Mostrando postagens com marcador diário de bordo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diário de bordo. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de janeiro de 2013

DIÁRIO DE BORDO:EXISTIR, VIVENDO...

                                      Jorge Bichuetti

Saudades!!! Quanta palavra sentida, porém, contida nos solavancos do caminho... Lágrimas, risos que ecoaram no vazio da solidão e não deixaram notícias... Aqui, só os passarinhos e Luinha... Escutam versos; cantam sambas do morro... Eu querendo a vida ( e como a quero); mas, chegando sempre algumas braçadas atrás... Ele corre, dança.... rodopia.... Anda pelos campos, salta entre estrelas... Busco-a com sede de menino sedento...
Não sei se ela desatinou e veloz se fez fugidia; ou se sou eu cujos passos  atravessa o samba, tropeça nas escadarias dos palácios e das igrejas... Meus passos vadiam nos becos; saltita nas trilhas empoeiradas...
Queria poder abraçar a vida e dançar a alegria de existir, caminhando...
Caminho. Sonho...
Viver é lutar...
Os caminhos e os sonhos são o cenário das batalhas epopeicas que afugentam a escuridão e vão, colorindo com lápis de cera e bolas de sabão o horizonte, recriando a própria imensidão...
Eu quero a vida... A paixão vibrante; a ternura acolhedora...
Eu quero a vida... A peraltice travessa; a rebeldia insurgente...
Há tanta dor...
Penso que errei: as dores calaram meu coração quando a vida insistente, carregava-as com as próprias mãos.
Seria bom saber: onde mora a vida?...
Muitos a dissimulam, ofuscando olhares e carinhos com as luzes da fotografia que desenha contornos, ocultando corações...
Outros a gritam, na verborragia narcísica que nem mesmo vê os maltrapilhos do chão...
A morte corta a carne da gente, sussurrando inclemente: ela nada sabe da vida...
Talvez, a vida só possa ser encontrada no trapezismos das crianças; no eco das cachoeiras; no olhar enlouquecidos dos amantes...
Talvez, não... acho que ela também anda no silêncio das pedras; no urro sofrido das tribos indígenas; nos tambores das festas singelas dos quilombolas... no orvalho que beija a rosa sem ciúme das estrelas ali refletidas...
A vida é mãe... Cuida, abraça, reza romarias de esperança e fé...
Aqui, um jovem guerreiro nocauteado por uma bala assassina, acorda o choro da vida...
Ali, um menino na calçada suspira , embalado pelo canto... canto do mundo na voz da vida.
Eu quero a vida...
Onde anda???... Já a tive tantas vezes nos meus braços: juntos, dançamos a valsa noturna, cantamos as cirandas matinais... E, até, gritamos gol...
Miro o infinito e ante a vida que procuro, oro aos homens: não nos roubem a vida que sempre acalenta, dizendo: Paz, Paz...


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: ESCREVER CAMINHOS; DESENHAR HORIZONTES...

                               Jorge Bichuetti

No céu, as últimas estrelas... Minha pequena Luinha dorme, rodopia no mundo dos sonhos... Aspiro o cheio da manhã, com meus álamos e roseiras perfumando o orvalho que desenferruja meus pés: é preciso caminhar, é preciso lutar.... Viver é tecer novos horizontes, redefinindo as próprias rodas do destino...
Hoje, o lápis me acordou... O esperei, longos dias... A palavra é semente, sementeira... Não é um adorno de aluguel...
Elas, as palavras, são estrelas... clareiam nossa vida íntima, ensinado-nos na arte do autoconhecimento... e incendeiam a realidade com o fogo renovador das transformações necessárias... Uma escrita, assim, é magia e é poesia... Bruxaria que exorciza nossos demônios; arte que martela , acordando no coração da vida s forças do amanhã..
Vivemos acomodados... Trocamos a cultura pelos epigramas das informações relativas ao mínimo necessário.
Arquitetos do destino, estamos aqui... 21 de dezembro de 2012: nem o fim apocalítico nem o mundo harmônico e criativo, solidário e terno...
Que caminhos escreveremos para nossos vidas?...
Que destino desenharemos para o nosso mundo?...
Construímos e destruímos, permanentemente, a vida e o mundo...
Um sorriso desperta manhãs encantados; o choro clama por generosidade cúmplice que detenha o fascismo das destruições impiedosas...
Todo fim é um instante onde se cruzam as forças do recomeço com os clamores da vida por uma nova humanidade...
Somos inacabamento...
O mundo é um jogo de forças entre a vida e a morte; entre a einclusão e a exlusão; entre o amor maior e as mazelas do desamor...
Somos co-responsáveis... O que faremos de nós?...
Que calem hoje os canhões... que ecoem graciosos o canto das crianças...
Que verdeje as matas... que floresça os corações...
Assim, tomando café quente, na prosa mineira das Geraes... ousaremos um velho canto:


POR JUSTIÇA E PAZ; SOLIDARIEDADE E INCLUSÃO CIDADÃ: FAÇAMOS UM NOVO MUNDO!!!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: O DOM DA ESPERANÇA...

                            Jorge Bichuetti

Alvorecer com os passarinhos, sentindo o orvalho e o cheiro-da-terra... cria na nossa alma um estado psíquico fecundado pelo dom da esperança...
A esperança é muito mais do que a vida valsando nos compassos da espera... Esperança é caminho; voo... Busca incessante; luta aguerrida...
A esperança é sonho menino... que brinca, olha o infinito e alada, deseja os confins da imensidão.
Espera ativa; luta tecida por sonhos... vida que caminha sem medo das curvas do destino.
A esperança é subversiva: rompe o tempo e acorda a fúria dos ventos transformadores...
Colore as cinzas deste nosso tempo tão transbordante de ontens; tão vazio de amanhãs...
A manhã - sol nascente, estrelas na despedida... pássaros no regozijo dos cantos de ternura e compaixão... a relva molhada, cio da vida nas entranhas da alma... a manhã é grávida de esperança... Conta-nos sobre as cinzas de tantas mortes o que pode a vida parideira...
O amanhecer é a rebeldia indignada do tempo que se quer novo...
Acordamos e nem bem degustamos nosso café, já vemos corpos no sangue das sarjetas, guerras na bestialidade dos preconceitos e na ganância da força bruta...
Escutamos o choro da vida...
Mas, também, a vida canta... e pede, roga ajoelhada, clama por atitude, solidariedade ativa... luta por por justiça...
Ter esperança é no homem ver o anjo sideral; no mundo, u'a nova realidade de paz... sociabilidade transversal, terna, libertária...
A esperança, filha das manhãs, quer parir vida e mundo reinventados na conjugação do verbo amar... Amor incondicional... sem fronteiras... sem trapaças... sem repressão...
Para a sonhadora esperança, os grupos de extermínio, as usinas que asfixiam povos e tradições, os interesses particulares urrando para silenciar o Bem Comum... tudo isso é fantasma de um pretérito não-sepultado que se tornou zumbis das nossas tristezas e desilusões atuais...
Longe, grita o povo guarani-caiovás... Perto de nós, luzes se apagam...
A CEMIG diz não... Anúncio que desvela a nossa mesquinha escuridão...
Acendamos velas... Inventemos estrelas...
A esperança pode onde metais e o poder só enxergam a ferida narcísica dos próprios umbigos hipertrofiados pelo jogo que suprime o nós, a pátria... a alegria geral...
Urge que deixemos a esperança nascer, crescer e lutar...
Antes, que tenhamos que sepultar nas pregas do poder disputado os nossos sonhos de ternura e compaixão...
Muitos, acomodam-se...
Embora, o choro das mães que que carregam seus filhos ensanguentados, diga, silencioso: basta! a vida só pode voar nas asas da liberdade; e não liberdade quando os fuzis decretam o ódio... e as lágrimas nublam com sangue nossos sonhos de igualdade, fraternidade e paz...


domingo, 25 de novembro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: E, AGORA, LUINHA???...

                                 Jorge Bichuetti

Chove, madrugada silenciosa... No quintal, o verde mato e as coloridas flores.... fazem poesia de gratidão ante a água da chuva que cai, mansa e serena... Aconchego maternal do cosmo.
Eu aqui acordado:  olhando a fumaça do cigarro, escuto a respiração leve da minha pequena Luinha...
Cuido, desajeitado... Amo-a com a intensidade da vida que acode, aqui e acolá, as peripécias da criação.
Luinha, é terna e amiga... e, como se mostrou corajosa... Ontem, num pequeno acidente perdeu sua unha... Sangue e desespero... Embora, ela continuasse brincando...
Dormiu um longo tempo comigo... na tarde que também a chuva nos deixava com a impressão de que rodopiamos no infinito no ventre do amor maternal que vela por tudo: vela pelos flores pequenas que margeiam os íngremes caminhos; vela pelas estrelas da imensidão que bailam na escuridão da noite...
Havia e há nuvens no luar que busco manter acesso, como uma vela, no casebre do meu coração...
Vejo os medicamentos, cronometro os curativos... Nino-a com mi'as cantigas de gente grande...
De hora em hora, observo-a: ela dorme. sono tranquilo... E eu só queria saber alguma bruxaria para dar-lhe sonhos de paz e alegria...
Ela, logo, estará travessa e encantadora...
Nunca havia sentido (sabia!) das longas vigílias que minha mãe realizou, dedicada e devotada, nas noites da minha infância, quando febril... machucado... ou triste... pedia com meus olhinhos de cão um cadinho de carinho, u'a presença que afugentasse a monstruosa solidão...
A solidão é monstro selvagem.... quando nos sentimos frágeis...
O carinho dela era carinho experiente; amor vivido nas agruras do se dar para cuidar...
O meu, amor-menino... Dedicação medrosa... Medo de não ser capaz...
Mas, recordo e me tranquilo: o amor-cuidado é a poesia instintiva da própria vida que ordena e desordena, para que superando-nos, desnudemos na solidariedade viva o fio do destino que tece manhãs e amanhãs...
Homens, mulheres... crianças, velhos... todos podemos aprender ( um recordar, na poesia da ternura; um descobrir na arte da compaixão)... podemos aprender a devir mãe ante a dor do outro... Mãe; amor-cuidado...
Assim, o ruído das balas que aniquilam, mortificam e matam... calarão; e, o mundo se reencontrará na beleza do amor que agrega, cuida, vela... Vela acesa na escuridão; vela-leme nas travessias do mar...


domingo, 16 de setembro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: O CANTO DOS PASSARINHOS

                         Jorge Bichuetti

Vida madrugadeira... Só, agora, escuto o canto dos passarinhos... Talvez, seja o que me dizia Luinha que tinhosa, de mim se escondia, só para continuar a dormir...
Manhã bela... O orvalho alivia as agruras do tempo seco... É domingo...
O domingo é dia clarividente, revelador... Desnuda nossa condição de escravos da rotina tresloucada do capitalismo... Não sabemos lidar, muito bem, com o ócio... Com dia só nosso: dia de dormir, de brincar... de ler poesias, encontrar os amigos... Ficar de pernas pro ar...
É silencioso, e o silêncio faz um barulho estridente, para todos nós, que ouvimos tudo, menos o próprio coração...
Vivemos reclamando que não temos tempo... quando temos não sabemos o que fazer do tempo livre...
Como é duro carregar as chagas do capitalismo nas próprias entranhas!!!
Dia de nadar descalço... Mergulhar no mato... Banhar-se numa cachoeira...
Ler poesia... Namorar de mãos dadas... Festar; borboletear...
Somos exímios sobreviventes; porém, pouco sabemos da arte de viver...
Estamos acostumados a ir tocados pelo espinho das obrigações cinzentas...
Não sabemos bem colorir... alegrar e se alegrar... Ser passarinheiro: livre no azul do infinito...
Aprendamos...


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: NA QUIETUDE DO ALVORECER...

                        Jorge Bichuetti

Amanhecemos entre as carícias do vento matinal e a ternura do brilho das estrelas que se despediam, como se partissem, aninhando-se nos poros da nossa própria pele... A chegada de um novo dia era permeada de sonhos... no canto dos passarinhos. E a mi'a emoção de sentir a presença da minha pequena Luinha, autêntico sinônimo da amizade plena, que me seguia os passos com seus ternos olhinhos lutando por acordar, vencendo o sono, simplesmente pela alegria de ser companhia, cumplicidade, vida enlaçada noutra vida no carinho incondicional que quem sabe amar...
A quietude da madrugada me ensina coisas do amor que antes não sabia, por vê-lo, o amor, somente no frenético movimento das noites... noites ruidosas, noites de luzes artificiais e flores de plásticos... Noites onde os trovões da sociedade de espetáculo me ocultava a poesia silenciosa do luar e a magia cosmopolita do céu estrelado...
Luinha é u'a grande professora, u'a singela e fiel amiga... Juntos vamos descobrindo os enigmas da vida.
Vivemos num tempo onde não é fácil ver e sentir as entranhas da vida... O mundo com seus ruídos e artefatos nubla-a... oculta-a... dissimula-a...
A vida nua, como a vejo no horizonte azul do dia nascendo e a escuto na poética do canto dos passarinhos, é transparente e direta... Conversa com a gente, penetrando-nos pela pele... afetando-nos e nos despertando caminhos e sonhos...
A madrugada revela o que pode a vida nos voos da liberdade e nos aconchegantes ninhos da simplicidade...
Mostra-nos loucos... numa loucura improdutiva... Escravos de tanto coisa e alijados do que é o clamor do nosso próprio coração...
Que tesouro do mundo substitui o carinho fiel e leal da amizade da pequenina Lua?...
Vê-se no silêncio da madrugada que não há ouro ou prata que oferte a beleza da rosa brotando no sereno orvalhado da manhã; nem valor monetário capaz de dar a serenidade que se logra, mergulhando-se no infinito ao som do cantar dos pássaros vadios que voam e batucam, despertando esperança e sonhos, poesia e paz...
Queremos tanto... e vivemos tão pouco.
Necessitamos de repensar o que desejamos da nossa existência...
Luinha me ensina que eu aprendi, tão somente, a teoria da ética da amizade do inesquecível Michel Foucault...
Ela nunca o leu... conhece-o pelo aprende, vivendo...
Daí, vejo com encanto o mundo sonhado e o identifico nas palavras do filósofo Deleuze... Como funcionará o mundo dos nossos sonhos?... Belo e terno, como uma sociedade de amigos...



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: AS ENCRUZILHADAS DA EXISTÊNCIA

                              Jorge Bichuetti

No alvorecer, ouvindo os pássaros vadios e sentindo as carícias anônimas do orvalho, por um momento, esqueci dos aborrecimentos e frustrações cotidianas, para tão-somente perceber-me filho da imensidão.
O mundo é um emaranhado de caminhos e horizontes... Entre nós e a imensidão, existe o mundo, muitos mundos... Mundos que se realizam e forjam os limites da vida... E outros mundos que não vemos, não escutamos, nem cheiramos; porém, existem como virtualidades que só não são paridas porque as excluímos do cotidiano, do real-concreto...
Muitos acreditam que estes mundos moram no território das utopias, das poesias, das magias, dos sonhos...
E, assim, os classificam como mundos ilusórios, fantasmagóricos...
Esquecem que a restrição da vida ao racionalismo foi uma operação histórica... Processou-se um desencantamento do mundo e uma hegemonização do modo pragmático e imediatista, matemático e concretista de ver, sentir e desejar no mundo...
Neste processo, houve a reificação do individualismo, do consumismo, do ser humano como um ser do e para o mercado...
Era engendrada uma subjetividade funcional ao processo de acumulação capitalista... Uma servidão do do produtivo-fabril em detrimento do lúdico, do mágico, e do artístico...
Tornamo-nos peças de uma máquina; tornamo-nos força de trabalho - mercadoria; e mecanizamos nossas existências para que o nosso corpo pudesse ser otimizado na sua capacidade máxima de produzir outras mercadorias...
Assim, vivemos como parafusos da engrenagem maior - o capitalismo mundial integrado...
Desconectados dos nossos próprios desejos e sonhos, das nossas tradições ancestrais, do outro como encontro e das atividades que marginalizadas, por não estarem sincronizadas com a lógica da produtividade alienada, passaram a ser atividades desvalorizadas... perdemos, então, nossa capacidade de brincar, de borboletear, de vadiar, de poetizar, de viajar na magia dos sonhos... e até mesmo de amar e se dar com intensidade... 
Só os loucos podem...
Até a paixão e a fé se viram objetos de processos racionalizantes que as isolaram do seu funcionamento singular - a radicalidade ética-afetiva-emocional... Podem, se razoáveis... e lê-se razoáveis como adequadas ao mundo instituído, ao status quo...
Francisco de Assis - só de madeira e barro...
Amores intensos e tresloucados - só no cinema...
No entanto, hoje, vivemos uma nova encruzilhada...
A racionalidade prático-instrumental criou um mundo banal, violento, consumista, narcísico, de tédio, angústia e solidão...
Afirma Birmam que a contemporaneidade é marcada por um modo de andar a vida - somos todos deprimidos, panicados e toxicodependentes...
Encapsulados e robotizados, consumimos...
Globalizados... permanecemos perenemente antenados, porém, sós... Há mecanismos vigilantes de evitação do encontro... 
Encontrar-se com o outro é perigoso, pois no encontro afetamos e somos afetados... descobrimos o que pode a alegria... Há uma verdadeira irrupção de ternura e compaixão, solidariedade e respeito includente...
Nesta encruzilhada, por mais que deleguemos aos poderosos o domínio da história, somos chamados a optar...
Que destino almejamos?... O que queremos da nossa existência?...
Daí a preocupação do sistema de desclassificar a potência da arte e da utopia... Do brincar e do sonhar...
Elas precisam ser evitadas, para que não deixemos aflorar na nossa pele a nossa própria humanidade... São forças insurgentes, são maquinações que mobilizam a rebeldia e a criatividade... o desejo de alvorecer com a convicção de nada é dado para sempre... uma vez que a vida é uma fecunda incubadora do novo, do inesperado, da diferença e do devir...
Reflitamos: por que temer o direito de ser feliz?... por que não desnudar na nossa fragilidade o humano que no pântano se cobre de lírios e sobre o abismo voa no esplendor do horizonte azul?...
Ousemos viver... enluarados de aurora...


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: NO CAMINHO, A ESPERANÇA...

                         Jorge Bichuetti
   
   Alvoreceu... O vento chegou antes que o sol e acordou-me com o canto dos álamos. Vi no orvalho que alimentava as rosas e o verde sonhos azuis. O céu toda dado à espera do Sol... quando Ele, enfim, chegou... já me misturava com cores e letras das histórias que contam os livros.
Meu corpo orvalha-se com o caudaloso rio dos livros empilhados: lidos, relidos e outros não-lidos; todos, vozes... visões... alucinações... Tentativas de libertar; armadilhas de escravizar... Uns alentam; outros inquietam... Provocam... São as flores e os frutos das árvores humanas... Ninhos que minha alma de passarinho encontra para repouso e recomposição; asas que minha alma de andarilho descobre para voar e buscar novos sonhos...
   Tudo pela arte de caminhar...
   Caminhar não é tamborilar o chão com os nossos pés...
   Caminhar é desbravar o desconhecido território do novo, do por-vir, dos sonhos...
   A vida fenece quando se desconecta da arte de sonhar e sonhar-se...
   O passado é a vida mumificada no cemitério das lembranças; o futuro, a miragem silenciosa que pulsa entre o desejo de ressurreição do ontem e os anseios gestativos do novo.
   Ser o mesmo não é autenticidade; é reificação de um si mesmo que moribundo teima e permanece claudicante...
   Inovar-se; reinventar-se... é andar entre fontes e pontes sem medo da vida nova que emerge na aurora.
   O novo angustia... Aterroriza... Dá medo e insegurança...
   Mas, como viver sem a esperança que é sempre uma incubadora do novo, incrustada nas entranhas do agora...
   A espera é força que inspira luta e resistência; seduz... encanta... E encantados damos novos passos...
   Novos passos - passagem, transição... Um salto pela alegria e pela paz...
   O desassossego é a força motriz do caminhar inovando a vida nas encruzilhadas do novo.
   Que buscamos?...
   Ir além do humano definido por mãos pés acorrentados no ontem...
   O humano é inacabamento... Permanente reinvenção.
   Não desvitalizemos nossas esperanças... não engavetemos nossos sonhos...
   Viver é recomeçar... Contudo, o recomeço é instante de redefinições: desnudos, podemos nos aventurar por novos caminhos, novas experiências...
   A vida é uma estrela bailarina...
   Bailemos... Cantemos... Brinquemos... 
   Não titubeemos: nossa vida anda carente de cor, cheiro e movimento... Um novo canto...
   Ninguém é livre, se não rompe com a escuridão que nos cega a existência...
   Ninguém é livre, se não desata as correntes que nos mantêm na mesmice de uma vida nos trilhos da ordem instituída.
   Rebelemo-nos... Podemos ser diferentes... Podemos dar voo à diversidade...
   O ser humano se constrói entre o sonho e a razão; entre a arte e o mercado... 
   A razão prático-instrumental nos retirou do mundo de magia e encantos... Roubou-nos o paraíso da criatividade... Anulou nosso própria singularidade...
  Assim, tornamo-nos homens cinzentos e tristes... Violentos e excludentes... tudo pela ordem...
  Aprisionaram, para tanto, a esperança... Sedaram nossa coragem e nossa ousadia...
  Porém, já não suportamos viver por viver... viver para morrer...
  Precisamos urgentemente de "tomar o céu de assalto"... Buscar um pouco de ternura no perfume das flores; um quanto de solidariedade na beleza do céu estrelado... algo de compaixão no silêncio das folhas secas que readubam incessantemente o chão...
  Voemos, então, com as asas de águia da esperança ativa...


terça-feira, 4 de setembro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: HOMEM-TRAVESSIA...

                         Jorge Bichuetti

Há na vida imensa solidão quando nossa voz cala... Um imenso vazio quando nosso coração já não sonha...
Os abismos da angústia e da solidão não nascem da erosão gradativa dos nossos pântanos de lágrimas...
Nossa dor maior emerge da nossa incapacidade de caminhar... De caminhar, encontrando no coração do outro a angélica ternura que é ninho acolhedor, porto seguro...
Se o caminho é a alquimia da alegria, por que o tememos tanto?...
Tememos partir, seguir... abandonando nossa gruta.
Nossos preconceitos, nossas opiniões definitivas e inquestionáveis, nosso modo de viver repetitivo e cinzento é uma escura gruta que nos separa da vida-andarilha, da vida metamorfoseante... da vida que se encanta na poesia da mudança...
Tememos mudar... Tememos perder o ancoradouro das aprovações e triunfos do status quo.
O novo é o coração do horizonte azul que guarda consigo a magia da aurora...
Podemos mudar... O ser humano é capaz de fazer-se, desfazer-se e se refazer...
Somos Homens-travessia... Humanidade tecida no caminho...
É preciso audácia e coragem... Risco e aventura...
Urge superar nossa pequenez... nossa mediocridade...
Abrir-se para a vida é permitir descobrir-se naquilo que o outro nos ativa, nossos eus não-nascidos, que dormitam na nossa vidinha de homens comuns...
Podemos ousar... Amar e servir; compreender e perdoar...
Podemos ir adiante... Sonhar e transformar...
Muitos acreditam que o mundo é tão-somente a expressão dos rodopios viscerais da natureza...
Mas, somos divinos na nossa humanidade; humanos na nossa divindade...
Podemos criar... inventar... gerar novos modos de ser e sentir, de andar e amar...
Vivemos sob a a égide do individualismo... Somos narcísicos...
Com o narcisismo e o individualismos produzimos um mundo de miséria e guerra; dominação e exclusão...
Todavia, se abrimos nosso coração ao outro, o muro cai... e descobrimos o que pode a solidariedade e a ternura, a compaixão e o amor...
Saímos da gruta... Ganhamos asas... podemos, então, borboletear...
E, ai, a vida torna-se um jardim florido... o fora de nós, um infinito azul permeado pela beleza de um céu estrelado e das noites de luar...
Excluir a diferença é empobrecer o cotidiano, restringindo-o às normatizações inibitórias da opressão...
Incluir a diversidade é conectar-se com as potências ilimitadas da imensidão... é romper com o casulo da nossa desumanidade...
Ousemos viver a ética do Bem Comum... Ousemos voar nas asas da solidariedade...
Já dizia os velhos papiros da fé: "tudo passa, mas o amor fraternal permanecerá para sempre..."
E ressoa o Rosa, no Grandes Sertões: Veredas: " O diabo não existe. se existe, existe homem humano. Travessia..."


terça-feira, 28 de agosto de 2012

DIÁRIO DE BORDO: ALVORECER NO CAMINHO...

                                Jorge Bichuetti

Céu claro... O orvalho lança sobre mim o cheiro da terra molhada; folhas secas no chão ressoam, dizendo-me da vida que vai-e-vem... passa, ficando... e voa, deixando aninhado nos corações a perene fonte do amor...
Brinco com Luinha... me sinto criança nos sonhos que a aurora desperta na minha pele.
Meus cabelos brancos esconde fábulas e poesias... O tempo me deu flores e frutos; porém, sempre me provoca dizendo que o ser humano necessita ser mais... precisa aprender a ser semente.
Escuto os passarinhos: como os invejo!!!
Voam, cantando... Alegram a vida pela pura coragem de de soprar as cinzas e as poeiras do tempo; reacendendo o fogo da vida com centelhas de sonho e loucura.
A normalidade repete as manchetes do dia anterior... Não ousa procriar o novo inédito.
A humanidade anda adoecida no tédio e nas angústias da vida de repetição.
Tememos o novo...
Fugimos da incubadora caosmótica que germina novas linhas na existência, dando-nos, para além da vida cinzenta, cores e ardores, novos voos...
Muitos dirão: urge fincar os pés no chão!
Não escutam o chamado das estrelas, as cantigas do luar, a poesia do amanhecer...
Amanhecer é parir-se novo; abrir-se para a vida de ternura e simplicidade, compaixão e solidariedade... É ser além do próprio ego... Mirar a humanidade e encantar-se com o outro. Nele, se descobrindo; tanto quando o outro se encontra no nosso coração desnudo.
Assim, deixamos o comodismo... aprendemos a amar sem fronteiras e sem o medo do amor que transborda, fecundando o caminho...
Amar é aventura errante; salto fertizante; germinação inovadora...
Ser amado é espelho; amar, incubadora...
A vida alvorece no caminho do amor...
Dele, nasce um novo tempo...
Mas, para vivê-lo, precisamos sepultar nosso individualismo narcísico; e nos reinventar na potência alegre de ser entre... com... por... Precisamos aprender nos dar...  trocar...  partilhar...  compor...
Então, já não viveremos esvaziados de sentido... empobrecido de ideais...
Nem adoraremos com estranheza as estrelas do céu... As maremos como irmãs da que carregaremos no próprio coração...


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

DIÁRIO DE BORDO: ESTES SONHOS...

                                 Jorge Bichuetti

A aurora chega e encanta o dia... Chego a pensar que é ela uma ponte entre nossa dura realidade e a beleza dos sonhos azuis. Escutando o ruflar dos álamos, sento o calor amoroso da minha pequena Luinha: nos meus braços, sonha... Teima e persiste, dormindo...Suspira, dengosa... Assim, ouvimos o alvorecer na melodia singela dos pássaros vadios que se alegram e alegram no verdejar da esperança...
Um novo dia!...
Nele, encontrarei a vida: riso e lágrima; cais e ninho... entre o voo e mar que mergulha no horizonte, sedento de ondear entre estrelas nos confins da imensidão...
Viver é lutar... Resistir, reinventar-se... Semear o novo no chão ávido, que saudoso é sempre um tapete de folhas secas, ornamentando a espera da primavera...
Muitos param de lutar... Desanimam... Descreem... No vazio, vegetam...
A esperança não é fruto caído da árvore das ilusões; é fatia de sonhos... Vida na ousadia germinativa do novo; malabarismo metamorfoseante do próprio infinito...
Sem esperança, vivemos acorrentados no fatalismo e na negação...
Sem sonhos, o mundo acinzenta-se e descolorido é o tédio da mesmice.
Florescer entre pedras... Voar com loucura de ir pela vida enluarado de paixão... Eis a magia que enfeitiça o mundo, rompe o tempo e materializa nas fissuras do hoje as floradas do amanhã.
Utopia? Santa Utopia!!!
O que seria de nós, se escutássemos a voz do morro que resistência e poesia...
Um novo dia!!!
Um novo momento no caminho... Podemos mudar e aprender a viver, semeando sonhos e alegria na coragem do amor, nos atrevimentos da liberdade, no aconchego carinhoso das belas amizades...
Temos tanto, mas somos, muitas vezes, vidas negadas, vidas contraídas, vidas trituradas...
Ousemos viver, cantando... Pois, o sol nascerá...


domingo, 26 de agosto de 2012

DIÁRIO DE BORDO: ECO DO SILÊNCIO...

                                    Jorge Bichuetti

Ajoelhado, no orvalho da madrugada... miro o céu e entre estrelas, não vejo o prateado luar dos meus sonhos azuis. Ia chorar, quando notei que a Lua, roçando minha pele, havia aninhado nos meus pés... junto aos olhinhos miúdos e ternos da pequena Luinha, companheira de todas aventuras e lutas...
O orvalho da manhã me aquecia, de novo, o coração: fé e esperança... vida adubada na utopia da compaixão.
Não chorei... Ergui meu canto, dele fazendo mi'a profana oração.
A saudade tanta... corta, fere, arranha...
Os álamos bailam alegres, saudando meu regresso... E um cacho de rosas brancas perfuma o ar, recordando-me que, logo, cantarão os passarinhos...
Viver é recomeçar... Recomeçar é sonhar, lutando...
Frágil, luto... Tento azular a vida com a alegria de um samba...
Caminhar é tecer trilhas entre o pântano do cotidiano da vida que chora e sangra e os sonhos azuis do porvir que na ânsia de serem paridos brilham no horizonte azul...
A serenidade do silêncio da madrugada me sussurra a poesia da esperança.
Muitos vivem no desalento, cultivando pessimismo e fatalismo; eu canto o sol que nascerá... o mundo que germinativo está por-vir...
Minhas dores passaram... se me feri, me curei, como diria Tagore... Assim, acaricio reverente mi'as cicatrizes...
E penso... nas feridas abertas no coração da vida, nas entranhas do mundo... Indignado, pergunto: por que?...
Por que tanta exclusão? tanto desamor? guerras?... Por que?...
Quero o céu na Terra... como anseio, um dia, levar para o céu as belezas da Mãe Terra, para que o infinito veja de perto o nosso paraíso maculado pelos vis interesses da ganância e da vida banalizada que no individualismo imprimiu o maquinismo da destruição.
Quanta solidão!
Lá fora, o mundo chora...
Uns na estrada avistam a terra orvalhada e alucinam, com as colheitas que pulsam em sincronia co'as batidas de seus próprios corações...
Outros agonizam no chão... Sentindo perto o céu estrelado, ante a distância quilométrica das mãos amigas que poderiam reerguê-los na estrada da existência...
Quanta dor!...
O mundo tergiversa e nega: cidadania é solidariedade e ternura, vida compartilhada no amor sem lmites ou fronteiras...
A tristeza não me impede de sonhar...
"A tristeza tem sempre a esperança de um dia não ser mais triste não..."
Assim, nos estalidos do meu corpo cansado... olho mundo, e, indignado, busco o carinho universal da minha pequena Luinha... Ante tanta maldição, eu quero o Samba da benção...


07 de setembro de 2012 - praça Santa Rita; de 8 às 12 hs: O GRITO DOS EXCLUÍDOS


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

DIÁRIO DE BORDO: NA LUA CHEIA; A MAGIA DA TERNURA E DA COMPAIXÃO...

                     Jorge Bichuetti

Lua Cheia... Cheia de encantamento; permanece no céu... Teimosa, juntou-se aos passarinhos e com o eco dos sinos e das suspiros da madrugada cantam...
A alegria que brilha no coração da vida é força que se renova nas manhãs... A vida teimosa recomeça versando a poesia da esperança; o horizonte azul, guerreiro, não cansa de de desenhar nas páginas do infinito sua inalterável vocação pela utopia... Espera ativa... Potência do por-vir que pulsa com ânsia de ser já vida e mundo, vida de ternura e compaixão, um mundo de suavidade, paz e solidariedade...
Os álamos bailarinos me receberam festivos; a roseira com cacho de perfume e sonhos...
A maciez do orvalho dialogava insistente; e, na voz, vi a dignação com dureza e crueldade que campeia dominante nossa realidade de exclusão.
O amor me pareceu um ente vivo no aconchego da aurora...
Alvoreci...
Escutei, no silêncio, a indignação da vida que eloqüente falava do pode a ternura e a compaixão...
Na relva molhada, senti a terra apelando e falando do que seria nossas vidas se a solidariedade fosse erguida como lei e poder; ética no caminho e ética nas florações de um novo mundo...
Recordei-me das lágrimas que correm nas fissuras criadas pelo egoísmo e pelo orgulho; pela lógica de exploração, dominação e mistificação...
A ciência e a racionalidade prático-instrumental nos aliena da nossa própria humanidade... Nos formata narcísicos... e, assim, nos fratura o coração que agoniza, pouco a pouco, de tédio e solidão.
Somos singular; somos multiplicidade; mas, somos rede de produção de vida que num devir humanizante nos tece tribos conectadas pela chama do amor.
Quantas mazelas e chagas existem que negam a vida?...
A exclusão social é o fascismo existencial-político e econômico que cria a tirania, a violência, a miséria, a desigualdade e a desvalia da estigmatização.
Talvez, a aurora, com a inquieta e inquietante Lua Cheia, tenha me enlouquecido... Contudo, não creio... Creio que serenidade do alvorecer haja me falado da vida que grita... o grito dos excluídos; o grito pela ética do Bem Comum...
Viver é engravidar-se de sonhos para parir no caminho um novo mundo de amor e paz, suavidade compaixão, ternura e inclusão social...
Viver é superar a tirania da nossa vontade e desejos pessoais, para descobrir a alegria de ser caminho de transformação nos voos da partilha, que nos dá como mundo novo um ninho de solidariedade...
Ante as dores do mundo, então, urge voar... Voar, lutando... para que a nossa realidade cotidiana, também, viva a poesia viva do alvorecer...


"POR UMA NOVA TERRA, POR UM POVO POR-VIR" DELEUZE

sexta-feira, 27 de julho de 2012

DIÁRIO DE BORDO: UM ETERNO APRENDIZ...

                               Jorge Bichuetti

Noite alta... Os álamos bailam, valsando com o tempo... O vento que arrepia minha pele, perfuma... A roseira com seus cachos, o limoeiro com seus sonhos de samba e caipirinha; a romã com promessas de amor... Meu quintal é mi'a Igreja: fé na vida, esperança no caminho, escola de humanidade...
O sono, entre dores e inquietações de malabarista, se foi... Ficaram os Sonhos, ficou Luinha... Carinhosa, deita-se no meu ombro... Juntos espiamos a noite, o luar e as estrelas... Tudo é tão belo... As próprias nuvens discretas parecem leitos siderais...
O meu café quente, me abraça por dentro, e por fora, me dá saudades...
A saudade é a voz do coração que presentifica o passado... o que partiu, ficando. E dá presença aos que distantes nunca se ausentam...
O silêncio é a poesia escrita pelo infinito no coração que sonha...
Entre suspiros, palavras... escritos na pele... desenhadas na alma.
A poesia é a vida que rompendo o silêncio dá voz as cantigas do infinito... as que cantadas, foram esquecidas... e as que estão por nascerem...
No silêncio, entre poesias e canções, vendo que viver é recomeçar... não tenho dúvidas: a utopia não é uma miragem, uma ilusão... È ânsia da vida... da vida parideira... vida metamorfoseante... vida que se deseja realizar no balançar das mudanças...
Quieto, atencioso... o universo desnuda meu analfabetismo: nos tiraram a audácia de escrever no caminho, lutando... o amanhã, a aurora, o despertar...
No além-mar, uma pérola numa concha nos sussurra a visceralidade cósmica das pulsações da nossa própria humanidade...Com paus e pedras, constato, vendo o poder das florescências que insurgentes nos chamam para o salto... Um salto vitalizante, inovador... criativo e germinativo: há u'a humanidade de suavidade e paz, dentro de nós, esperando inquieta, pois deseja ser parida para aniquilar as desumanidades...
Aprendo, sempre... Não falo do que sei... sei tão pouco... Eu grito o canto da vida que rebelde e insurgente é ternura e compaixão, contida e negada pelos canhões de ferro e de palavras, que vão impedindo-a de ser parida... E, assim, seguimos... desligados do pedido da vida que nos quer hoje como ventre do amanhã.
"Não é preciso conquistar o mundo. Basta fazê-lo novo. Hoje. Nós. " Subcomandante insurgente do EZLN.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

DIÁRIO DE BORDO: ENTRE AVES, MARIAS...

                                  Jorge Bichuetti

Amanheci cedo... Céu azul borrado de cinzas... Nuvens claras e calmas... No ar, o canto de uma multidão de pássaros... Ali, no quintal, junto ao burburinho dos álamos, vi e saudei o novo dia....
Luinha ficou no cálido aconchego dos cobertores... Faz frio. O café quente é carícia no coração inquieto...
Ontem, no Encontro de Educadores de Creches pude ver o valor do trabalho que é amor e compaixão...
Quantas Marias cuidando das pequenas aves que cantarão na aurora do tempo quando no caminho nossa luta semear uma nova primavera de suavidade e inclusão.
Fui feliz; embora, atrapalhado entre mi'a incapacidade com as máquinas... o telefone caía quando o amor queria dizer mais uma palavra; meu corpo teimoso, noutros momentos, falou demais quando somente devia admirar e aprender... lições de solidariedade das dores contadas e no trabalho vivido que relatado me fazia desejoso de cantar para todos os que labutam com o0s desafios da educação:



Penso que ando meio louco. Desejo a todos que amo, aos que vejo sofrendo e aos que encontro lutando, dar com carinho e ternura uma lua branca...
O luar me alimenta; a aurora me aquece e energiza... Mas, o olhar do ser humano, na dor e na alegria, me contagia e dá sentido e vontade de viver... de viver, guerreando... sonhando com um novo mundo de paz e serenidade, amor e compaixão...
Com é belo a vida tecida no horizonte azul das amizades cristalinas...
Como será belo o mundo erguido pelo perfume das floradas da solidariedade, que flor no território dos corações.
Eis minha loucura...
Não sou o único...
Afirma o professor Antônio Cândido que a utopia socialista pode não nos assegurar o paraíso, mas que sem ela já estamos no inferno...


sexta-feira, 13 de julho de 2012

DIÁRIO DE BORDO: SUAVIDADE E PAZ...

                          Jorge Bichuetti

Os passarinhos cantam...Escuto a melodia suave do bailado dos álamos... e a voz cândida da última estrela. Um novo dia chega...
Luinha, já mocinha rebelde, dorme; mas, de quando em quando, escuta as canções da vida que na manhã falam de suavidade e paz...
Viver é simplificar o caminho, sem economizar nossos sonhos azuis...
Conta a minha Luinha que Dona Dilma, embora não tenha ainda conhecido a serenidade das manhãs no nosso quintal, ontem glorificou-o, chamando a atenção para o Produto Interno de Suavidade...
Ouro, Dólar, reais... falam do produto bruto; mas, nossas crianças e adolescentes, nossos rios e riachos, nossas matas... conta da luta que se dá para que tenhamos um país de suavidade e paz...
No SUS, luta-se por acolhimento...
Nas favelas, por reabilitação criativa...
Precisamos criar um país de suavidade e paz...
Sinto que os passarinhos auscultam meu texto e concordam... andam mais tranquilos.Viram que o Veta, Dilma!... confirmada pela nossa maternal presidenta, deu suavidade e paz a nossa mãe natureza.
Nas nossas vidas, também, urge que mudemos a lógica de medir nosso crescimento...
Podemos crescer na acumulação de bens e recursos; como podemos crescer na alegria de viver intensamente a suavidade a paz que pinta de azul nossos mares e nosso horizonte.
A truculência e a soberba não irradiam vida nos entornos da paz...
A paz mora no coração das cirandas infantis e dos velhos seresteiros...
É roda-de-samba... onde Cartola relembra que o sol nascerá... e Caymmi, nos ensina a viver com coragem e ousadia, dizendo que é doce morrer no mar... Nela, a filosofia é Noel Rosa asseverando que a aristocracia troca alegria por hipocrisia.
Precisamos de alegria, suavidade e paz... e a multidão não encontra estes produtos no mercado...
Moram na poesia que nos educam capacitando-nos aos voos da paixão com a prudência de não juntar amor e dor.
Vive na altivez da Comissão da Verdade que pouco-a-pouco vai nos trazendo a cantoria dos sabiás...
Suavidade é vida partilhada, solidariedade ativa... ternura vital e compaixão generosa...
É liberdade na ética do Bem Comum...
Palavra e silêncio... amigos, discos e nada mais...
A hora é de colorir o país... Celebrar e festar, borboletear...
Quem dera... suavemente, pudéssemos dizer somos o país que na paz, na amizade, na superação dos preconceitos, na inclusão social e na cidadania... temos suavidade e paz... por sermos o maior produto interno de alegria...
Eis a alma que sonhamos para o pais e para o nosso coração...


quinta-feira, 12 de julho de 2012

DIÁRIO DE BORDO: LUINHA; ECOS DE SAUDADE...

                    Jorge Bichuetti

Escrevo com a borra de café que, se não fala do futuro, conta-me histórias do passado e, nelas, a vida vivida, o caminho percorrido... amores e paisagens que moram no meu coração. Luinha saltitante é a alegria permanente... Ela seca minhas lágrimas...Vê no hoje a força do eterno retorno... Assim, sua saudade é canto de magia, evocando canções e poesias, amigos e manhãs que afirmam que a vida é o voo do nosso coração, com as asas da luta, buscando na linha do horizonte a vida remoçado no carinho da aurora...
Tudo passa... volta metamorfoseado, com a riqueza formosa das experiências vividas.
Tento madrugar; ela tenta me convencer que que se pode esperar e lutar, sonhando...
Molho, então, meus pés no Rio Grande que o tenho vivo na memória... e canto.
Povôo de canções e poesias... o caminho. Ele é a própria vida, no tricotar dos nossos passos...
No quintal, a suavidade dos álamos bailarinos e das rosas regateiras me ensinam que alegria é desengaiolar-se e voar... Voar, outrando-se... voar, reencontrando-se com os que partiram e com os que irão chegar...
O individualismo da globalização neoliberal turvou nossa visão... Corroeu a força do nós...
Somos tribos... O coração não se intimida com as medições da distância.
Ele é pulsação viva que pede a alegria dos bons encontros...
Nossos passos no caminho podem acorrentados nos aprisionar na solidão e no isolamento; se insurgentes, rompem os os elos da corrente e ganham asas... alados, então, conseguimos criar um rede de amigos, uma tribo... Vida comum na roda-de-samba; na seresta... na prosa no fogão-de-lenha...
Não é normal voar... parece que anda proibido sonhar... Regras da normalidade instituída...
A vida é potência no encontro; alegria no horizonte azul...
As barreiras são todas do nosso ego, que é, tão-somente, a parte de nós que introjetou as restrições e inibições do socius... somos mais...
A tirania exclui a transversalidade que nos permitiria acessar nossos eus não-paridos, nossas potências desconhecidas...
A submissão à rotina nos entristece; nos apequena...
Há um Super-homem na vulnerabilidade humana criativa que nos marca a existência.
Ativar nossas potências; desbravar clareiras na escuridão... desnudar bifurcações nas encruzilhadas é a arte de alijar de si a servidão e dominar o próprio destino...
E, assim, ir pela vida florescendo sem medo de ser feliz...


terça-feira, 10 de julho de 2012

DIÁRIO DE BORDO: A ARTE DE SONHAR

                     Jorge Bichuetti

Tristes, cinzentos... Vemos nossas vidas corroídas pelo tédio e pela angústia.
Todo dia repetimos a mesma rotina aborrecida e desgastante... Robóticos, seguimos... e só paramos para rever o vivido quando inundamos nosso coração num redemoinho de dor. Então, deprimidos, ansiosos, delirantes, panicados queremos uma saída... Um remédio, um milagre... uma ilusão.
Acreditamos vítimas de u'a obscura patologia...
Ou, servos de u'a maldição...
Na realidade, a vida que temos é a vida que produzimos... 
Na tempestade das nossas lágrimas, cremo-nos impotentes e incapazes de dar um salto sobre o abismo.
Acostumamos a nos ver passivos, reativos e servis...
Desconhecemos nossa capacidade criativa, inventiva... Vivemos desconectados de nossas potências.
Antes, o hospício nos recolhia e silenciados, agonizávamos num calvário de desvalia e devastação.
Hoje, nos sedam... e vegetativos, balbuciamos feridos.
Urge que aprendamos a cuidar de nós...
Entre mil faculdades que nos permite valentes e ousados na reinvenção da nossa alegria, nos roubaram um dom... uma propriedade curativa do nosso próprio corpo, da nossa própria vida: a arte de sonhar...
É preciso resgatar a nossa capacidade de sonhar e voar sobre abismos...
No abismo, nossos monstros: bloqueios, frustrações, inibições, repetições tediosas...
Sonhar é tecer asas... é voar... é saltar sobre abismos e escalar as pedras do caminho.
No ato de sonhar, despertamos nossos corações adormecidos, hipnotizados... Redescobrimos novos sentidos para o existir.
Sonhar é vencer as barreiras do status quo, da vida negada...
Sonhar é redesenhar nossos caminhos e horizontes, escutando as vozes dos nossos desejos e a própria sinfonia do infinito.
Através dos sonhos, adubamos o território das nossas vidas para a gestação dos nossos eus não-paridos.
Acercamo-nos do novo... Tornamo-nos capazes de gerenciar nossas dores e de tecer redes de amizade, alegrias inéditas... voos na imensidão do que pode um corpo.
O nosso pesadelo é a acomodação, o fatalismo, a nossa submissão...
O sonho é a primavera existencial que insurgente reinstala em nós as floradas da vida em abundância...
Ousemos, sonhar...
Ousemos, mudar a vida e transformar o mundo... semeando no caminho das nossas lutas diárias um chão de estrelas...


10/07/2012 - 19:00: grupo de estudos da obra de Juvenal Arduini e sobre dependência química.
Rua Capitão Domingos. 1079. Abadia. Uberaba, MG / Brasil

segunda-feira, 9 de julho de 2012

DIÁRIO DE BORDO: FOLHAS NO MEU CORAÇÃO...

                     Jorge Bichuetti

Nuvens densas e escuras; entre elas, a Lua: pequena, porém, brilhante, encantada. No meu coração, alegria... De volta, no meu quintal... senti o ruflar dos álamos, o suave perfume das rosas... E meus passarinhos, aconchegados por ninhos de ternura e proteção...
O vento frio não me intimidou...O que era ferida; tornou-se, tão-somente, cicatrizes...
O tempo rodopia e passa... tudo renova...
Em êxtase, deixei o vento sacolejar as folhas do meu coração.
Escritos, paisagens... Caminhos percorridos; horizontes sonhados...
Alegre, compreendi as formosas borboletas e as cantantes cigarras... não as vi, nem as escutei... mas, pela primeira vez, as compreendi.
Deusas da alegria vivem plasmando no mundo as lições da felicidade que se encontram apagadas dos compêndios da ciência.
Ensinam a voar, bailando no infinito...
Ensinam a cantar, dialogando co'as estrelas...
Nossa vida de rebanho no curral é vida cinzenta na amargura dos pecados e dos complexos psicológicos, ambos, artimanhas da mesmisse... evitação do novo; cinzas no olhar para que não vejamos o esplendor inovador da aurora.
Culpa e ressentimento é cultura introjetada que nos mantém prisioneiros do narcisismo e da onipotência...
A vida é permanente aprendizado; metamorfoses criativas...
Se não chegamos nas terras do amanhã é porque mantemos nossos pés e mãos atados nas areias movediças do passado...
É preciso aprender a passar... Seguir adiante... Renovar-se... Reinventar-se...
Se erramos ontem; acertemos hoje...
Se caímos; reergamo-nos e sigamos adiante...
O dia que começa é tempo novo...
O passado é folha seca no museu das experiências vividas.
O vento renova a vida, espalhando no anonimato as folhas secas que cedem espaço e vitalidade as folhas que brotarão na vida parideira que não cansa de se recriar...
Enxuguemos nossas lágrimas... Sopremos as cinzas dos nossos caminhos...
Desbravemos novas clareiras... Inventemos um novo canto...
Não esqueçamos que a vida sempre recomeça... Assim, na novidade do tempo remoçado, reinventemos nossos passos no caminho: com compaixão e ternura, teçamos o amanhã, não economizando hoje nossa capacidade de amar e se dar...
A felicidade é caminho...


domingo, 8 de julho de 2012

DIÁRIO DE BORDO: O QUE PODE A POESIA?...

                          Jorge Bichuetti

Brisa matinal; verde orvalhado de esperança... No céu, as últimas estrelas... entre os primeiros raios do sol. As rosas me embriagam com suas orações perfumadas. Meu café preto e quente, me dá chão... Luinha, com dengos de menina amada, decidiu permanecer por mais algum tempo no mundo dos sonhos.
Por teimosia, aqui, estou... Talvez, iludido no delírio que meus escritos façam, para alguém, algum sentido...
Não sou poeta... nem filósofo...
De ofício, psicoterapeuta... Um artesão tecendo caminhos nas entrelinhas das lágrimas; um artesão colorindo o horizonte, como quem desenha auroras nas nuvens que passam sombreando a vida com as cinzas do tempo...
Queria ser mágico... palhaço ou malabarista...
Se mágico, mudava o mundo... multiplicaria risos e amores, canções e poesias...
Se palhaço, enxugaria o pranto do mundo... semearia flores e passarinhos, sonhos e o dom de azular as encruzilhadas do destino...
Se malabarista, descobriria, na corda-bamba, o equilíbrio: a serenidade de saltar sobre abismos para despertar nas alegrias do amanhã.
Ah! se o mundo doído, fosse somente um mundo doido...
Um mundo onde a alegria surgisse espontânea; a diversidade florescesse incluída; e as adversidades fossem gerenciadas segundo O Evangelho do Bem Comum.
Leio poesia: nela, há pão e vinho; caminho e horizonte...
Nela, encontro riso e suavidade... cicatriza minhas feridas; vitaliza meu destino peregrino de loucamente, ante as dores do hoje, desejar o alvorecer de paz e alegria que mora no coração do por-vir...
O dia clareia... 
Um novo dia...
Assim, se fosse fazer minha prece matinal, pediria: coragem de seguir caminhando; ternura de caminhar partilhando... rogaria um olhar de compaixão, e as benesses de um coração solidário...
Ouro e prata?... para que?... tenho poesias. As poesias embelezam e enriquecem os corações que lendo-as, viajam na imensidão do infinito e no infinito que que pulsa no que pode nossa humanidade...
Elas, as poesias, são voos no coração do infinito e mergulhos no infinito dos nossos corações que com elas bailam a ciranda do amor.