segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

lições de baremblitt

                               CURA, ALTA, EMANCIPAÇÃO E MILITÂNCIA
                                                                                                   JORGE BICHUETTI



Fim de tarde. O crepúsculo forja uma quietude serena.
 Nem sempre...
 Durante um ano, mês a mês, tinhamos supeervisão de equipe.
 A equipe do CAPS se reunia e se via, com a co-visão de Barem,blitt.
 Ele é sempre um supervisor precioso.
 Atento, criativo. Se dá por inteiro.
 Nós, infelizmente, por um longo tempo lhe aturtimos com o mesmo: queixas, lamúrias e lamentações;
.:- Gregorio, e os crônicos?.... Que fazer?...
 - Ah! eles participam poco...
 - Não damos alta.
 Paciente tudo ouvia. Orientava....
 Não negava nossa angústia. Nem dizia que era angústia retrógrada, pois desde Rotelilli todos já havíamos abandonado o conceito de cura adotávamos o de emancipação.
 Um dia já exausto, olhou-nos com carinho e firmeza ( sabedoria `a flor da pele ), sabedoria impar, e assinalou:
 - Alta . nesta clínica, é militância....
 Deixar o lugar de doente, usuário e conquistar o espaço da luta. Alguma luta...
 Núcleos da luta antimanicomial por local de moradia, outras lutas ... Lutas...
 Até hoje, repercute sua fala... e eloqüente a sentimos verdadeira.
  Só deixamos o lugar de vítimas se ocupamos o espaco de guerreiros, lutadores....

na pessoa do pessoa

                                  Fernando Pesssoa: o homem do tamanho do seu sonho



¨Viver não é necessário. Necessário é criar¨

¨Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...¨

" Eu sei que não sou nada e que talvez nunca tenha tudo. Aparte isso, eu tenho em mim todos os sonhos do mundo"

"Segue o teu destino...


Rega as tuas plantas;

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

de árvores alheias¨

auto-retrato

AUTO-RETRATO

            jorge bichuetti


           




Procuro no espelho

e não me vejo...

Vejo

um velho sisudo e safado,

um monstro de traços angelicais,

um galã de circo,

uma pintura de palhaço,

um espantalho...

Só não vejo,

não encontro

o meu verdadeiro rosto:

uma criança escondida

numa cabana de índio.

a linguagem da loucura



A LINGUAGEM DA LOUCURA                                                          


                     Jorge Bichuetti

Vivemos. Sobrevivemos num mundo de luta. Luta-se pela manutenção da vida e até pela sobrevivência do planeta. Nós, os humanos, já enfrentamos a natureza hostil e hoje a natureza domesticada se vê vítima da ação dos homens, dos homens que sobrevivendo poluem a vida. Nós, os humanos estragamos o mundo e contudo nos denominamos normais. Somos normais: gramaticalmente corretos, vestidos de ternos cinzentos engomados, e agimos matematicamente calculados pelo scripit dos nossos interesses pessoais.

A terra chora: queimadas, rios poluídos, terras improdutivas, os gemidos da baleia e a saudade da pau-brasil... O homem sorri. Veste-se: é moda; fala: é comunicação; vende e se vende: é mercado...

E através da palavra, do raciocínio lógico, nós, o humano, relacionamos. Relações de amor e ódio, de guerra e paz são na aparência gestadas pela linguagem do cotidiano. Todavia, o cotidiano, visto e admitido é o cotidiano da normalidade esperada, instituída.

... Mas a vida não é apenas a linguagem da normalidade. Existem seres diferentes... Existem existências que produzem e se produzem como novidade. A loucura é uma novidade. Com linguagem própria... Não é matemática, nem gramática. É lógica? É fantasia? Pura ilusão?... Estranhamos a linguagem da loucura. A priori, estranhamos e a negamos... Negamos na loucura o poder criativo do que foge da lógica da sociedade de controle.

Diante do novo: tendemos a coerção e ao ideal de ver no outro, nós.

A loucura, porém, estranha. Ela provoca. Desafia... Uma outra linguagem... E se é nova, ela não se permite decifrável. Ela é em si o devir, o amanhã. Não é passado, equação matemática, símbolo codificado, ou correção linguística.

Erasmo, um dia, criticando o cotidiano, a vida que produz homens em série fez da sua palavra um veículo onde a loucura nos criticou. E ela disse. Disse muito. Falou do mesquinho da vida normal.

Quando vemos alguém em crise, alguém enlouquecido, alguém diferente, pretendemos escutar e interpretar usando a linguagem da normalidade e não percebemos que o novo é a utopia ativa, o inédito viável do inesquecível Mestre Paulo Freire.

Assim, diante de qualquer novidade, parece-nos mais pertinente reconhecer que a pergunta adequeda é: esta novidade é existencialmente coerente com o sonho de se poder viver, usufruir, desfrutar de uma vida e de um mundo onde a liberdade consiga colorir o dia-a-dia, com a vitória do humano devindo-se fraternidade, ternura e aliança cúmplice, a vitória do homem-ação pela vida, sua e do próximo. O homem-deus que se faz princípio, verbo, criação: direito de viver e amar.

um esquizodrama social

UN ESQUIZODRAMA SOCIAL


LA SUPERACIÓN DEL CAPITALISMO.EXPERIMENTACIONES CORPORALES Y CREACIONES VIRTUALES. ( UN ESQUIZODRAMA).

 Coordinador: Jorge Bichuetti

Duración: 2hs

Material técinco: sonido



Este taller, un Esquizodrama, trabaja basado en la experimentación corporal y en la creatividad inventiva, las contradicciones opresivas del capitalismo, economia de explotación del hombre por el hombre, de la dominación y de la mistificación.

Busca , también, la invención a traves de lo que puede un cuerpo (Spinoza), acá cuerpo social, creando nuevos modos de existir, nueva sociedad, el socialismo.

La técnica esquizodramática será desarrolllada teniendo como caja-de herramientas la bioenergética, hiperventilación,, la multiplicidade dramática e el teatro del oprimido.

Tras un calentamiento desterritorializante, serán compuestos como tareas grupales la representación de 1) La plusvalia, 2) La alienación, y 3) El fetichismo de La mercancia.. Primero, como estatua; despues como escena.

La escena se echará en uno foco de problematización y luchas....Tiene en este rato el objectivo de intensificarse las contradicciones y de percibirse las luchas inmanentes al funcionamiento del capitalismo.

Ahora, entonces, los grupos han de tejer nuevas posibilidades de producción y de relación entre los hombres: escenas de una vivencia de la producción sin la plusvalia; escenas de hombres viviendo sin lo asujeitamiento de la alienación y escenas de un mundo fuera de la lógica del fetichismo de la mercancia.

Esto puesto, se charlará confrontando los dos mundos.

El grupo concluirá diseñando las potencias del nuevo mundo necesario.

Por cierre, se hará una danza tribal de socialización, relajamiiento y intensificación de las salidas caviladas de nuestra realidad.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Coisas do Rosa

                                                                Travessia




Viver é etecetera

 Felicidade se acha é em horinhas de descuido

O rio não quer chegar, mas ficar largo e profundo...

                                         Todo abismo é navegável a barquinhos de papel ...
                              
                                                        JOÃO GUIMARÃES ROSA
                                                         LOUCOS E NORMAIS

                                                                                     Jorge Bichuetti



                                                             
O discurso médico ordena a vida. Dita os parâmetros da normalidade e codifica sintomas e modos de ser, diagnosticando o anormal. E age, ainda hoje, fenomenologicamente, isto é, tendo por base a compreensão matemática das vivências humanas.

O normal, assim, é o homem-médio.

Segundo Lineu Miziara, em “A Salamandra”, “a mediocridade institucionalizada”.

O louco, todavia, desafia as instituições. Enfrenta o hegemônico, o real instituído.

A roda da história não se mostra submissa diante da nosologia psiquiátrica. E redime loucos, neles reconhecendo vidas que anteciparam o futuro, desbravaram caminhos, reinventaram o destino.

... Todavia, a loucura é o humano crucificado e é sofrimento... Nem sempre devindo-se ressurreição.

Existem loucos perambulando pelas ruas, solitários e famintos. Outros ainda, trancafiados em porões públicos ou privados, longe da vida.

A antipsiquiatria questionou. Denunciou, porém, não conseguiu desnudar os mistérios da loucura.

Deleuze e Guattari nos legaram sugestivas pistas que permite a qualquer um que se dispa de seus preconceitos, aventurar-se na elaboração de um modo de ver e viver as crises e a própria vida, no fecundo terreno da produção do ser que se produz e se relaciona, produzindo da diferença uma nova vida, alternativa a ordem vigente e comprometida com uma ética de humanizar-se, humanizando o mundo ainda que seja com o preço de uma árdua luta.

A crise é a situação existencial de profundo questionamento do vivido, do instituído, do status quo.

Nela, existe um caos e uma utopia.

O caos é um espaço de produção. Da vida gestando-se nova e da vida-mais vida que já livre da sociedade de controle pode se ver germinando inovação, e não mera reprodução do preexistente.

Nem sempre do caos emerge a vida pela vida; dele também se devém morte, paralisia, acomodação.

Numa crise, se agenciamos o sofrimento na luta de uma utopia ativa por se afirmar como ser da diferença, dela saimos renovados e inovadores.

Quando, todavia, o controle e a repressão do real instituído consegue capturar o novo emergente e amordaçá-lo, o homem se torna o que conhecemos como esquizofrênico de asilo, o humano girando em falso, a dor da vitória da servidão.

Deve ser neste sentido que uma usuária definiu a loucura chamando-a de “o vazio da solidão de quem ama” e Dr. Gregorio F. Baremblitt de “a surra que o simulacro (ser diferente) tomou do sistema”.

amar

                                                                                 Amar
                                                                                     jorge bichuetti


Por uma nova suavidade,
reinventamos o amor;
solidão compartilhada
entre o espinho e a flor...

O amor é artigo de fé,
persistência e compreensão;
carinho multiplicado
entre o espanto e o perdão...

identidade e devir

Identidade e devir: análise da desinstitucionalização da identidade egóica e dos processos instituintes da crise num esquizodrama de psicóticos, NAPS – Uberaba, 2003.


Jorge Bichuetti

Maria de Fátima Oliveira


                  Introdução:


O homem tem sido um escravo de si mesmo. De um si mesmo produzido socialmente.

Somos (estamos) seres de identidade. Identidade rígida, permanente. Inflexível.

Somos (estamos) cópias ... Somos (estamos) seres de repetição; que tendemos a reprimir, amordaçar, marginalizar a emergência do simulacro, do diferente: do singular, da multiplicidade e da impessoalidade.

Temos identidade: com nome, identidade e CPF...

Temos identidade: um jeito de ser, sentir e agir previsível. Corretamente, levamos a vida com uma pauta-de-conduta, um repertório, já previamente definido. A priori, somos (estamos) no mundo cerceados pela nossa identidade restritiva e repetitiva, nela carregamos pré-delimitado o prescrito, o proscrito e o indiferente.

E temos uma identidade marcada pelo socius, pela rede de instituições, instituições que geram, o eu, como um instituto, uma entidade molar.

O eu - indivíduo, pessoa ou sujeito- é ser de repetições. (Baremblitt, 1998). Que se reproduz delimitado pela construção edípica , baseada na triangulação, no desejo de posse e exclusão e na função da identificação como mecanismo de perpetuação de eu-mesmisse.

Somos (estamos) repetindo o mesmo. A nossa identidade que se institue evitando o pulsar instituinte do devir.

O homem egóico evita-se novo...Desconhe-se a potência produtiva, inventiva e rizomática do inconsciente. Evita-se devir criança, animal, mineral... Evita-se devir imperceptível.

Somos (estamos) visíveis, com rosto, adereços, gestos e reações, e, também, vínculos e experiências próprias.

Paralisados, carregamos nosso ego, e ainda infelizes dizemos: mas, afinal eu sou assim...

Desconhecemos os outros mumificados, esquecidos ou ainda não inventados que dormitam em nós.

Ah! Como nos falta a coragem de Maria de Andrade (2000,pg 99):

“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Ôh espelhos, ôh Pirineus! ôh caiçaras!

Si um Deus morrer, irei no Piauí buscar outro.



Abraço no meu leito as melhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto;

Nas esquinas, nos taxis, nas camarinhas seus próprios beijos.



Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo...

Tenhamos paciência, andorinhas curtas.

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo”.



                          2. A crise e o ego:


O mundo do instituído, do organizado se mantém no espectro da estabilidade e da regularidade, embora abrigue em si forças instituintes que são cerceadas e negadas, às vezes, destruídas, doutras apenas amortizadas, controladas, ou ainda capturadas, isto é, postas à serviço da reprodução do status quo.

Contudo, a crise representa momento de desterritorialização do ordenado e a emergência disruptiva do instituinte, potencialmente criadora do novo.

A crise é uma potência instituinte (Baremblitt, 1994 e Bichuetti, 2000).

Negamos a crise. Idolatramos o normal.

“A normalidade é a mediocridade institucionalizada“ (Miziara)

A crise questiona a nossa situação de espíritos acorrentados e dela podemos nos devir espíritos

livres, nas expressões de Nietszche (Bichuetti,2000)

A desordem o caos de uma crise-pode ser agenciado na sua potência instituinte, isto é caosmótica das situações de loucura, paixão, arte e infância onde do desordenado, caótico se maquinam focos produtivos de alta complexidade, originárias do inédito, do inesperado e da inusitado

(Guatarri).

A crise – teria assim um pé na realteridade ( conceito de Gregorio F. Baremblitt), e na sua trajetória esquizoonte (conceito, também de Baremblitt) gerando acontecimentos, o diferente, o novo radical.

Porém, nem sempre, uma crise fecunda a existência com a produção de vida, vida nova. Ela pode ser vitimizada pelos mecanismos de exploração, dominação e mistificação do sistema, da ordem instituída e retrair-se via captura adaptativa ou perder-se, sem conseguir, reterritorializar-se, passando a existir no buraco negro (girando em falso), farrapo humano produzido pela antiprodução cronificante.



                 3. O Naps – Maria Boneca e Crise


O Naps é uma clínica intensiva de cuidado aos portadores de sofrimento mental grave.

Atende 125 usuários – em regime intensivo, de segunda a sextas, das 8às 15hrs (25); em regime semi-intensivo, três vezes na semana (50); e o restante, não-intensivo (50), três vezes ao mês.

Nega-se a centralidade da doença e tem por objeto “ a existência – sofrimento na sua conexão com o social “ ( Rotelli, 2001).

Norteia-se pela esquizoanálise de Deleuze – Guatarri e Baremblitt

O projeto terapêutico positiva a crise.Tal qual é definido, no texto Krisis:

Para pensar esta questão julgamos indispensável refletir filosoficamente sobre dois modos de conceituar o ser, ou seja, duas ontologias. Uma é, a tradição filosófica da positividade. Recorrendo a Nietzche:

“O verdadeiro afirmador, diz ele, não é aquele que pronuncia um sim a qualquer que seja a realidade, dispondo-se carregá-la sem ao menos selecioná-la ou avaliar seu peso. Não, este só pode ser o sim do asno, um sim indiferente e resignado. O sim dionisíaco, ao contrário traz consigo um não destruidor, um não capaz de anular o poder de uma realidade que é simples produto do negativo e obstáculo à criação, e abrir caminho para que a realidade positiva se produza, dando lugar aos devires ativos”. (1)

Outra tradição filosófica é a da negatividade, preponderante, que remonta à tradição Socrático-Platônica, Cartesiana, marcada pelo ser de falta. É a tradição que opera uma divisão do mundo em dois planos: O Plano das idéias puras, dos modelos superiores e o plano dos corpos sensíveis, das aparências e das cópias imperfeitas, que aspira assemelhar-se a nada. E, portanto, resto, a pura diferencial.

KRISIS é uma tentativa de se inspirar na ótica da positividade e se inscreve numa rede significativamente mais ampla, que afeta o pensamento atual. Isto implica num novo reenquadramento de valores éticos, em que os segundos vem dar um novo tom aos primeiros, gerando uma profunda mudança no olhar e no fazer.

Essa postura tem seu norte na diversidade; é o fruto de uma complexidade teórico-prática. Nesse sentido, entendemos como uma necessidade abrir-nos a produção cultural contemporânea, não nos limitando aos discursos específicos, o que significa que outros saberes podem e devem concorrer para gestar nossa singularidade. Interessa-nos conviver e oxigenar-nos, por exemplo, com uma corrente de produção filosófica, hoje resgatada - Epicúrio, Heráclito, Nietzche, Deleuze e Guattari; o Movimento Institucionalista, cuja maior contribuição advém de diversas práticas terapêuticas e pedagógicas: contribuições literárias, entre muitas outras.

É dentro dessa ótica que queremos pensar esse acontecimento a que chamamos “crise”. O termo crise, no seu sentido mais amplo, significa ruptura, conflito, luta. Em suas raízes gregas, KRISIS exprime “uma desconformidade estrutural entre um processo e o seu princípio regulador, podendo tratar-se desde um fenômeno físico até implicações das relações éticas” (cf. Prof. Hélio Jaguaribe). Chamaremos também de crise os estados de desrraigamento provenientes da desterritorialização, seja nos meridianos espaciais, seja nos sócio-emocionais.

“Toda crise será a maneira de viver o período de trânsito entre um território já impossível e outro ainda inviável de ser habitado. Como a vida do sujeito continua transcorrendo em algum lugar, chamaremos “Terra de Ninguém” a essa residência fora do tempo e espaço consensual, residência na qual a existência do sujeito já não se enquadra no lugar em que coincida e ainda não, coincide com o lugar em que está”.



A medida em que nos descentramos, em que transitamos por esta “terra de ninguém”, numa tentativa de nada exclui, portanto, de nos deixarmos afetar por tudo o que é problemático e estranho na existência, assim transmutamos nosso fazer. Assim nos pensamos, provisoriamente ...
Manifesto da clínica da Fundação Gregório F. Baremblitt, apresentado em 17/julho – 9(1) Assim falava Zaratustra, Nietzsche, in SaúdeLoucura, Luiz Antônio Fuganti
(2) CRISE – Drª Carmem Lent¨

As atividades envolve oficinas terapêuticas, convivência, assembléia geral auto-gestiva, psicoterapia grupal, grupo de medicação, atividades de arte e lazer, e esquizodrama.

O esquizodrama – realiza-se semanalmente, com 2 horas de duração .

E deles participam terapeutas e usuários.


              4. Esquizodrama: Um Experimento Esquizoanalista


Os experimentos esquizoanalíticos não se restringem a um setting específico, a procedimentos e técnicas pré-fixadas, nem a um campo específico do agir/fazer humano.

Talvez, pudéssemos delimitá-los pelos seus efeitos

Efeitos da análise institucional, (Baremblitt,1994)

Efeito – produto emaranhado no seu contexto produtor.

Verificamos, assim, uma série de efeitos pertinentes à prática esquizoanálitica:

- efeito instituinte;

- efeito desterritorializante;

- efeito disparador;

- efeito caosmótico;

- efeito esquizoonte;

- efeito singularizante;

- efeito acontecimento;

- efeito desmontes molares, e raspagem de repetições;

- efeito devir;

- efeito multiplicidades;

- e efeito linhas de ação da diferença.

O esquizodrama – drama do devir- é um experimento esquizoanálitico.

Perfomático e baseado na vitalidade dos efeitos práticos supera o agir terapêutico interpretativo e verbal das terapias tradicionais.

Ele intensifica e cria na velocidade dos processos esquizos um jeito de funcionar, - na segurança dos experimentos laboratoriais – desterritorializado, maquínico e caosmótico.

Nele, experiencia-se um estar e um se dar virtual do novo.

Bifurca-se novas saídas e novos sentidos... Raspa-se os registros e controles... e abre-se à produção desejante.

É composto por uma caixa – de – ferramentas.

E é norteado pela superação do instituído, das identidades e pela instalação de um espaço de realteridade, um lugar aonde novos problemas são tematizados na descoberta do que pode o corpo (conceito spinoziano) e não mais pela sua redução representativa de um complexo do passado.

Afetar e ser afetado... Ressonâncias...

Abertura: multiplicidades...

O esquizodrama é uma ferramenta Klínica, pedagógica e de investigação da produção de saberes que por estatuto a invenção, desde que em consonância com o paradigma ético – estética, de re-afirmação de estar na vida, com a vida e pela vida.


             5. O Experimento – Devir Criança

Esquizodrama – no dia-a-dia – da clínica tem funcionado no sentido de “dramatizar para desdramatizar o cotidiano“ ( Oliveira, 2003).

O Experimento Esquizodramático, aqui relatado, se processou em duas sessões, de 2 horas cada, coordenadas pela terapeuta Oliveira, em co-coordenação com os terapeutas Bichuetti, Nery, Lélis Ferreira, Montandom, Milani, Crosara, de Paula, e quatro estagiárias do curso de fisioterapia.

Participaram 40 usuários

Ambos, tiveram por tema - a infância, o devir criança; sendo este um dentre outros esquizodramas temáticos em que temos trabalhado blocos de infância e o devir criança .

Aquecimento – Exercícios bioenergéticos e alongamentos. Duração de 15 minutos.

E brincadeiras de infância – ciranda em roda – canto, dança e jogos – duração de 25 minutos.

Na primeira sessão, montou-se uma brincadeira com a seguinte insigna-recordar apelidos da infância e criar novos e interpretá-los, dramatizando-os.

No encerramento - trocou-se sobre o sentimento vivido e cirandou-se, novamente, com a música “Se esta rua” ...

Na segunda sessão, após exercícios e brincar, em grupos cada pessoa, escolheu ser um outro nome/pessoa, ou outro ser.

Os apelidos recordados e criados estavam grudados num sentimento de desvalia = Siriema, tanajura, pé grande, cri-cri, ...

Vividos com dor, estima rebaixada.

Criando-se novos apelidos, estes fantasmas foram exorcizados.

De um lado, por exemplo, na suavidade de J.H., autista, paralisado que alegre e diáfano, quis chamar-se passarinho para voar...

Por outro, descontraem-se rindo, criando apelidos possíveis para os terapeutas.

Ao se experimentar, intensificados na dramatização, ser um outro nome/pessoa ou ser, emergiu devires possíveis, para além da própria identidade rústica e restrita.

Emergiram –

- Um devir criança - ser outro, brincar de animal, mineral e vegetal; novas pessoas, outras pessoas: (Gil, 2000).

O devir animal-

Um usuário frágil, retrato descobriu-se se forte e guerreiro no vôo de um falcão; uma de fala tímida e poliqueixosa, expressiva nos sons guturais de uma pombinha.

Liberdade, singeleza, leveza – no pingüim, bem-te-vi, na garça, na cachorrinha peludinha

O devir vegetal-

Uma usuária em crise, devém-se cedro e sente capaz de não se vergar nas ventanias do delírio, das lágrimas e do terror.

O devir outro –

O eu – esquecido (?) permite então emergir os outros que se mantém adormecidos em linhas rizomáticas da nossa produção inconsciente que a identidade instituída reprime.

Doentes estereotipados, gordos e embotas, tornam-se Raquel, Magrelo, Fagundes e desfilam elegantes e sedutores.

A abúlica, do lar vira Estelamar – biólogo, estrela do mar, junto de Luana que ama a lua e não se envergonha de viver no mundo da lua, e de Luna que tem na pele a magia do céu.

Outros outros...

O português negocia, a Italianinha faz massas, Robert joga bola, Yuri gestila um zen Japonês

Apragmáticos: estudam, dançam...

E num acontecimento, uma usuária com funcionamento rabujento, querelante e epleptóide se deviu Xuxa e diz querer alegrar, brincar...

Brinca e gesta uma festa...

Todos cantam... Dançam

No fundo, a imagem de um outro devir, alguém se deviu fogo, uma chama.

Uma vela na escuridão .

Que velemos, então, pelo devir

Pelos não devires que jazem inibidos pelo império da identidade, um instituído que afugenta o homem de se devir Super-Homem ... Deuses da imensidão.


               6. Conclusão

Concluir é fechar... Mas “ Nenhuma viagem é definitiva” (Saramago).

Aqui, reabriremos.

O Esquizodrama, aqui analisado, não pode captar as lutas onde o instituído numa polarização paranóica emergiu em defesa de um ego impermeável, imutável, inalterável...

Olhares, fugas... Risos críticos

“ Eu sou eu”... “Não sei fingir”

Fingir ? Não sei, talvez, brincar.

Brincar com a vida à moda da criança.

Que sabe se devir outros.

Pudemos ver, sentir e viver o instituinte na superfície da pele. Pele com poros abertos.

E desfrutar da potência do devir

Eis um efeito do esquizodrama.

E é porisso que adotamos no nosso cotidiano clínico.

Para lidar com crise ... Cuidar, sem fazer da terapia uma oficina de remendos da identidade egóico .

Afirmando-a sempre: clínica do devir





Referências Bibliográficas



1. Andrade, M Os Melhores Poemas. São Paulo, Global, 2000.

2. Baremblitt, G. Compêndio de Análise Institucional. Rio de Janeiro, Rosa dos Ventos, 1994.

3. Baremblitt, G. Introdução à esquizoanálise. Belo Horizonte, Inst. Felix Guatarri, 1998.

4. Bichuetti,J. Crise Vida. Belo Horizonte, Inst. Felix Guatarri, 1998.

5. Gil, J. Diferença e negação em Fernando Pessoa. Rio de Janeiro, Relume – Dumará, 2000

6. Guatarri, F. Caosme. Rio de Janeiro, Ed. 34,2000

7. Miziara, L. A salamandra. São Paulo, João Scortecci Ed, 1990

8. Oliveira, M F. Esquizodrama – notas provisórias. Uberaba, Inst. Felix Guatarri, 2002 (mimeo)

9. Rotelli, F. Desinstitucionalização. São Paulo, Huccitec, 2001.

cursos básicos: grupo, crise, psicose e esquizoanálise/esquizodrama

cursos básicos: grupo, crise, psicose e esquizoanálise/esquizodrama
                                                               jorge bichuetti
                                                               maria de fátima oliveira


   
    Aprender é ampliar,experimentar e intensificar nossa potência de intervir e cuidar.
Oferecemos cursos rápidos para os que se revelam interessados na montagem de sua caixa-de-ferramentas que lhes tornem mais potentes no trabalho e na vida.
    Cursos que instrumentalizam e todos composto de teoria e experimentações.
     Eis alguns com seus respectivos conteúdos:

1. Curso Básico sobre Grupalidade
*Grupo.Coordenação.
*Freud-Bion-Pichón-Riviere e Sartre
*Grupo-sujeito e grupo assujeitado
*Esquizoanálise e análise institucional na grupalidade
           Carga Horária: 20 ou 40 hs

2. Curso Básico sobre Cuidado de Crise.
*Cuidado. Desintitucionalização
*Conceito de Crise
*Crise e cuidado
*Crise, linhas de fuga e devir
*Crise e subjetivação
             Carga Horária: 12, 20 ou 40 hs.

3. Curso Básico de Esquizoanálise/ Esquizodrama
*Esquizoanálise: conceitos básicos
*Inconsciente produtivo
*Rizoma, multiplicidade e desejo. Subjetivação
*Leitura do socius
*Tarefas Clínicas
*Esquizodrama
*Como montar um esquizodrama
*usos do esquizodrama
                Carga Horária: 12, 20 ou 40 hs.

4. Curso Básico sobre a Clínica da Psicose.
*Loucura e reforma psiquiátrica
*Clínica antimanicomial
*Psicose: de Freud a Pichón-Riviere, De Baságlia a Deleuze-Guatarri
*Clínica da psicose
*Caps
*Reabilitação psicossocial
                  Carga Horária: 20 ou 40 hs