria lira.

Lira, abelha, sol... Luta-alforria:
eis sua destinação, pratear o chão co’a lua,
para calar o pranto e fugir da dor crua.
Ela é alguém, alguém... A fiel, leal Evacira.

Erva-doce... De Goiás... Verdejante existir.
Gabiroba, cerrado, enfim, larva, elixir
de um jeito de amar por demais suavidade.

Mãe- carinho maior... Dá-se inteira; é ninho.
Esposa- coração amante; um cantar-passarinho,
trinando um estar pra nunca haver saudade


 

terça-feira, 2 de março de 2010

A MÚSICA NO ESQUIZODRAMA: SOBRE O AMOR

DOR AMOROSA: CANTAR, CANTA...
                              jorge bichuetti



''Mora na filosofia, pra que juntar amor e dor...''
...O amor é fonte de felicidade e prazer agrega e quebra a solidão; com ele, voamos... Transcendemos o cinzento do dia- a- dia e nos misturamos e nos colorimos de azul, céu e mar; de verde, esmeraldae campinas; de vermelho, amarelo, rosa, flores, sol, alvorecer...
''Toda carta de amor é ridícula...''
Todo texto, também...
O amor cantado em verso e prosa, é igualmente sussurrado, lamentado nos diálogos da clínica. Porém, emerge quase sempre num emaranhado de soluços e lágrimas.

Dor amorosa - tema clínico...
Para Freud, o amor envolve sempre uma simbiose, fisiológica ou patológica
Reproduz a trama edípica
É amor dependente.
Guattari sugere existir máquinas edípicas, dependentes. No amor marcado pela fallta.
Máquinas celibatárias no amor livre
E propõe a construção de uma nova suavidade, a solidão compartilhada do amor que se sedimenta na multiplicidade dos encontros.
Contudo, na clínica hegemonicamente apenas sobrecodificamos o discurso da dor amorosa
Perda, ciúme; frustração, desencontros e decepções são reduzidos à trauma familiar, à incapacidade de se lidar com a falta ou ao diagnósticos de identificações e projeções que fazem do ser amado ar e pão, suprimento indispensável à vida.
Ninguém é uma ilha; ninguém, também, insubstituivel
O desejo não tem objeto. ''O nosso amor a gente inventa'' ou ''quem ama inventa as coisas a que ama''
Desejar é correr risco.
Contudo, não desejar é putrificar- se, mumificar- se em vida.
Assim, precisamos lidar melhor com a dor amorosa: na clínica, rua...
Na clínica, na rua... A música tem sido uma boa companhia da dor amorosa.
Certa vez, um jovem chega à terapia carregado de amargura. Havia perdido seu grande amor.
Bancário, vida metódica. Dependente compulsivo.
Após a raspagem do emaranhado edípico cristalizado, onde perda/culpa, identificações e projeções percebidas, foram desanuviando a dor, persistia, porém, ainda muito sofrimento, saudade, coração ferido.
Dialogando, descobri: andamos esquecidos do modo popular de curtir e superar a dor de amor frustrado.
Conversamos, então, cantarolando músicas de amor: Noel Rosa, Lupiscínio, Bethânia, Chico Buarque, Djavan...
Em vez de negar a dor, a compreendemos real; só superável, se vivida. Ele passou a se permitir a ouvir canções de amor, sem temer os próprios sentimentos:
''Nosso amor que não esqueço
e que teve o seu começo
numa festa de São João''.
''Você sabe o que é ter um amor meu senhor, ter loucuras por uma mulher.''
''Cantei, Ah cantei... Até ficar com dó de mim. E num instante de ilusão''.
''Começar de novo
só contar comigo
vai valer a pena
ter amanhecido''.
Extraímos do modo boêmio de enfrentar o amor e suas dores, um jeito de se cuidar.
Ou seja, um jeito de viver sem precisar da negação do sofrimento, nele mergulhando na companhia de uma bela canção para voltar à estrada, desejoso de viver e amar.

Num esquizodrama, trabalhamos as lembranças do primeiro amor e o amor dos nossos sonhos.
No aquecimento, uma valsa. Rodopios, bailados...
O grupo foi estimulada a criar um som gutural que expressasse o flutuar amoroso do valsar.
Sentamos numa roda. De olhos fechados. Ouvimos. Roberto Carlos, Cascatinha e Iana... E ''se esta rua, se esta rua fosse...''
Depois, sentamos em roda. Relembramos cenas do primeiro amor, de amores inesquecíveis...
Dividimos o grupo em três sub- grupos.
Cada grupo deveria dialogar, trocar... e montar uma cena.

Grupo1. Campo. Um riacho. Namorados passeam de mãos dadas.
É pedido que escolham um fundo musical.
''Como é grande o meu amor por você...
Nem mesmo o céu,
nem mesmo o mar
nem o infinito...''
O grupo volta a passear...
E constrói solilóquios, sussurrados, sobre seus sonhos de amor.
Encerram a cena com palavras ao vento que acrescentariam à cena: ternura; menos repressão; coragem de assumir o amor; saudade é forte mas nos faz sentirmos vivos; sonhar amores é exorcizar a morte...

Grupo2. Sala- de- estar. TV... Flores. Crianças brincam e um casal briga e termina em lágrimas o namoro.
Música - Atrás da porta. Voz forte, doída, de Elis.
O grupo todo emociona...
Nasce um diálogo: rupturas, desencontros...
A dor da paixão quando esta agoniza.
Eterno? Finito?
Terno? Vivido, intensamente?
O grupo - vê no espelho de outros em cena dois focos: as crianças brincam, brincam... E o casal briga, briga...
É proposto, então, que se faça uma nova cena: o casal deverá brigar com à lógica ( à modo ) do brincar infantil.
A briga torna-se jogo, e jocosa.
Risos...
Descobre-se atrás do melodrama do adulto novas possibilidades - o brincar adulto novas possibilidades - o brincar com as dores, delas rindo como quem desfaz fantasmas soprando o ar e no ar, nuvens passageiras, bolhas- de- sabão.
As crianças ao brincarem, incorporandoo clima da briga do casal, forja uma cena. Uma cena de guerra. Tiros, espadas...
O grupo silencia...
O silêncio pesa... Angustia...
Trocas: como incitamos o mortífero de uma guerra bélica, como administramos diferenças, desavenças com clima de poder, poder sobre o outro. Invadimos e somos invadidos; acorrentamos e nos deixamos acorrentar.
O grupo, então, ao som de A Rosa de Hiroshima refaz a cena . As emoções intensificadas...
Alguém grita- Paz!...
O grupo é chamado a montar uma estátua que expresse o desejo de paz, paz no mundo, paz em nós...
Estátua move-se, baila...
Congelada, escuta o poema ''Amigo'' de Cora Coralina.
Sentados, conversa-se sobre como é suave o fim amoroso se ele é visto e vivido pelos nossos corpos sem o signo da vitória/ derrota; sucesso/ fracasso. Como é suave o fim se ele é apenas a dor- saudade, relembrança.

Grupo 3. Fogueira. Festa de Santo Antônio. Quadrilha...
Simpatias para se conquistar um grande amor.
Risos, brincadeiras.
Cultura popular: resgate, simpatia.
O grupo contagia e todos brincam. A cena multiplica-se, expontaneamente.
No final, ao som de ''Começar de novo''. Arquiteta-se uma fé, fé coletiva.
Fé nos outros muitos amores que virão.





POESIA : ELEGIA À MULHER

DEVIR MULHER
           jorge bichuetti



Ternura e suavidade
potencializam a vida;
a força da austeridade
cria o furor genocida.

O falos, autoridade,
tirania decaída,
não sabe da sobriedade,
só gera alma constrangida.

Devir mulher – florescência
de um povo-com-paixão
que gesta no amor a essência

de uma vida sem solidão.
Devir mulher – a consciência
de um porvir-libertação...

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MULHERES
            JORGE BICHUETTI


Pano de prato. Fogão. Um assado no coração.
Vassoura. Bruxaria. Na pele, uma carta de alforria.

Mulheres, mulheres... Desejos, devaneios.

Tecem. Arquitetam. Mercadejam...

Mulheres-lua... Olhar sedutor, bailado,
um estar construindo
o sol onde hão de o por...

Ontem, do lar; hoje, são empresárias,
domésticas, doceiras,
faceiras,
professoras...
autoras: de um novo mundo
onde seja, por lei,
proibido negar o direito
de no cio amar.


SEDUÇÃO FACEIRA

                                                                               ( com saudades da Bah-ia )
                                                            jorge bichuetti





Cadê meu colar, seu moço,
sem enfeites não posso amar...
Cadê meus brincos, seu moço,
sem brilho não sei sonhar...

Meu batom é u’a navalha
que protege do azar...
E é de renda e de palha
meu jeito de ser e brilhar...

Seu ouro, aqui, é lixo.
Viver é se encantar...
Sua prata, aqui, é bicho
e eu... não quero caçar...

O desejo é u’a fruta doce,
jabuticaba no pé...
Pra mim, tesouro, hoje,
É dengo, ginga e axé..


CHORO DOÍDO
         jorge bichuetti




Maria chora à-toa.
Chorava no tanque,
chorava no fogão.
Chorava... de pensar.
Chorava... no rezar.
Oh! amargura. Choro doído,
feito espinho no pé, na fé...
na luta.. na lida...
espinho doído, esfarrapando
o caminho e a vida...

Maria chorava à-toa.
Chorava se chovesse;
chorava se o sol
chegasse, esquentando,
clareando sua nóeas,
suas chagas desnudando.

Maria chorava, choro doído...
Chorava com o fogo da paixão,
chorava com o frio da solidão...
Não havia consolo. rosa,
guiné, arruda, benzição.
Chá de alecrim... cachaça.
Nada lhe consolava...
Cansada, moída de esperar,
ela já não sabia que amar
não era chorar e esperar,
não era esperar e chorar.
Era... amar e sonhar;
era ... um sempre querer mais.

Não, Maria estava demais,
num mundo que não a via...
Num canto, ela; ele, na folia...



LUA
  jorge bichuetti

                                                                       

Pequena travessa, doce
companhia. No céu, na rua,
com seu jeito de brilhar...
É, nos folguedos, cadela;
nos meu sonhos... lua, luar...



DIIÁRIO DE BORDO: 8 DE MARÇO...

                               DIÁRIO DE BORDO: POR UM DEVIR MULHER...

                                                                                           JORGE BICHUETTI


Freud, preso aos limites vitorianos do seu tempo, viu na mulher uma marca: a inveja do Pênis...
De novo, o mesmo: o desejo colocado entre a maça e a serpente.
Não percebeu, então, que a opressão a levava, sim, a ter um terrível estigma: medo de bicípites...
O cotiano, assim, conta...
- Mulher, o que você fez que a janta ainda não está pronta?
- Cala a boca, você não sabe de nada!
- Mulher, você engordou... Ih! tá ficando velha e feia...
Os hospitais falam, também: hematomas, fraturas de costelas, pontos e gessos etc...
No trabalho, assédio sexual, salário baixo, desprestígio...
... Contudo, a mulher acordou e pouco-a-pouco luta e conquista seus direitos.
Março, 8 – Dia Internacional da Mulher... Celebração e luta, resistência e insurgência.



No campo psi, muitas revolucionaram o pensamento: Marie Langer, Madre Cristina, Nize da Silveira, Ana Pitta e muitas outras, muitíssimas, pensaram e atuaram contribuindo com a luta da mulher.

Este mês ouviremos muitas destas valorosas companheiras que trabalham e cooperam com a emancipação da mulher.

Hoje, iniciando nossas reflexões lembraremos Deleuze-Guattari...
O mundo não sobreviverá sem o devir mulher... Devir mulher das mulheres e dos homens, devor mulher dos heterossexuais e dos GLBTS...
O devir é sempre minoritário... e gera o genuinamente novo: a ternura e asuavidade, a generosidade e o espírito de partilha.
O homem e o seu poder falocêntrico majoritário produziu a guerra e a violência, a competição e o egocentrismo; a força bruta e a exclusão.
A mulher caminhou oprimida por outras veredas, e a sua desvalia agora diante da falência do status quo é potência de mudança.
Reflitamos... e ousemos devir... devir mulher, para que uma nova suavidade salve-nos da solidão e do desamor, do canhão e da destruição do planeta.
Nesta esperança, gritemos: Ave, Maria da Penha! Ave, Maria, marias!...
Elis – Diniz- Rosa – Olga – Anita - Lara – Sosa – Marylin – Beauvoir – Cora – Tarsila -Marina –Zilda –Evita – Juana Inés – Elke – Monique – Starling – Helena Greco...
E, tambem, Joaquina, Sebastiana, Ambrosina , Ana ... Maria, marias!...
Com elas e por elas, e pelo novo mundo que há de vir, lutemos...