O despertador não tocou... Os pássaros, sim; eles me acordaram... Suavemente, como se quisessem que o orvalho da manhã me enternecesse e fecundasse... de alegria e paz... A Luinha fingiu nada ouvir... Só se levantou quando junto aos álamos eu dialogava coma vida... Ressabiada, parecia temer por minha sanidade...
Conversamos, comumente, com pessoas que não nos escutam; mas nos sentimos um poco loucos dialogando com a vida, mesmo ante a a escuta permanente da natureza que sua mineiridade é boa de prosa...
Nunca paramos para fugir dos parâmetros médicos e ouvir nosso coração e escutá-lo no seu parecer sobre o que normalidade e o que é loucura...
Olhamos o mundo com os olhos dos compêndios de psiquiatria...
E cremos neles: as flores não falam... o luar e as estrelas não sentem... Será?...
Os passarinhos orquestram no canto do amanhecer a poesia da esperança...
O orvalho fecunda o coração da terra, fazendo florescer num ato guerreiro de quem nega o pessimismo e o fatalismo e crê na fecundidade do destino e da história...
Tenho no luar e na minha pequena Luinha dois amores que acolhem, me cuidam, me acariciam e me ensinam a amar, não como quem se apropria, mas como quem se dá...
Os loucos deliram; contudo, a guerra é racional... Lúcida na sua ganância de empoderar-se através da destruição do outro...
O delírio do loucos é a lucidez terna da vida que brinca de fantasiar como quem inventa um novo caminho que embora invisível, mora no ventre grávido do tempo que tem ânsia de mudança e inovação, vida nova, nova suavidade...
Nunca ou quase nunca escutamos os delírios dos loucos... e tanto não serem ouvidos, eles se mesclam com figuras e linhas do passado... Ocultam a poesia do porvir, temerosos do mundo que massacra quem ousa conjugar a vida no tempo da esperança...
Vendavais; tormentas... falam do cansaço da mãe natureza...
A violência é o grito agônico de uma sociedade de competição e exclusão...
A vida fala e não a escutamos...
Brincamos de temer o apocalipse, fabricando-o com nossa cultura bélica e fascista... com a nossa destrutividade...
Mas, a vida canta... E como é belo o canto da vida....
A vida é ânsia solidária e compassiva, sonhando com o amanhecer do novo... Da vida de partilha e comunhão, de inclusão e fraternidade...
Enquanto idolatramos o individualismo... a vida é humanidade em luta com a nossa desumanidade...
Ela espera... seus guerreiros e seus poetas... os que ousarão ir no horizonte buscar a aurora de um novo tempo de amor e paz...
A morte discursa; a vida canta...
A morte escraviza; a vida encanta...
Ela é a magia do porvir... negada pela mediocridade da nossa vidinha tristonha e cinzenta...
Assim, a morte dita suas verdades absolutas... e vida germina na sementeira includente do devir, do sonho e da arte... ela canta na ardência do que não vemos nem vivemos, ela canta nos etecéteras que serão paridos um dia na alvorada do amor terno das manhãs encantadas pela poética dos passarinhos...











