segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

SOCIEDADE DE AMIGOS: A POESIA DE CONCHA ENTRE A POEIRA DO CHÃO E AS FAÍSCAS DA IMENSIDÃO

                       DESANDARES
                           Concha Rousia


Partimos do Nada
levando em nós o Todo

Assim nascemos
generosamente possuindo
tudo que desconhecemos
cegos para fora de nós
tudo é nosso 
tudo nós pertence
sem o termos

Aos pouquinhos
abrimos os olhos
e vamos nos desfazendo de tudo
aí o mundo que era nosso
passa a ser-nos estranho
conhecer obriga a separar
obriga a despertencer
cada passo dado
é passo perdido
não se recupera o andado
não se desanda a vida
do blog: republicadarousia.blogspot.com 


em cada concha, um sonho...
um além... a poesia da vida na
epopeia estelar da flor que nasce
entre a pedra do caminho e o horizonte azul...

BONS ENCONTROS: O AMOR NO OCEANO MÁGICO DE CLARICE LISPECTOR

                  Amor

                              Clarice Lispector


Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

 Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

 Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

 No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

 Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

 O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

 O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

 A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

 O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

 Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

 Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

 Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

 A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

 O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

 Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

 Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

 Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.

 Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.

 A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.

 De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

 Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

 Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

 Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

 Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

 Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

 As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

 Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

 Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

 Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

 Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

 Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

 Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

 Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

 Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

 Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

 Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

 Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

 Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

 — O que foi?! gritou vibrando toda.

 Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

 — Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

 Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

 — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

 — Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

 Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

 Acabara-se a vertigem de bondade.

 E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.


Texto extraído no livro “Laços de Família”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19, incluído entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi. 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

SAMBA E AMOR NAS ONDAS DO MAR....

o amor       verdadeiro 
é ninho no  verdejante
bosque        encantado
na beleza       inteireza
pura                  paixão
o vento acende,    fogo
cio,     calor   e carinho -
repouso entre o sonho
e as pulsações do luar...

                                jorge bichuetti


o amor  e a flor
poesia   do luar
um carinho  no
corpo,        vida -
      celestial


            jorge bichuetti



mar e a-mar,
lua e sonhar
um  jeitinho
de   navegar
no      corpo
o       desejo
    cio
       do mar
             do amar
conjunção estelar

                                 jorge bichuetti



ENTRE PEDRAS, FLORES...

POESIA: ENTRE O MAR E O CAIS...

                         VIDA NO CAIS
                        Jorge Bichuetti

Não quero a morte no cais; nem desejo
ali viver, longe, das aventuras e errâncias
que animam os caminhos do mar...


Um dia, beijarei a pele macia
do horizonte azul... abraçarei
as cordas coloridas de um arco-íris...


Só, assim, saberei dos sonhos
e, então, poderei no silêncio do 
cais... cantar na aurora a oração

da vida que pulsa e brilha, além
dos suspiros e gemidos, dos versos
contidos na morte indolente dos que 
não ousaram ir buscar um novo dia,

vivendo, assim, nas sombras da vida
impedidos de de ser e voar... de ser
a voz encantada pela beleza do infinito
que sempre mora um passo adiante,

onde os delírios se aninham e o amor
floresce sob a luz da vida que mora
nas asas tresloucadas da poesia do luar...

Entre o mar e o cais, hei de muito amar...

DIÁRIO DE BORDO: NO CÉU ESTRELADO, HÁ CAMINHOS DE TERNURA, E SUAVIDADE... BAILADO DA VIDA NA MÚSICA DO VENTO...

                             Jorge Bichuetti

Madrugada, céu estrelado... Os álamos, altivos e elegantes, bailam... A música do vento enche de cirandas o verde do meu quintal... A Luinha despertou cedo, quis tudo ver...  Com seus olhinhos de jaboticaba, fisgava o movimento dos pássaros nas árvores... Longe, um galo cocorocó... O sol ainda dorme, mas, o orvalho e o cheiro da terra encanta o entre a noite salpícada de estrelas e a manhã, vida remoçada no sol nascente...
Contemplei o infinito... Como é bela e imensa a amplidão da vida!... A imensidão canta e ora no silêncio das manhãs...
A roseira já floresceu novos cachos... seu perfume impregna o ar com ternura e suavidade...
A vida é um poema de Cecília Meireles, pintada por Tarsila de Amaral e musicada por Villa Lobos... Mas, tem seus dias de Portinari... com versos de Bandeira e Pessoa na musicalidade melancólica de Tchaikovsky...
Viver é traçar caminhos nos entulhos da realidade... inspirada na poética da vida que encanta as manhãs...
Viver é caminhar... mas, podemos seguir nos embalos do vento... ou inspirados pelo céu estrelado e pelo sol nascente... ser um tecelão de destinos, inventando caminhos e sonhos...
O tempo passa... lento ou ligeiro, mas passa...
O vento uiva e movimenta... leva as folhas secas e renova o manancial das nossas sementes...
Viver é semear... é semear vida no caminho; caminhos, na vida...
Os que passivamente voam com o vento... Bailam nas rotas do destino sem direção...
Viver é escolher, experimentar, eleger caminhos e horizontes...
Podemos ir na correnteza...  ou desbravar vida nova no coração do infinito...
Podemos sentar e esperar... ou guerrear e semear no coração da vida um novo porvir...
Há dias que o tédio e preguiça dominam e desatentos deixamos o barco da vida seguir à deriva... Nau à deriva, vida que baila sem direção e sem horizonte azul...
O encanto do céu estrelado é um apelo da imensidão para que sob o clarão do sol, não nos esqueçamos que o horizonte representa u'a silenciosa indagação da vida: o que queremos da existência?...
Queremos viver alienados da própria vida que clama na lágrima dos que muito sofrem um novo rumo, uma nova direção...
Queremos viver esquecidos das nossas angústias e tédio que nos reclama por novos caminhos e novas experimentações...
Renascemos no ventre de cada manhã... Bela, a vida nas nossas mãos é vida tecida: ânsia de vida nova... grunhidos da solidão...
Precisamos desbravar caminhos de ternura e suavidade, compaixão e solidariedade...
Precisamos romper nossa gaiola e voar, livremente... reinventada na vida u'a nova vida que nos possiblite ser e estar além... em conexão com o outro... num caminho de partilha... voando com asas da solidariedade...
O eu é uma prisão...
O narcisismo, uma vida regressiva, infatilizada... energia estagnada nos rodopios da ilusão...
A vida é cio e estio... Cio germinativo que agencia novos modos de ser e estar no entre das relações... Estio, introspecção que nos permite ouvir o que fala a música que toca no sarau vivo dos nossos corações...
Assim, nasce novos caminhos... de alegria e paz... Porque, assim, encontramos no caminho a magia de amar e sonhar, buscando na aurora... a nossa condição de estrela do chão fértil que harmoniza o canto da imensidão...

MESTRES DO CAMINHO: O HORIZONTE DE UMBERTO ECO...

                                 REFLEXÕES:

- "Alguém que é feliz a vida toda é um cretino; por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto."

- "Todos somos hereges. Todos somos ortodoxos. Não é a fé que um movimento oferece que conta. Conta a esperança que propõe."

- "Rir do mal é não estar disposto a combatê-lo. Rir do bem é desconhecer a força com o qual o bem difunde-se a si próprio." 


- "Minha salvação começa pela consciência de que nada sou e de que nada me é devido"

 - "A arte só oferece alternativas a quem não está prisioneiro dos meios de comunicação de massas."

BONS ENCONTROS: A DOÇURA E O DIÁLOGO NA EDUCAÇÃO SOB O OLHAR DE RUBEN ALVES

                                SOBRE EDUCAÇÃO:


"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música
não começaria com partituras, notas e pautas.
Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria
sobre os instrumentos que fazem a música.
Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria
que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas.
Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas
para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes".


                    ***
"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.


Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado."


                RUBEN ALVES

 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

VENTO NO LITORAL; CANTO DA PATATIVA...

de tarde,
mergulharei no infinito azul
e deixarei  o vento  me levar...


num canto da imensidão,
semearei  meus sonhos e
os restos estelares da  mi'a
vida, composição lunar  no
oco mingüante da patativa
terno sopro na sinfônica  e
pneumática      devastação...

                 jorge bichuetti



ENTRE PEDRAS, FLORES...

POESIA:

                    VISÃO
                 Jorge Bichuetti


A vida, como a bola de sabão,

colorida e frágil, voa e num estalo
desaparece sutil e breve...


A minha mão fica vazia; meu coração, não...


Elas são inesquecíveis centelhas de ilusão...


                                ECO MUSICAL
                                            Jorge Bichuetti


Há um pássaro
vivendo no meu
coração: canta e voa,
deixando ali semeado
u'a terna musicalidade...


Quando, então, numa dor,
eu me desfaço... um eco
de canção passarinheira,
desperta-me, me refaz e,
assim, sigo meus dias...


Entre o cerrado que floresce
e o horizonte que se afasta, o
canto dos passarinhos dão ao
caminho u'a trilha musical, no
passo incerto que nunca sabe
se o canto é um início ou o fim...


                        NO CAMINHO
                          Jorge Bichuetti

Caminho incerto, cruzo
pontes e nascentes e, assim, voo
na ilusão de que o mar me espera...


As nuvens turvas cobrem 
de sombras os meus passos;
porém, longe ou perto,
ecoa as ondas do mar...


Só busco o mar, nele
o azul que colore meu cismar
há de abrigar meu cansaço e
meu último suspiro, como acolhe
as folhas secas do rio...

SOCIEDADE DE AMIGOS: A MAGIA DA ESCRITA NA POESIA DE ANNE M MOOR

                             DELÍRIO
                                 Anne M Moor


escrever é a porta para a liberdade.
ao som do teclar e
o pintar de imagens
fazemos amor com as palavras.

escrever é reinvenção
do idear na vida e
da compreensão
em caminhadas longas.

escrever é ver-se
na pintura dos sonhos
e no delírio do viver.
 FONTE: http://anne-lifeliving.blogspot.com/