sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

DIÁRIO DE BORDO : SINGULARIDADE E DEVIR

QUEM SOMOS?
jorge bichuetti


   A loucura sempre foi um recurso restritivo da singularidade e do devir.
   Definida pela normalidade e esta pela média das reações do homem comum, valoriza as repetições, o status quo, o jeito de viver funcional a um sistema de exploração, dominação e mistificação, que marginaliza e exclui o diferente, o novo, a vida nômade e criativa de quem se inventa e a vida dionisíaca de quem busca o desejo e os sonhos...
   Assim, a loucura se fez patologia, e normalidade, a expressão da racionalidade técino-instrumental de mundo de vendedores e vencedores... A ciência codificou os limites da vida...
   ... Mas a vida pulsa isurgente e se anseia livre.
   Nossos corpos sentem os clamores da vida e os sentimos, quase sempre, numa lágrima de insatisfação ou num  num vazio tedioso que reivindica novas experiências, novos caminhos, a mudança...
   São os clamores da vida que se anseia potência singularizante e devir.
   Desejamos o novo, mas tememos; afinal, se ousamos seremos dignosticados, fatalmente... Sremos ditos por loucos.
   O relógio e calendário, o vigia e o capataz, a cãmara de filmagem e celular... Um mundo de controle.
   É necessário criar linhas de fuga, vielas de vida nova, singularizações insólitas...
   A Luta Antimanicomial gerou uma nova clínica e uma nova perspectiva de destino, é preciso fazer caber no socius o diferente.
    Se nos queremos diferente, longe da mesmisse, recitemos Fernando Pessoa, com o fervor de quem canta uma oração:
                                    Poema em linha reta


 Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


AVISO:

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

ESQUIZOANÁLISE EM TROVAS ( 7 )

ENTRE PEDRAS , GIRASSÓIS
jorge bichuetti


                                                            T


                 Terapia:
No templo da terapia
houve carniça e dor;
hoje, vigora a alegria,
u’entre devindo-se flor.

Somos todos feiticeiros,
travestidos de cientistas;
nas tabas e nos terreiros,
outros cuidam altruístas.

                     

 Território:
Um campo de referência,
dando chão e segurança;
produz lastro, consciência,
de sulfar na maré mansa.

         




            Transversalidade:
Nota-se o grau da viseira,
nela a visão é total...
Vozes, gestos sem poeira;
num grupo, a liberdade real...


                                            U

                Utopia ativa:

Ah! por uma nova Terra;
também, um povo por-vir:
eis o sonho, nossa guerra...
U’a utopia a perseguir...


                                               


                                                               V

                         Vida:
A vida corre no escuro...
Rocha que não se reparte;
há de se ir além do muro,
nu’a vida como obra de arte.

A vida, obra de arte:
no entre a enxada e a poesia,
no entre o infinito e a parte,
num novo vôo de alegria...

                  Virtual:
Tudo pesa, é concreto,
nesta densa realidade;
onde o virtual tem o veto
de se fluir novidade.

            Vontade de potência:

A vontade de potência
é força desbravadora;
campo cuja florescência,
estrelas no chão, incorpora..


                                                   



                                                          W

Wrtar:
Inventando nova língua
cria-se zonas abertas;
já que racional míngua
virtualidades cobertas.


                                                           X


                        Xavantes:
Brancos, num índio devir,
liberamos nosso guerreiro;
precisamos de convir,
nos falta o aventureiro.


                                                      


                                                                                  Y

                    Ysnar:
A palavra decifrada
numa lei gramatical,
não traduz a lama alada
de um devir animal.


                                              Z

                    Zeus:
No entre o homem e Zeus,
deu-se a luz da criação;
no entre crentes e ateus,
se há vida, louvação.

A MÚSICA NA CLÍNICA

Roda de viola
   Jorge bichuetti



A terapia nunca foi um patrimônio exclusivo do saber científico.
Curamos doenças com pajés, mães- de- santo, benzedeiras... Com mandingas, água benta...
E criamos na vida, no cotidiano da existência técnicas e táticas de lida como nosso sofrimento psíquico.
Moffat resgatou no roda de chimarrão o modo popular de se cuidar, dialogando e silenciando. Magicamente, criando uma roda de pertença, integradora, capaz de mobilizar a formação de um coletivo no presente e de manusear conteúdos ancestrais.
A cultura popular, de fato, é uma fonte fértil e rica de inspiração para a montagem de um trabalho terapêutico, tendo a vantagem de tramar de um modo já habitual, vivido no dia- a- dia. Sendo, assim, menos alienígeno, já que reporta ao costume, a uma realidade cultural experienciada por um grupo, uma tribo, uma coletividade.
E é, neste sentido, que fizemos da roda de viola uma oficina terapêutica.
Quem já não se agrupou em torno de uma viola ou violão; num bar, canto de casa ou quintal, e passou horas divertindo- se no fluir de uma cantoria, onde uma música evoca outra, e esta outra, outra, outra?...
Quem experienciou uma roda de viola não lhe desconhece o efeito terapêutico: ela integra, alegra... Permite evocar numa catarse suave e intensa dores e sonhos, amores e acontecimentos, antigos e atuais... Possibilita expressão artística o nó na garganta, a fantasia inconfessável... E através dela, elabora-se multiplicando canções que permite a alma fluir, espontaneamente entre sulcos, planícies e planaltos da sua realidade interna.
Nela, oficina de roda de viola, usamos a potência do inconsciente de se devir multiplicidades.
Multiplicamos... E deixamos, a roda girar pela multiplicação musical das ressonâncias ocorridas, e as notamos bifurcando, dando complexidade a um dado tema evocado.
Lembraremos aqui três oficinas...
Certa vez, há anos, um grupo de doze pessoas, usuários, terapeutas e um violeiro, reuniu-se... A cantoria começou.
''Caminhando e cantando e seguindo a canção. Somos todos iguais braços dados ou não.''
Canto alto, forte. Alguém recordou e iniciou: ''Bem , que eu me lembro... Dá gente sentado ali, junto a fogueirinha de papel... Amigos presos, amigos sumindo, assim...''
O grupo para. Fala-se da ditadura, do governo, das lutas populares...
Uma pessoa pede: ''A vida de gado, povo marcado, povo feliz...''
Comenta-se: Vive-se tão mal, e a gente é tão submisso...
A viola canta: ''Liberdade, liberdade... Abre as asas sobre nós. E que a voz da igualdade seja sempre a nossa...''
O coordenador agencia um diálogo: o grupo mostra-se indignado. Reclama da injustiça social. Fala da fome. Do SUS que não funciona... De deputados parasitas... E das vitórias legais: a anistia, o fim da ditadura... Do fora Collor...
Elege-se uma música de fechamento e todos cantam '' Apesar de você... Um mais desinibido ensaia uns passos de dança, o grupo o acompanha e a oficina termina num catártico e guerreiro carnaval: ''Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...''Com bis e roda dançante...
Você sabe o que é ter, um amor, meu Senhor...
Basta um canto de paixão e logo, junta-se... Coração e música.
Lembro- me de uma oficina: ocorreu expontaneamente no refeitório.
Um violão e uma voz melodiosa disparou o agrupar e o acontecimento em si: ''Eu tenho pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer... Como é grande, o meu amor por você. ''
Uma usuária chora, conta seu amor, seus ciúmes e a perda. Continua chorando...
Pedimos e ele ouve abraçada com uma terapeuta que a consolava na nudez de uma companhia – cumplicidade: '' De noite, eu rondo a cidade ... a te procurar...''
Uma vozinha, saltitante, emenda: ''Saudade, palavra triste... Quando se perde um grande amor...''
Uma psicótica, em crise, levanta e interpreta, misturando Dalva de Oliveira com Elke Maravilha, uma canção do repertório sertanejo: '' Entre tapas e beijos... É ódio, é desejo... é paixão, é loucura...''
Todos querem falar. Organizamos, e um a um contaram suas dores: amor- perdido, traição, infelicidade... Saudades do primeiro amor... Desejos de se encontrar alguém... Perdas, sonhos...
Uma terapeuta intervém, cantando: ''Tudo era apenas uma brincadeira, e foi crescendo, crescendo... me absorvendo e eu vi assim... Completamente seu...''
Um diálogo é iniciado e nele o grupo se sente motivado; pede, então, uma canção: ''Começar de novo, só contar comigo... Mas valeu a pena... Ter amanhecido...''
A cantoria cedeu... A fome também solfejava: era hora do café. Alegres, risonhos degustaram o pão nosso de cada dia.
Vendo- os, notei... Ressonâncias musicais que permaneciam, em mim, orquestrando a vida a ser vivida.
A oficina terapêutica é um instrumento cuja potência não esta dada a priori.
Alguns terapeutas, mecanicamente, manuseiam este instrumento e ele se converte num passatempo pueril; outros dele fazem um ato de brincar e propiciam devir-se criança na maturidade de uma vida que vai-se tornando plural; há quem obedece um roteiro e aplica- o codificando emoções e fantasias, e o usuário passivamente se vê dissecado, sem espaço de se emergir análise e relato, expontâneo e singular; e, muito pressionados pela necessidade de produzir delas convertem numa tarefa cuja meta é produzir e vender, é a oficina reprodutora do universo mercadoria- troca- mercado.
A arte possibilita redimensionar o terapêutico e a reabilitação.
E as oficinas inspiradas nesta revelam o quanto de insucesso está condicionado a uma deformação do analista que pensa a terapia como condicionamento do psicótico ao mundo de vencedores, e percebendo isto, ele omite- se e não se expressa nos fracassos, no demasiadamente humano, como a lágrima indecifrável de quem sente a saudade de um grande amor perdido; e também o insucesso das oficinas reabilitadoras que se pretendem forjar mercadores, adaptá- los, submissamente, ao mundo de vendedores, e eles, assim, não podem produzir mercadorias que somente se realizam consumo no deleite do olhar de quem se sente re- definido numa obra, como criador de vida tão- pessoal que frequentemente se situa na ordem do não comercializável.
A roda de viola é uma oficina singular: Alegria. Cultura Popular. União grupal...
Uma bricolagem: de cantos e cantigas.
Nela a alma se mostra e se revela. Conjuntamente, fabrica-se um teatro musical sui generis... Script não previsto, e um a performace... E o encanto de ser uma obra de uma única apresentação, de um lado, a permitir fluir espontânea e do outro, leva-a a condição de um acontecimento que somente perdura no experimentando, no construindo pelos autores.
Já vivemos muitas rodas de viola. Na Vida, na clínica...
Finalizo este texto, relembrando...
Um dia, alguém sabendo de mim, canta: ''Naquela mesa , ele sentava... E dizia contente o que fez de manhã...
Esta música é minha. Dela me apropriei. Com ela chorei, elaborei o luto da perda de meu pai: um câncer cruel e repentino, roubou-me, a sua presença.
E com esta música, eu o conservo vivo: no amor inesquecível, nas lições aprendidas...
Ouvi. Coração apertado... Chorei, chorei, até ficar com dó de mim...
Falei dele. As pessoas desejam saber: Como era ele? Se ele era legal? Etc, etc, e etc...
Olhei, de novo grupo. Impliquei- me. Falei da saudade...''Quanta falta você me faz.''
Trabalhando numa grupalidade, numa clínica, o terapeuta acaba descobrindo que muitas vezes o coletivo exige, demanda, possibilita que este se trabalhe. E eis uma questão difícil: se trabalhar sem... Sem roubar a cena, isto é, sem roubar o lugar do usuário... E sem perder o seu lugar de terapeuta.
Escutei, em mim, rumores : ''Ave Maria no Morro'', ''Amigo, a quanto tempo...'' ; Chuá, Chuá...
Neguei- me a cantá- las. Eram ressonâncias que bifurcavam o universo do meu amor paterno e fraternal; porém, senti nelas ressonâncias que manteria o grupo - prisioneiro da minha dor, da minha história.
Esperei... Dei tempo ao tempo...
Ressonância é ressonância; e funciona pela veracidade afetiva; não é construto intelectual - intencional. Se falsa, paralisa, dispersa...
De repente, notei uma ressonância. Os Titãs... Tão belos, tão revolucionários...
E uma ressonância que me pareceu quebrar a melancolia- piedade e poder gerar outras multiplicações...
Cantei, então: ''Marvim, agora é só você; eu fiz o meu melhor... E o seu destino eu sei de cor... Mas era um grande coração. Vivia a vida com muito suor...''
Logo, alguém acrescentou: ''Pai, você foi meu herói, meu bandido...''
Daí, veio: ''Mamãe, mamãe, mamãe... Eu me lembro o chinelo na mão. O avental...''
Uma explosão de lembranças: casa, família, avós, brigas, retornos... Dificuldades, entendimento a posteriori, o não- dito... Diferença de gerações... Saudade, saudade, saudade...
Uma senhora quando ouviu que a oficina iria terminar: hora dos grupos terapêuticos, sugeriu: uma música, cantada em pé, de mãos dadas em homenagem aos nossos, nossos familiares... Um grito de amor.
'' Tem certos dias, em que eu penso em minha gente... Sinto no peito, uma vontade de chorar...
São casas simples, com varanda na calçada... E na parede, escrito em tinta, que é um lar... ''
A oficina terminou... A vida... Continua...
A noite escrevi... Garimpo, Conceição, texto incluído no livro ''Crisevida''...
A oficina de cantoria é fértil, fertilizante.
É catarse e é catalizante : química, humores... Sentimento!
Resgata-se um costume: a mesa de bar, amigos no quintal, festa...
... Mas é igualmente um instrumento que dá sabor e arco- íris... É vida. Vida numa clínica onde o psicótico excluído e marginalizado tem que lutar minuto a minuto para não aceitar as correntes do status quo, forjando- o devir- tristeza... Necessidade esta em que normais confessam o medo de descobrir na alegria de uma loucura um analisador desta nossa vidinha, cinza e melancólica, vazia.
O canto salva... Provoca, questiona e motiva...
Não foi fortuito a escolha de Deus; quando Jesus nasceu, ele não quis anunciá- lo no escrito de um pergaminho ou no sermão de um erudito, ele- Deus- sabedoria- convocou anjos e querubins que na simplicidade de uma manjedoura, fizeram uma roda de viola e orquestrando a voz das estrelas que iluminam os céus entoaram: Glória a Deus... Paz aos homens...

LIÇÕES DE BAREMBLITT : VEREDAS DA LIBERTAÇÃO

BAREMBLITT, O MESTRE E SEUS ENSINAMENTOS...


   Devemos ao professor Gregorio F. Baremblitt um tesouro de conhecimentos insurgentes que nunca esgotaremos  tamanha riqueza e continuamos com ele aprendendo...
   Hoje, passamos aos amigos alguns conceitos extraídos de seus textos ainda inéditos para a maioria dos que nele buscam a proliferação da obra-rizoma de Deleuze Guattari.
   Pois, como já disse Juvenal Arduini, filósofo e antropólogo, a esquizoanálise é uma produção de genial de Deleuze, Guattari e Baremblitt.
   Disfrutemos, então, de suas lições:

   " Somos todos, em maior ou menor proporção,  escravos de um mesmo Senhor: o axioma do equivalente geral - dinheiro, cujo império necessita ser dionisicamente destruído, para potencializar-se a produção inventiva, desejante e revoluncionária"
    " ... A experiência esquizoanalítica, cuja médula é uma enorme ativação visceral de intensidades, dá lugar a insólitos e aleatórios acontecimentos, sentidos e devires."
   " A profundeza é a potência do puro espaço inextenso; a intensidade não é nada mais que a potência da diferença ou do desigual em si, e cada intensidade já é diferença do tipo E-E', onde E reenvia a e-e', e à E-E' etc..."

ESPACIO UTOPÍA ACTIVA : DRAMATIZACIÓN Y CLÍNICA

LA DRAMATIZACIÓN


 Hace mucho tiempo que la dramatización perdió su función restrita de representación, sin embargo, es, de verdad, experimentación viva y potente en la cual uno descubre lo que un cuerpo puede y da ahí sí genera  sus efectos clínicos.
  La necesitamos con esta potencia, entonces, me parece valioso este texto antiguo ( sacado de Lo campo grupal):

                                                        "Entre" en Psicodrama"

                                                                           Hernan Kesselman y Eduardo Pavlovsky



En las dramatizaciones, incorporamos la nocion de "entre". Las voces que rodean la escena. Los movimientos, ritmos, sonidos e imagenes del modo como la escena "afecta" al grupo. Lo que recorre el contorno de la escena. Los bordes de lo plegado. De modo que el grupo puede trabajar no solamente doblando a los "sujetos" de la escena sino tambien asumir la incorporalidad del "entre". Todo aquello que pasa "entre" los miembros. Alguien dramatiza una escena con su pareja. Tradicionalmente estamos acostumbrados a pensar en terminos de sujetos. "Entre" una pareja podemos sentir que estan los hijos, los padres, la familia, etc. Pero nosotros pensamos hoy en términos de agenciamientos, y no solo en términos de roles familiares. Una pareja crea en su "entre" una máquina de tedio y aburrimiento. El aburrimiento es un estado. Estado producido por la máquina que involucra a los miembros de la pareja. No porque cada miembro de la pareja sea aburrido, sino porque entre los dos han producido una máquina infernal de tedio. El "entre" dramatizado es el tedio aburrimiento como máquina producida por la pareja.
La nueva "individuacion" corresponde al agenciamiento máquina aburrimiento que abarca no los sujetos de la pareja sino la nueva máquina de tedio que los engloba a los dos pero donde se pierde la nocion de sujeto. La protagonicidad es la máquina producida como nuevo tipo de individuacion.
El "entre" es aprender a circular en el grupo fuera del contorno escenográfico de la escena. Lo que circula por los bordes de la escenografía. El "entre" no corresponde a ningún sujeto, sino a fractales, pequeños ritornelos de intesidades bloqueadas. Molecularidades que traspasan a los sujetos a velocidades diferentes. Nuevas identidades existenciales, desterritorializaciones producidas por línea de fuga. "Estados". Tiempo de duración. Pausas enriquecedoras que se territorializan fuera del tedio.
Sexualidades intensas que han sido bloqueadas. El grupo en su creacion "entre" es un creador de nuevas micropolíticas. Un gran cartografo del deseo. Como diría Deleuze no hay historias hay nuevas cartografías.
Tampoco hay sujetos, personas o caracteres que se dejen desarrollar. "No hay mas que nececidades, individuaciones precisas y sin sujeto que se definen por afectos o fuerzas".
La máquina "entre" no tiene las características de los sujetos que la producen. Es el nuevo devenir que no se puede producir por la historia de ambos. Es lo intempestivo. El acontecimiento
"En la idea de agenciamiento se juega otra noción de sujeto. Desaparece la noción de individuo, la de miembro del grupo. En la idea de agenciamiento ya no hay mas miembros de un grupo... Cuando hablamos de cuerpo estamos diciendo que el cuerpo no expresa comportamientos, ni intercambio de roles o interacciones. El cuerpo es regimen de afectación, regímen de conexiones. La idea de cuerpo como regímen de afección es solidaria con la de agenciamientos y máquina y alli se rompe esa noción de sujeto. El grupo no será más un conjunto de individuos. Es un regímen de afecciones maquinal. No hay individuos en ese sentido. Grupo como máquina de potencia. Potencia de afecciones y las afecciones son aquello independiente del sujeto. Aca se juega la capacidad de afectar y ser afectado. No de lo que "yo" produzco sino lo que yo produzco con el otro que me roba, y robando yo. El agenciamiento máquina habla de un grupo descontrolado y por eso es productivo.
Es descontrolado en el sentido de que sus propias producciones no estan previstas, no preceden al agenciamiento mismo.
El grupo como pura singularidad. Cuando se habla del robo de la escena se puede decir: ¿Quien es el autor? ¿Quien es el miembro? y el quien es el quien de la escena y su posibilidad de afectación. El quien es la escena, pero la escena no es un sujeto, es el regimen virulento y de afectacion, espero un sujeto sin fondo.
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NOS ENTRE DE UNA CAMINATA DE LUTAS, HEBE AFIRMA:

" Porque Las Madres hacemos la revolución todos los días"
" La revolución se hace haciendo.Se hace compartiendo. Se Se hace resistiendo"
" La revolución se hace sólo si cada uno nos damos la mano con el otro, se hace sólo si cada  uno sabemos respetar lo que que quiere el otro, se hace sólo si cada uno quiere construir esta patria todos los días, no un ratito en el comité, en el café. Todos los días hay que entregar unpedacito de vida para que la revolución, lenta pero inexorablemente, llegue."


HEBE DE BONAFINI
 
 
 
                                                                         DEVENIR


                                                                                        Jorge Bichuetti




He de fregar con sueños
mi propio cuerpo
y dejar volar por los cielos
el pájaro que vive y late
cantante en mi corazón...

He de lucir
cociéndome con nuevos colores,
como si la vida
fuese solamente hecha
de dulces alboradas,
nuevos amaneceres...

Soy hombre, piedra y viento;
un canto de oración...

Arco y flecha, soy guerrero;
el beso de los amantes,
los juegos de la niñez,
los delirios de un loco,
la sonrisa de un borracho,
las dudas de los creídos,
el miedo de la policía,
el libertinaje de los jóvenes
y el amar oceánico de Las Madres...

Soy nadie y soy semilla,
cosecha, adubación...
La lluvia cayendo mansa
en los techos de la ilusión...

Nada soy y soy todo...
Además, por vaguear sin rumbo,
intempestivamente,
he de ser
cascadas de porvenir...

Así, no soy; somos...
¿ Quiénes somos?
... Somos las encrucijadas,
Encrucijadas del devenir...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MÚSICA E CLÍNICA DO DEVIR

DEVIR CAZUZA: VAMOS PEDIR PIEDADE?...
jorge bichuetti



A clínica lida com o sofrimento humano. E o terapeuta corre um risco: pessoalizar toda dor, desconhecendo que a vida existe num mundo concreto.
Vivemos numa sociedade de controle.
Assim, comumente, diante da clínica se vê na lágrima do usuário a opressão, a pessoa humana amargando uma injusta situação de, de fato, estar excluída.
E principalmente carregando por cruz preconceitos, agressões, violências oriundas do sistema.
Vítimas, sofrem. Mas são vítimas do poder dominante que se manifesta na culpa, na piada de esquina, e no seu existir, cerceado, vigiado e desumanamente criticado.
São ritornelos sociais que nos fabricam cópias submissas e que nos fazem sentir desvalia quando em nós emerge algo de singular, diferente.

                                                       *****************
Cazuza - o poeta do devir - analisou e é, em si, um analisador do nosso tempo. ''Meu par na contramão'', com suas '' mil rosas roubadas'' tem sido fonte de leituras e intervenções que vem tornando rica a minha experiência de desmontar os registros e controles que evitam o homem devir-se livre.
                                                          *******************  
Sessão melancólica. Escuto. Um jovem fala: vinte anos, HIV +, homossexual... Conta o sermão do pai, o afastamento dos irmãos. Lacrimejando diz que desde o dia fatídico do exame positivo, vivia isolado. Só...
Conta, então: uma piada, os risinhos dos colegas de trabalho.
Decido intervir. Mas a minha condição de cidadão não me permite interpretar. Recolho no coração uma ressonância musical e canto: '' Agora eu vou cantar pros miseráveis/ que vagam pelo mundo derrotados/ pra essas sementes mal plantadas/ que já crescem com a cara de abortadas... Vamos pedir piedade / Senhor, piedade/ pra essa gente careta e covarde...''
Cantei a música toda. Ele encolhido, ouvia... E depois dialogamos muito.
Sobre valores, direitos. Sobre vida.
E ele expontaneamente disse: às vezes, nos dizem menos, morto, indigno e sem lutar, aceitamos...
Ele saiu. Eu fiquei...
Na penumbra do consultório, holofotes, arco-íris, borboletas cantavam ainda: Ideologia/ eu quero uma pra viver.
Doutra vez, perante o sofrimento de um desempregado, arrisquei-me: ''Brasil, mostra a tua cara/ quero ver quem paga / pra gente ficar assim...''
                                                  ***********************
Cazuza : A clínica do devir lhe é devedora.
Ousaste. Foste um sonho vivo.
Agora, temos a tua música sempe que necessitamos de acordes capazes de urrarem
ensurdecendo a opressão imbecil e de acordes que como um beija-flor, aceite o sol e encalorado deseje o mel e a delícia.

"EU QUERO A SORTE DE UM AMOR TRANQUILO.."

POESIAS : UTOPIAS AMOROSAS


                                                                     MEU FILHO

                                                                         JORGE BICHUETTI


Contente, caminha entre flores e frutos,
pássaros e estrelas...
Sonha, alegre; fazendo festa,
macaquices, cocoricós,
e , atento, olha as nuvens que voam
junto a pipa colorida;
enquanto, eu canto
ninando seu coração.

Caminhante, vai
pelas ruas, pelos bosques...
Joga bola
lançando o pó da Terra
nos olhos do Céu;
e recolhe conchas na praia
que se tornam ladrilhos
de um castelo de areia
onde vivem meus sonhos
de velho ferido
pelos foguetes da ilusão...

Meu filho é quase um deus...

Meu pequeno é um curió
que embalo nos meus braços...
Ele fala medroso
de diabos, bruxas e fadas,
piratas e serpentes.
Depois, é somente coragem, é índio, homem voador...
De sua frauda faz um abrigo
para os seus vôos de guerreiro
que um dia juntos haveremos de dar...

Uma coisa, contudo, me entristece,
me retalha a alma;
é que meu filho amado
se esqueceu de nascer...

Assim, meu corpo é um berço vazio,
chorando de solidão,
todavia sempre esperando ver
a porta se abrir, para meu filho chegar
e adormecer nos meus braços, me fazendo despertar

 
FANTASIA NOTURNA
            jorge bichuetti


É tarde,
o sol há de chegar.
Embora, longe,
eu hei de te encontrar.

Amar, amar!...
Encarno esta loucura
de viver por desejar-te.

Neste minuto, penso.
... Mas já não tento ser
a estrela
do teu louco perambular.
                                                                        

                                                         SONETO DA SAUDADE

                                                                     jorge bichuetti

Um fantasma me assombra e seduz. Recordando,
sinto-me povoado, envolvido em lembranças
que voltam do passado ardendo.É um bando
de fatos, fotos... São águas claras e mansas

inundando meu ser. Na tristeza, são crianças
lamuriando a ciranda existencial: um mando
da alma alucinada, indagante: desando?
Como podes estar longe, se és o elo, as tranças

com que teço o meu destino, a própria estrada?...
Sinto-te... Dói, porém, demais a tua ausência.
Não te esqueço.... Mas pesa a vida já passada,

e, então, delírio, sem lógica ou tenência;
contigo,canto... falo e numa língua orada,
grito: ao amor, um tempo; um ato de clemência!


 
 
                                                              DECLARAÇÃO TARDIA

                                                                         jorge bichuetti


Teu corpo de aço é estátua. De prazer...
A mão de Deus te fez, assim, anjo-profano.
Então, és: belo, céu no humano viver.
Um querubim terçando um, todo amor insano.

No amor? Bailas... Magia e fé, ritual e festas.
Na estrada? Gingas... Luz e ternura sensual...
Se tens contigo o fogo e o ardor, os emprestas
e o roçar carnal faz-se viagem sideral.

Aquietei-me nos teus braços e protegido,
sonhei... Mas foste. Eu, então, entorpecido,
ora vejo teus pés no chão, ora no ar...

Afônico, sussurro e verso meu lamento;
pois, pra mim, nem o oco do esquecimento
tornou sombrio o meu desejo de te abraçar.


                                                       AMOR DE FOLHETIM

                                                                  jorge bichuetti


Nossos olhares vertem, gota a gota,
versículos de um drama inesgotável.
Escrito na epiderme ainda brota
uma flor, u’espinho... barco navegável.

Persisto oculto, preso. a lua marota
desenha vultos. Vultos do intocável...
Os fantasmas espreitam a garota
e os meus pelos deliram o insonhável.

A paixão dilacera. Tal estorno
mostra a flor-de-papel em rude adorno;
porém, o coração contemplativo

nela encontra sentido e euforia,
e embalsamando o ideal de simetria,
acomoda-se num elo abortivo.

                                                                   MEU FILHO
                                                                       jorge bichuetti

Se ele corre nos vales, se balança
nos galhos de um frondoso arvoredo;
se ele... sorri travesso, sendo a criança
alegre- minh’ave-Deus , eu me concedo

o direito de ser feliz. Descansa,
então, meu desespero e no folguedo,
cirando nu’a total aventurança.
Torna-se a vida leve, um brinquedo.

Ó Deus, onde estará? Há quanto lido,
procurando meu filho, que de mim
se perdeu, antes mesmo de nascido...

Ó Deus, encontrarei ser tão amado,
alguém capaz de dar ao tédio um fim?
Ou sempre será ele um sonho aluado?

DIÁRIO DE BORDO : NOSSA TRIBO

NÍDIA MODESTO
jorge bichuetti


   Estamos tristes e solitários...
   Deleuze dizia que " somos todos desertos , povoados de tribos, faunas e floras."
   Agora, estamos com a nossa tribo sentindo a dor da partida de uma terna amiga e de uma destemida guerreira.
   A Saúde Pública e a Luta Antimanicomial se vê, hoje, sob o peso da partida de quem tanto fez, lutou e sonhou, realizou...
   Nídia Modesto partiu... Sua morte é dor e lamento para nós, seus amigos; e para a psicologia e a saúde coletiva, um terrível vazio...
   Num tempo de poucos guerreiros, quando falta criatividade e coragem, ousadia e perseverança, sofremos a partida da pessoa meiga e sensível, sempre cúmplice dos projetos de vanguarda que tratavam de materializar o direito à saúde.
   ... O céu ganha uma estrela... Ela e seu devir ternura e generosidade, amizade e liberdade
   Prossigamos... honrando seu legado.
   Na dor, perguntemos:
   - O SUS permanecerá no campo dos sonhos?
   - A Reforma Psiquiátrica viverá no campo dos discursos?
   - Enfim, quando se materializará a radicalidade da constituição que não tergiversa, garante a todos o direito à saude? 
   As lágrimas são férteis...
   Cada perda, nos deve acordar e diante da realidade sofrida do nosso povo, ainda excluído e na miséria, intensificar em nós o desejo de caminhar, lutando pela concretização dos sonhos.
   E para ela a amiga que parte, lhe entregamos a suavidade de Cecília Meireles:


"No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta."