Jorge Bichuetti. Médico, Psicoterapeuta. Analista Institucional e esquizoanalista. Diretor Clínico da Fundação Gregorio F. Baremblitti/ Uberaba. Professor do Instituto Felix Guatarri/ BH.
Autor de Lembranças da Loucura, Crisevida e Estrelas Cadentes. Poeta, militante, sonhador...
... Entre amigos, madrigais e a Lua é um nômade caçando o seu devir passarinho.
ESTE FARDO Jorge Bichuetti Cansado e velho, meu corpo pesa; assim, carrego-o com a sensação de que o tempo aninhou-se na estrada... Enquanto, mi'a alma voava no vento... tecendo nuvens e sonhos; agora, meu corpo já não sou eu... Carrego-o, bailando alegrias, sementes; ele me carrega entre flores murchas que mi'a alma ressuscita nas miragens das manhãs...
PEDAÇOS DE SONHO Jorge Bichuetti Chove... De alma molhada, recolho nos entulhos da sarjeta pedaços de sonhos e delírios que me ensinam a seguir, mirando o azul-além onde eu hei de encontrar a poesia do silêncio.
A luz constitui um dos maiores mistérios do universo. Somente
entendendo-a ao mesmo tempo como partícula material e como onda
energética podemos ter uma compreensão mais ou menos adequada dela. Hoje
sabemos que todos os seres vivos emitem luz, biofotons, a partir das
células da DNA. Por isso todos irradiam certa aura.
Não é sem razão que a luz e o sol se tornaram símbolos poderosos de tudo
o que é positivo e vital. Especialmente o sol irradiante é visto como o
grande arquétipo do herói e do lutador que vence as trevas com os
monstros que nelas eventualmente se escondem. Sua aparição a cada manhã
não é uma repetição, mas toda vez uma novidade, pois é sempre diferente.
É um teatro cósmico que começa da cappo, como se Deus
dissesse ao sol a cada manhã:“Vamos, tente mais uma vez! Renove teu
nascimento! Irradie tua luz em todas as direções e sobre todos”.
Na maioria dos povos havia o temor de que o sol talvez pudesse ser
tragado pelas trevas e não voltasse mais a nascer e a iluminar a Terra e
a cada um de nós. Criaram-se rituais e festas que celebravam a vitória
do Sol sobre as trevas. Assim, havia a festa romana do Sol Invictus,
do “Sol Invencível”. Posteriormente, deu origem ao Natal cristão, a
festa do nascimento do Deus encarnado , chamado de “o Sol da Justiça”.
As festas juninas com suas fogueiras têm por detrás a experiência do
sol, pois se inaugura o solstício de inverno.
Fazia-se e faz-se ainda hoje a impressionante experiência de que o Sol
com seus raios de luz, nasce como uma criança. Na medida em que sobe no
firmamento, vai crescendo como um adolescente até chegar à idade adulta
ao meio-dia. Pela tarde vai definhando até ficar velho e morrer atrás da
linha do horizonte. Mas, passada a noite, ele volta a nascer, limpo,
brilhante, sorridente como uma criança. Como não celebrá-lo
festivamente? Como não entendê-lo como sinal da Realidade originadora de
todas as coisas?
De fato, ele é uma imagem poderosa de Deus como o cantou São Francisco
em seu “Cântico ao Irmão Sol”. Nenhuma metáfora da divindade é mais
poderosa que a da luz e a do Sol. A própria experiência da luz fez
surgir a palavra Deus. Ela deriva de di em sânscrito que signfica brilhar e iluminar. De di
veio “dia” e “Deus”, como expressão de uma experiência de luz e de
iluminação. Como diz São João: ”Deus é luz” (1Jo 1,5). “Ele habita”, no
dizer de São Paulo “numa luz inacessível”(1Tim 6,16). Jesus se
auto-apresenta como luz: “Eu, a luz, vim ao mundo para que todo aquele
que crê não ande nas trevas”(Jo 12,46) O Verbo encarnado é “vida e luz
dos homens”, “luz verdadeira que ilumina todo o ser humano que vem a
este mundo”(Jo 1.4.9). Por isso é com razão apresentado como “a luz do
mundo”(Jo 9,5). Os que aderem a Cristo como luz devem viver “como filhos
da luz”(Ef 5,8). E “os frutos da luz é tudo o que é bom, justo e
verdadeiro”(Ef 5,9). Mais ainda. Cada seguidor deve ser também “luz do
mundo”(Mt 5,14).
Como reza tão bem a liturgia dos funerais:”Que as almas do fiéis
defuntos não tombem nas trevas, mas que o arcanjo São Miguel, as
introduza na luz santa. Faça brilhar sobre eles a luz perpétua”.
Nós todos somos seres de luz. Fomos formados originalmente no coração
das grandes estrelas vermelhas, há bilhões de anos. Carregamos luz
dentro de nós, no corpo, no coração e na mente. Especialmente a luz da
mente nos permite compreender os processos da natureza e penetrar no
íntimo das pessoas até no mistério luminoso de Deus.
Jorge Bichuetti Alvorecer com os passarinhos, sentindo o orvalho e o cheiro-da-terra... cria na nossa alma um estado psíquico fecundado pelo dom da esperança... A esperança é muito mais do que a vida valsando nos compassos da espera... Esperança é caminho; voo... Busca incessante; luta aguerrida... A esperança é sonho menino... que brinca, olha o infinito e alada, deseja os confins da imensidão. Espera ativa; luta tecida por sonhos... vida que caminha sem medo das curvas do destino. A esperança é subversiva: rompe o tempo e acorda a fúria dos ventos transformadores... Colore as cinzas deste nosso tempo tão transbordante de ontens; tão vazio de amanhãs... A manhã - sol nascente, estrelas na despedida... pássaros no regozijo dos cantos de ternura e compaixão... a relva molhada, cio da vida nas entranhas da alma... a manhã é grávida de esperança... Conta-nos sobre as cinzas de tantas mortes o que pode a vida parideira... O amanhecer é a rebeldia indignada do tempo que se quer novo... Acordamos e nem bem degustamos nosso café, já vemos corpos no sangue das sarjetas, guerras na bestialidade dos preconceitos e na ganância da força bruta... Escutamos o choro da vida... Mas, também, a vida canta... e pede, roga ajoelhada, clama por atitude, solidariedade ativa... luta por por justiça... Ter esperança é no homem ver o anjo sideral; no mundo, u'a nova realidade de paz... sociabilidade transversal, terna, libertária... A esperança, filha das manhãs, quer parir vida e mundo reinventados na conjugação do verbo amar... Amor incondicional... sem fronteiras... sem trapaças... sem repressão... Para a sonhadora esperança, os grupos de extermínio, as usinas que asfixiam povos e tradições, os interesses particulares urrando para silenciar o Bem Comum... tudo isso é fantasma de um pretérito não-sepultado que se tornou zumbis das nossas tristezas e desilusões atuais... Longe, grita o povo guarani-caiovás... Perto de nós, luzes se apagam... A CEMIG diz não... Anúncio que desvela a nossa mesquinha escuridão... Acendamos velas... Inventemos estrelas... A esperança pode onde metais e o poder só enxergam a ferida narcísica dos próprios umbigos hipertrofiados pelo jogo que suprime o nós, a pátria... a alegria geral... Urge que deixemos a esperança nascer, crescer e lutar... Antes, que tenhamos que sepultar nas pregas do poder disputado os nossos sonhos de ternura e compaixão... Muitos, acomodam-se... Embora, o choro das mães que que carregam seus filhos ensanguentados, diga, silencioso: basta! a vida só pode voar nas asas da liberdade; e não liberdade quando os fuzis decretam o ódio... e as lágrimas nublam com sangue nossos sonhos de igualdade, fraternidade e paz...
- "As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido." - "Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver,
acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e
maior amor ao coração dos homens."
- "A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo."
NAS VORAGENS DO AMOR Jorge Bichuetti Se o amor te tocar: não fujas... não fujas, não; no vento, as folhas secas encontram-se e se abraçam na tecelagem de um novo ninho... Não fujas, o amor é rio na saudade do mar: corre chão, rodopia nas curvas, no desejo voa, viaja sonhando num cais aportar... O amor aninha o vento, aquece o tempo... fecunda no escuro da noite, é o luar orvalhando amanhãs... E, assim, nos braços do infinito, a vida suavemente adormece...
Jorge Bichuetti Chove, madrugada silenciosa... No quintal, o verde mato e as coloridas flores.... fazem poesia de gratidão ante a água da chuva que cai, mansa e serena... Aconchego maternal do cosmo. Eu aqui acordado: olhando a fumaça do cigarro, escuto a respiração leve da minha pequena Luinha... Cuido, desajeitado... Amo-a com a intensidade da vida que acode, aqui e acolá, as peripécias da criação. Luinha, é terna e amiga... e, como se mostrou corajosa... Ontem, num pequeno acidente perdeu sua unha... Sangue e desespero... Embora, ela continuasse brincando... Dormiu um longo tempo comigo... na tarde que também a chuva nos deixava com a impressão de que rodopiamos no infinito no ventre do amor maternal que vela por tudo: vela pelos flores pequenas que margeiam os íngremes caminhos; vela pelas estrelas da imensidão que bailam na escuridão da noite... Havia e há nuvens no luar que busco manter acesso, como uma vela, no casebre do meu coração... Vejo os medicamentos, cronometro os curativos... Nino-a com mi'as cantigas de gente grande... De hora em hora, observo-a: ela dorme. sono tranquilo... E eu só queria saber alguma bruxaria para dar-lhe sonhos de paz e alegria... Ela, logo, estará travessa e encantadora... Nunca havia sentido (sabia!) das longas vigílias que minha mãe realizou, dedicada e devotada, nas noites da minha infância, quando febril... machucado... ou triste... pedia com meus olhinhos de cão um cadinho de carinho, u'a presença que afugentasse a monstruosa solidão... A solidão é monstro selvagem.... quando nos sentimos frágeis... O carinho dela era carinho experiente; amor vivido nas agruras do se dar para cuidar... O meu, amor-menino... Dedicação medrosa... Medo de não ser capaz... Mas, recordo e me tranquilo: o amor-cuidado é a poesia instintiva da própria vida que ordena e desordena, para que superando-nos, desnudemos na solidariedade viva o fio do destino que tece manhãs e amanhãs... Homens, mulheres... crianças, velhos... todos podemos aprender ( um recordar, na poesia da ternura; um descobrir na arte da compaixão)... podemos aprender a devir mãe ante a dor do outro... Mãe; amor-cuidado... Assim, o ruído das balas que aniquilam, mortificam e matam... calarão; e, o mundo se reencontrará na beleza do amor que agrega, cuida, vela... Vela acesa na escuridão; vela-leme nas travessias do mar...
NO BARCO Jorge Bichuetti No barco, sigo... navego mares serenos e agitados; se me arrepia a pele, meu coração só vê o azul do horizonte e a multidão de peixes que pulam, bailam saltando ondas, no picadeiro das aventuras circenses que revela grandiosidades e nem conta, que no fundo, há um paraíso de peixinhos miúdos, pintados à mão, um a um, na beleza singular da vida fora das enciclopédias, da vida na ternura do húmus germinal que tece deuses infinitesimais...
AMOR INVENTADO Jorge Bichuetti Amores passaram, e, se doídos no ciúme, foram miragens nos adeuses já esquecidos... Amores brilharam, e, se a magia era bela, o tempo os fizeram cinzas, pó nas amareladas recordações que desencantadas, morreram sem lágrimas que lhes dessem eternidade... Ah!!! já os amores inventados na poesia dos sonhos de felicidade imaculada, voam... e, ainda hoje, são estrelas nas noites solitárias...