quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

ESQUIZOANÁLISE EM TROVAS ( 1 )

ENTRE PEDRAS, GIRASSÓIS...
                                    jorge bichuetti

                      


                            


                                                                   A
Acaso:

Antes tudo se explicava
com lei para qualquer caso;
hoje, para além da trava,
nota-se a força do acaso.

Acontecimento:

Um farol, u’acontecimento:
tudo se arrasta , envolvido
co’o novo, doce incremento,
da euforia de um mais vivido.

Agenciamento:

Botar fervura no novo,
gerando um belo sentido;
o homem-ilha num devir-povo,
de si o velho esquecido...

Amor:
O amor se dá florido,
se longe da dependência;
senão, é um deserto tido
sem u’oásis de clemência.

Antiprodução:

Antiprodução consiste
num redemoinho de morte,
onde entre o sabiá e o alpiste
há u’oco fazendo o corte...





Atravessamento:

Um sinal de impedimento,
bloqueio e anulação:
atravessar é o cruento
da barreira à reflexão.

Autoanálise:

O especialista explica,
diz-se dono da verdade...
Mas se a praxis é rica,
cada um se vê com lealdade.
Autogestão:

A gerência sem poder
é trama de liberdade;
todos não querem perder
sua potência de igualdade.







                                                          

Diário de bordo: A Fundação Baremblitt convoca, é tempo de liberdade e alegria

DIÁRIO DE BORDO : O CARNAVAL DA INCLUSÃO...

                                                                                  jorge bichuetti


Não é madrugada, já é dia... Vida tamborilando os acordes da labuta.
Tendo silenciar, contudo, não consigo... Meus livros se aquietaram, milagrosamente; e em algum canto da casa encontram-se escondidos canetas, papéis e anotações...
Até a Lua, está eufórica, desejando o amanhã...
Amanhã? Oh! amanhã, sim, sai nas ruas de Uberaba O Bloco Maria Boneca e o Carnaval da Inclusão...
E eu, com meus cabelos brancos e pés cansados, que já havia perdido a fé na alegria... estou, também esperando com alegria e animação.
¨... Atrás da verde-e –rosa só não vai quem já morreu” ...
Uberaba abre a folia com os tambores da liberdade conclamando uma nova vida: o direito à diferença e alegria partilhada na avenida...
Portadores de Sofrimento Mental, Crianças, Jovens, Estudantes, Professores, e muitos povos, se juntam e celebram, através da alegria do samba, um novo jeito de viver e uma nova cidade...
Já dizia, Benilton Bezerra “ é preciso fazer a loucura caber na sociedade.”
Cantou Caetano: de perto ninguém é normal...
Cuidar não sedar, negar a diferença e excluir...
Cuidar é dar acolhimento ao sofrimento e traçar caminhadas de libertação.
A loucura , um dia, era perigosa, pueril e improdutiva – na mentalidade de um pensamento disciplinar observado por Foucault.
Hoje, a loucura é a dor...
Dor do diferente que conta as misérias do nosso tempo.
E é provocação: convite à alegria, à expontaneidade , à liberdade e à ternura.
A cela-forte que isolava e humilhava caiu, como caiu o muro de Berlim, e como cairá todas as barreiras à fraternidade legítima que define o humano na sua potência divinal.
Não mais os estertores e tremores do eletro choque...
Saúde é , agora, samba no pé...
O branco e o cinza se borraram e um arco-íris multicolorida enfeita a cidade, chamando-nos à vida.
Amanhã, dia 12 de fevereiro, sexta-feira, às 9 hs, inicia o carnaval da inclusão...
Mais um ano de “ explode coração na maior felicidade”...
Mais um ano de “ canto de fé, que leva vida na poeira e no pé”...
Pés que caminham, sonham, bailam, amam...
Pés que sangram, se ferem e se cansam...
Pés... De João e Maria, De Sebastiana e José... Nossos pés...
Agora, sentindo-os, eu também “só quero botar o meu bloco na rua”...
E sob as asas da liberdade ousar o sonho que enlouquece: quero sonhar, lutando...
Meu sonho? Loucura de menino ou delírio quijotesco, pouco importa, eu quero na avenida começar uma nova vida, acreditando que é possível mudar o país e construir um mundo de justiça e liberdade, solidariedade e amor...

Terapia e arte

Rita Lee: do divã às constelações estelares

                                    jorge bichuetti




O ofício de terapeuta é uma arte.
...Uma arte complexa e angustiante. Lidamos com pessoas, e com pessoas geralmente no abismo de uma crise.
Diante de nós, vemos vida, mas a vida nas encruzilhadas do destino.
Dor, perda; sofrimento... Solidão, vazio... Desamor...
Eis o temário predominante de uma terapia.
São feridas, cicatrizes; sonhos não- realizados, frustrações...
O terapeuta vê diante de si os excrementos da vida e a potência de um corpo que se desconhece vida e por isso se fez lágrimas, sintomas, padecimento...
Se delira... Não ousa delirar, sonhando um romance de amor e felicidade.
Se escuta vozes... Não ousa escutar um hino de esperança.
O terapeuta lida com vida. Mas frequentemente ele tem por demanda vida estropiada, alma dilacerada.
Insensível, ele nega-se a ver o calvário e evita devir-se Simeão, o cirineu.
Anuviado, ele omite-se e foge da possibilidade de se devir Zumbi, o libertador- guerreiro dos Quilombos.
Ele trabalha, e ás vezes, atrapalha, pois crê na ilusão de que é preciso abster-se, não- cooperar e de que é necessário frustrar, deprimir...
Pretende-se ajuda, explicando o adoecer.
E de tanto rondar pelas feridas do corpo e excrementos da alma, num devir- urubu, ele se alimenta de carniça, e não vê que a dor alheia é um analisador do que precisa de tratamento, esta merda de vida, vida medíocre, rotina robotizada; este mundo mercantil e desumano, consumista e cheio de competição.
Assim, ele age fazendo do entristecer sua arma de ação.
É a terapia- saber prévio, codificando e adaptando, recondicionando o homem para que servil ele retome a lógica do mundo de vendedores e vencedores.
É a terapia- Pilatos e soldadesca romana: lava-se as mãos e ainda se dá vinagre, diante da sede e se tem sempre uma lança com a qual se fabrica da queixa uma chaga à espera de que da cruz venha a ressurreição.
Diante da dor, renunciei-me urubu e tento terapeutizar num devir- beija- flor, sabiá... Curió, pardal... João- de- Barro...
Isto é, inspirado na multiplicação dramática, uso com bastante freqüência a multiplicação musical.
É a música como mais um instrumento na caixa- de- ferramentas da terapia , de uma terapia que se define vida produzindo vida, vida nova , mais vida.
Relembrando casos e casos, devo admitir que minha dúvida para com Freud, Jung, Lacan, Reich; Pichón- Riviere, Baságlia, Deleuze- Guattari e Baremblitt não é maior do que a minha dúvida para com Rita Lee.


Rita Lee é uma estrela...
Quando nasceu, nasceu deixando astrônomos e astrólogos enlouquecidos; o céu perdeu e o chão da Terra se divinizou... O divino humana de uma estrela que se ocultou, num terno e rebelde devir... A estrela se fez mulher, flor, poesia...
Rita Lee é agora uma índia cosmopolita, uma deusa tupiniquim; uma fada cibernética e uma bruxa angelical...
Bela e criativa. Uma guerreira desarmada, que mulher valentia ousou enfrentar crítica e críticos para manter sempre, desarmada, porém , jamais desalmada. Alma livre, mutante... Alma- invenção...
A estrela nasceu... todavia, para isso... quanta mutação.
A cegonha intimidada a entregou e ela veio numa nave espacial que enamorada, com ela ficou, fazendo do coração (Lar? Bar? Templo?... Sei lá!...) moradia.
Cantando é intérprete... Através dela, canta um coro de anjos e querubins que traduzem as lágrimas e sonhos de um povo mutante, e multiplicam os frutos já não mais evitado, embora ainda proibidos, e, também, ensinam que atrás do porto existe uma cidade: São Paulo na Guanabara, Nova Iorque em Jerusalém... Ouro Preto nascendo Paris e Londres no meio do Pantanal...
Ela é feiticeira e santa, terapeuta e menina- mãe.
Pop... Rock... Canção...
Simplesmente, mulher, singular e plural, que mundana nos leva aos céus do amanhã e que divina é a ousadia de desejar, sonhar e lutar fazendo do presente, o amanhã teimosia que se exige já.
Ela é inspiração, provocante...
Provocação, inspirando o virtual, o novo, o inusitado.
À ela devo alguns bons momentos da clínica vivida, onde suas canções me permitiam agir, com ternura, sem perder o poder do fogo, a capacidade de impactar nos processos terapêuticos, vinculando compreensão e solidariedade, mudança e vida

Escolhi quatro lembranças... Já que são inumeráveis os casos que roubei suas canções para lidar clinicamente com determinado conteúdo exposto.
Nos tempos atuais, um texto longo... Ah! Corre o risco de ser lido apenas pelo próprio autor.
Primeiro: Senhor F. quarenta anos. Casado, dois filhos. Funcionário público.
Motivo do tratamento: depressão, stress, desinteresse pela vida, pelo trabalho e pela família.
Depois de três meses de terapia, ele reclama :
a minha vida é um zero à esquerda. Nada tem graça. Custo a suportar as oito horas de trabalho, chego em casa, desmonto... Durmo e no outro dia é tudo igual.
Olho. Em silêncio, vejo sempre de terno pardo; repetindo as mesmas queixas.
Recordo outras intervenções: o desmonte da sua dependência materna e sua antipatia pelo pai; a criança superprotegida, a lenda familiar de que ele gerenciaria a fazenda, substituindo o patriarca, fazenda perdida na falência familiar; e a sua obsessão submissa no trabalho etc, etc e etc.
Recordo, e ainda, em silêncio, escuto uma ressonância musical. Dentro de mim, uma voz ressoa insistente.
Expontaneamente, eu canto:
o Se Deus quiser/ um dia eu quero ser índio,
Andar pelado pintado de verde.
Num eterno domingo...
Espanto. Ele chora e dialogamos longamente.
Falamos sobre rotina e lazer, sobre cotidiano e prazer... Desgaste e desfrute... Etc, etc e etc...
Conversamos sobre a impossibilidade de se sobreviver, longe dos nossos desejos...
Das linhas de fuga- experimentos onde somos nós e fugimos da rotina e do esperado.
Inesperadamente, ele dispara uma série de mudanças na sua vida: passa a reunir amigos e familiares e cozinha, num jantar íntimo semanal; começou a sair, a se divertir e alugou um sítio, onde cuida de um pomar, e uma pequena plantação de feijão.
E agora, o funcionário- índio, o homem que redescobriu o seu domingo vive assintomático, sem medicação e sem queixas.

Segundo: Assembléia geral do Núcleo de Atenção Psicossocial - Maria Boneca, Uberaba. As mulheres reclamam; falam das dificuldades com o corpo, da violência masculina; de gestação e filhos...
Reclamam... E reclamam, assumindo um papel e uma imagem impregnados de desvalia.
Os homens sorriem... Sorriso baixo, todavia irônico.
Discutimos: machismo, a questão feminina.
Relembro teoria espúrias: a inveja do pênis, a castração; heranças de uma ideologia travestida de ciência. Imaginário do ritornelo edípico.
Peço a palavra e ouvindo notas musicais que iam se conjugando, cantei:
o Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra.
Um sexto sentido maior que a razão...
O debate se aprofundou... Todos falaram...
Desta conversa surgiu dois trabalhos: uma oficina de cidadania em que a questão da mulher e o machismo foram lidados e um laboratório ''Elegia à mulher'', descrito no livro ''Lembranças da Loucura''.
Hoje, a problemática mudou... O machismo, às vezes, ainda surge, porém, já se depara com coletivo de homens mulheres que diante dele assume uma posição de luta: por isso, não provoque,/ É cor de rosa choque...

Terceiro: O jovem P. vinte anos, em crise delirante. Mostra-se resistente. Situação preocupante, quadro se agravando e ele, no meio de delírios e atos desconexos, comunica:
o Não volto... Não quero tratamento... Meus vizinhos me chamam de louco..
Preocupado, sinto-me paralisado. Sem argumentos. Conheço sua história. Sei dos preconceitos enfrentados no cotidiano.
Penso... Penso... Não encontro argumento novo. Já havíamos conversado longamente, várias vezes.
Impotente. Escuto um som ressoando, provocante e revolucionário e faço dele a minha intervenção:
o Mas louco é quem me diz / E não é feliz... Não é feliz... Eu juro que é melhor...
Se eles são medíocres, estigmatizadores; se eles desconhecem cidadania, direitos humanos, eu prefiro ( e prefiro mesmo) os que ousam ser Cristo, Napoleão, Di Capri, Allan Delon... Leila Diniz...
''Eles rezam muito'', mas são o inferno.
Atualmente, este usuário é um excelente advogado da loucura. Sabe se colocar, defende o diferente, o singular; o direito e a crise.
E, principalmente, continua se cuidando e produzindo vida, arte...

Quarto: A adolescente Z. Crise impertinente. Rodopia, vaidosamente, num delírio monotemática e repete de cinco em cinco minutos: Eu não a mulher mais bonita.
Não se interessa pelo trabalho terapêutico.
Um dia, depois de ouvi-la, n vezes na mesma cantinela, atrevi- me e cantei: Miss Brasil 2000...
Ela levou um susto. Arredia, quis desconversar, contudo após uma hora, expontaneamente, procurou-me e numa conversa sincera e lúcida, discutimos: estética e ética, outros talentos, a sabotagem de não se investir no que temos de alheios e negando os próprios e sobre o caráter singular, a beleza pessoal.
Agora, ela canta , escreve, tece...
Não é Miss; mas vai construindo um 2000 que lhe tem parecido ''legal''.

Estes exemplos clínicos não podem ser desprezíveis. Quando pensamos o pouco que se consegue interpretando e tantos psicóticos cronificados, desamparados, devo ser autêntico e dizer:
o Rita Lee, que tal nós todos- loucos, artistas, aprendizes de feiticeiros- nós o humano que ainda louco pelo novo, por um mundo novo, numa banheira de espuma, numa nave espacial ou simplesmente no palco do cotidiano, descobrindo a loucura de ser... Ser... Viver, sobreviver...
Sobreviver, resistindo, viver, sonhando...
Assim , finalizo, dizendo, também:
o Ave, Rita Lee... Seu canto é poesia- de vida e de vida capaz de afugentar os fantasmas da morte que tantas vezes nos atravessam a estrada.
Sigamos , cantando...
E rogando aos deuses que a ''Estrela do devir'' possa persistir, seguindo também, encantando este mundo que então estará mais próximo do mundo de justiça e liberdade, ternura e solidariedade, que mundo- clamor de um povo que pode se descobrir mutante.

poesia : multipli-cidades poéticas

MED-AÇÃO
                jorge bichuetti





                                                           Deliro. Vozes me assombram;
louco, desejo um canto
onde descansado das mágoas,
possa seguir adiante
buscando a profunda paz
de um doce encantamento;
que as dores ocultem,
de mim as fazendo ausentes.
E que, eu, novo guerreiro,
vendo-as todas no porão,
tenha apenas por loucura:
a coragem de sonhar
e ousadia de amar...

                                                         *****************************
 
MINHA PRECE
           jorge bichuetti



                                                                              

                                                   Minha prece solfejo: -Pássaro cantante-
num galho de árvore esperando a chuva.
... Mas se cai um temporal,
eu, pássaro molhado, arrepiado de frio,
tenho por prece
tão-somente,
uma pena voando no infinito.

                                                       *************************
 
LOUCO
     jorge bichueti





Eu, você, ou, ainda , ele e todos; o louco
é a ternura da flor, despetalada, caindo
no chão, depois de ter ido, voando, aos céus
com as asas do infinito...

                                                     ***************************
 
ONDE MORA A LOUCURA?...

                           jorge bichuetti

Febril, deliro...
Vejo seres monstruosos.
Antibióticos me curam
e, já sem visões,
vejo o homem...
Ele e um canhão...
Ele e uma criança morta...
Ele e a guerra...
Enlouqueço, então...
Será a loucura
a   normalidade
de um novo mundo
de anjos, flores e paz?...


                                       *************************
O AÇO DA CONSTRUÇÃO

                      jorge bichuetti


Dores. Cansaço. Corpo febril.
Cambaleante,
o homem martela,
martela o destino.

Cedo na lida,
leite e pão, pouca manteiga...
Noite na vila,
leito de capim,.
muita aflição...

Até que, um dia,
o martelo silencia
e, moribumdo,
ele, então, adormece
sonhando ser imortal,
feito o aço da construção.



****************************************

 


LEME
                                                      jorge bichuetti                                               

Qual é o meu leme?
Navego, seguindo os ventos;
procurando novo alento
nos braços da imensidão...

AMAR
      jorge bichuetti

O amor é um caso entre a rosa e o beija-flor ...
No roçar-se, risos;
e, no ir-se, fecundante, um atrás:
... o inebriante perfume da saudade.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

SABER E NÃO-SABER : MITOS

                                           A Desmistificação do não - saber

                                                                                  Jorge Bichuetti

 

                                                                       1.Introdução.

'' Se tanta tristeza, pesar e desgosto,
Senti pelo rosto
Correr-me o suor.
Se neste universo só reina tortura
Devo ir à procura
De um mundo melhor ''
Desilusão / Patativa do Assaré.

O Processo de institucionalização da ciência, do saber científico, como verdade única, absoluta, inquestionável, soberana e de validade universal, afirmou-se definindo todo outro e qualquer conhecimento como não saber.
O saber, assim, expropriou as pessoas e as comunidades do conhecimento que se adquire ao longo do tempo nas próprias experiências vitais.
O estatuto de não-saber desqualifica, marginaliza e silencia o saber das pessoas e dos grupos cujo pensar, sentir e agir não se dá legitimado pelas regras e procedimentos do saber instituído.
[No horizonte, um retrato. Retrato des-colorido, desfocado. O não-saber curvado, se revela, então, silêncio, voz sussurante, opinião desclassificada e práticas marginais... Práticas estas que se re-vistas pelo foco dos interesses populares, revelar-se-iam práticas resistentes, resistência clandestina, de um povo que perdeu o chão-território e o seu universo de referência de sua própria história e se viram transformados numa gente sem-voz.]
Voltemos às nossas reflexões...
O paradigma científico hegemoniza a produção de verdades numa relação dialética com o não-saber.
Relação de contradições camufladas...
...Seu processo de dominação e mistificação da realidade ocorre fantasiado pelo vestuário da neutralidade e justificado pela sua pretensa finalidade.
O saber toma a si como um ideal transcendente da própria existência, harmonioso e funcional com o não saber, existindo para servir a este; sendo, deste modo, cuidado e solução. Ele é um ato de cuidar, velar, suprir e prover a impotência e a ignorância depositado, então, no não-saber.
[No horizonte, outro retrato. Retrato colorido e ampliado. Um poster, um outdoor. O saber ereto, vistoso, cheio de bondade, paternal. Palavreado e tecnologias sofisticadas, informações. Lógico, matemático, objetivo... Banco de dados... Leis gerais, produtos de laboratório. Borrados estão os interesses das suas práticas colonialistas; não há culturas diferentes. A ciência é bom senso...]
Retomemos nossas reflexões.
De fato, o não-saber, neste quadro, passa a se beneficiar, passivamente e de forma dependente, dos produtos do saber; tornando-se devedor, carente, necessitado.
Perde, desconecta-se da sua capacidade de pensar, sentir, solucionar e agir...
Cria-se, neste processo, pessoas e coletivos incapacitados. Incapacidade naturalizada pela dominação do saber, saber científico... Ùtil, fértil; e, também, eficiente, eficaz verdadeiro... Mais saber.
Uma situação de desvalia é produzida.
Desvalia do conhecimento dado pelo senso comun, pela cultura popular, pelos experimentos vitais e pelas próprias tradições históricas das pessoas e dos coletivos.
Desvalia suprida pela pujância do saber.
Saber opressivo. Paternalista. Que nos coloniza... à la Macunaíma - nos embranquece distanciando-nos pouco-a-pouco da terra em que nascemos negros.
Desenraízados, descolorimo-nos.
Uma vez territorializados na pátria do não-saber, somos agora todos protegidos pelo pensar e agir dos especialistas que passam a deter em si a capacidade do saber e, nela o que necessitamos para sobreviver e viver.
[No horizonte, um novo retrato. Um retrato distorcido pelo jogo confuso das letras e palavras do indizível dos especialistas.]
Bíblia contorcida:
'' Conheceres a verdade... Sereis livres.
Desconhecereis a verdade e o não-saber vos fará escravos.''

                                                    2.Não-saber e Alienação

''Sou sertanejo e me orgulho
Por conhecer o sertão
Durmo na rede e embrulho
Com um lenço de algodão
De alpercata de rabicho
Penetro no carrapicho,
Sofrendo a vida penosa
Do trabalho do roçado
E por isso sou chamado
Poeta de mão calosa.

Sou sertanejo e conheço
Meu sertão em carne e osso,
Trabalho muito e padeço
Com a canga no pescoço,
E trago no pensamento
Meu irmão de sofrimento
Que, no duro padecer,
Levando o peso da cruz,
É quem trabalha e produz
Para a cidade comer.''
O Retrato do sertão/ Patativa do Assaré

Foucault desnudou as entranhas do saber e neste strip-tease viu os emaranhados do poder.
Marx e sua teoria da alienação mostra-se atual.
['' Existirmos a que será que se destina '' Caetano]
Para Marx, segundo Vásquez, a alienação é uma relação social onde se consuma o domínio do produto sobre os produtores e uma problemática do não reconhecimento de si em seus produtos, em suas atividades e nos demais homens.
Em síntese: a alienação é a pauperização física e moral do trabalhador e a sua transformação em mercadoria.
O homen não se reconhece em sua atividade. Ele se vê exterior.
Desvalido. Nada possui, nada sabe.
O trabalho dividido, fragmentado - saber e fazer, e um fazer cada vez mais parcializado - separa o homem do produto de sua ação e a mercadoria torna-se fetiche.
O homen coisificado, realiza; mas se vê desapropriado do seu fazer.
Realiza, porém, já não sabe que tem em si a potência do saber, saber transformador, saber oriundo da intimidade que se dá entre ele e a vida no próprio processo de trabalho.
E ele, o agente da vida, vê-se despossuído, sem saber; o não-saber que submisso idolatra o saber da mercadoria e o saber que através da divisão social do trabalho, também se fez mercadoria.
Alienado, vê o império do saber...
E a ele se submete. Desumaniza-se, porque, então, teme criar, inventar; conceber, transmutar...

                                  3 A desmistificação do não-saber: um efeito instituinte

'' Sinhô dotô, meu ofiço
É servi ao meu patrão.
Eu não sei faze comiço,
Nem discuço, nem sermão;
Nem sei as letras onde mora,
Mas porém, eu quero agora
Dizê, com sua licença,
Uma coisa bem singela,
Que a gente pra dizê ela
Não precisa de sabença.

Iscute o que eu tô dizendo,
Seu dotô, seu coroné:
De fome tão padecendo,
Meus fio e minha muié.
Sem briga, questão nem guerra
Meça desta grande terra
Umas tarefa pra eu!...
Tenha pena do agregado
Não me deixe deserdado
Daquilo que Deus me deu.''
A terra é naturá /Patativa do Assaré

O saber instituido, saber-verdade, relaciona-se com a vida gestando imanente às relações do saber um poder.
O saber e não-saber, assim cristalizam-se. Tornam-se entidades molares, sustentadas pela segmentaridade rígida, circular, das corporações, do mundo dos experts.
O saber apropria, então, da capacidade de analisar e de gerenciar os processos da existência.
Impõe-se e desta verticalidade formata sob sua lógica uma aparente inevitabilidade de que os encontros e os coletivos funcionem cerceados e dependentes de ações e intervenções heteroanalíticas e heterogestivas.
Relações territorializadas e imersas na superfície de registro e controle que acabam por condicionar um predomínio no campo do saber de uma produção mantenedora do status quo, produção de reprodução e produção de antiprodução.
Nota-se o vínculo do saber com o instituído e o organizado, terror ante o novo, quando ao observar as suas relações com o não-saber e outros saberes minoritários, constatamos que estas se dão polarizadas pelo polo paranóico.
O saber, nesta compreensão, torna-se um benefício e um obstáculo.
Beneficia a vida com seus produtos.
Mas obstaculiza o novo, o diferente... a utopia... Já que se mantém subsumido pela realidade tal qual esta se revela e impõe. Sendo, portanto, quase sempre um instrumento-função dos mecanismos de dominação, exploração e mistificação da sociedade.
Os proprietários do saber, subjetivados no lugar seguro do espaço estriado, dificilmente se desterritorializam e desterritorializam este universo de referência, esta relação de poder e dominação.
Eles são... São experts...
Nada veêm, escutam, ou sentem; além ou aquém do que o seu estatuto de especialista prescreve.
Já os historicamente despossuídos do saber, o não-saber, podem em determinadas circunstãncias se desterritorializarem e desterritorializarem esta unidade-função saber-não-saber proscritiva do novo, e, assim, dispararem um funcionamento aonde não mais existindo saber-não-saber, mais sim saberes diferentes transversalizem os encontros e os coletivos que, então, passam a criativamente vivenciarem numa polarização esquizo, processos autogestivos e autoanalíticos.
O não-saber conformado pela segmentaridade rígida da especialidade, pelo poder da verdade-saber do cientificismo, gesta subjetividades assujeitadas que tendem passivamente a reproduzirem o instituído.
Em algumas circunstãncias, contudo, são elas potencialmente sensíveis à ruptura com as normas, regras, valores do existir hegemônico.
Guattari - no Caosmose - diz que a loucura, a arte, a infância e a paixão são situações fecundas; aberturas ao virtual, ao diferente, ao novo. À realteridade segundo conceito desenvolvido por Gregório F. Baremblitt: é a instância do virtual, do novo, no inusitado, dos processos criativos - caósmicos, imanente a realidade, que é no cotidiano negada, suprimida, cerceada e não - percebida.
A miséria, a dor, a desvalia parecem ser situações próximas das chamadas: situações caósmicas de produção do diferente e novo a partir do caos, dos furos e fissuras da ordem.
Entretanto, estas situações por si mesmas não se realizam na sua potência disruptivas.
São situações-limite, potencialmente disruptiva que se agenciadas, articuladas num dispositivo de mudança opera lugar e funcionalidade para a produção de novos saberes, pela interlocução transversal de saberes diferentes.
Desmistifica-se, assim, o saber num ato de torná-lo apenas mais um saber, outrora único e absoluto.
Desmistifica-se, também, o não-saber num ato libertário de resgate do saber oriundo das experiências vitais, o saber do que pode o corpo, os coletivos... e do saber que esconde e revela as entranhas das nossas histórias.

                                            4.Novos Saberes. Do bom-senso ao parasenso

''Mas porém, eu não invejo
O grande tesôro seu,
Os livros do seu colejo,
Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta
E fazê rima compreta,
Não precisa professô;
Basta vê no mês de maio
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô.''
Cante lá, que eu canto cá/Patativa do Assaré.

O desmonte do não-saber é de fato um efeito instituinte. Produto e produtor...
Sem ele, não há autogestão, nem autoanálise. E os processos autogestivos e autoanalíticos no seu desenvolvimento provocam o desmonte do não-saber e libera a capacidade de fabricar saberes, novos saberes.
No dia-a-dia, o senso comun é desclassificado. Pede-se bom senso...
Todavia, classifica-se o bom senso pela sua sintonia com o saber científico.
Monopoliza-se a verdade. Uniformiza-se as opiniões.
Hierarquiza... Tem-se bom senso quem segue os trilhos do saber maior.
Tudo ciência...
E a ciência tudo explica.
Dela, a norma. O bom senso...
Idolatra-se o bom senso. Ainda que cinzento, utilitarista, excludente.
Ele amordaça o diferente. Os saberes menores...
Serve a ordem, ao real do previsto e prescrito.
Exclui o virtual, o novo, a mudança. A utopia ativa.
Fabrica cópias. Robôs... Robôs práticos e pensantes.
Nega a potência do diferente, da multiplicidade; o singular...
Construir pelo surgimento do novo é transversalizar os encontros numa constante liberação. Liberação de algo...
Libera-se o pensar no pensamento, o pensamento da representação. A diferença da identidade.
E libera-se do bom senso um parasenso.
No paradoxo dos encontros, novos saberes. Saberes que emergem como fulgurações de uma vida implicando '' fiapos de centelhas que saltam de um lance de produtividade a outro.''
Pode-se, assim, construir saberes. Novos saberes, que é a própria vida de pura imanência - liberta - e concretizada pela máquina de saberes diferentes, não mais hierarquizados, que então, rompe o silêncio, a passividade e a ignorância e se torna consistente e fecunda nos dispositivos/agenciamentos autoanalíticos.
Neles, um novo modo de viver... Autonomia.
Também, um novo lugar para os experts - peças articuladas a outras peças onde saberes diversos, diferentes se imbricam num processo de afirmação da vida, de um novo paradigma, o paradigma ético- estético.

                                 5.Conclusão: O que pode o corpo?... Pode saber?

Desmistificando o não-saber, vemos emergir um processo transformador das relações do homem e dos coletivos com as verdades necessárias para clarear, modificar e transmutar às suas inserções no mundo.
Antes, e ainda quase sempre, tão- somente o especialista detinha o saber:

'' Quando aparece um sujeito,
De gravata e paletó,
Todo alegre e satisfeito,
Como quem caça um xodó,
O matuto experiente
Repara pra sua gente,
E, sem tê medo de errá,
Diz, com um certo desgosto:
Ele vem cobrá imposto
Ou pedi pra nóis votá. ''
Vida Sertaneja/Patativa do Assaré.

O não- saber era e é puro silêncio.
Ou, apenas práticas marginais.
Deste modo, institui-se e reproduz um jeito de compreender e gerir a vida, baseado em relações verticais de dominação e poder.
Só a ciência pode...
Ao se desmistificar o não-saber e liberar o homem da sua submissão à lógica do bom senso, senso científico, libera a produção de um parasenso. Novos saberes...
Novos saberes - força instituinte...
Descortina-se a vida e a vida revela o que pode o corpo, um corpo que pode saber nos afectos e percepctos que o mobiliza e que ele produz.
O corpo pode saber...
A escola, o livro, o tubo de ensaio, também; porém, não só eles sabem.
Autoanálise e autogestão - assim, depende da capacidade de se transversalizar saberes diferentes, desmistificar o não saber e liberar o corpo na sua potência de vida que é literalmente, uma sapiência visceral.

'' Mas a grande humanidade
Que de tudo qué sabê,
Nunca adivinha a verdade
Do que vai acontecê.
E tem bichinho servage
Que, com a sua linguage
E a musga da sua voz,
Conta tudo certo e exato
Apois tem bicho no mato
Que sabe mais do que nóis ''
A Festa da Maricota/Patativa do Assaré.

                                Referências Bibliográficas

'' Porém, se na eternidade
A gente tem liberdade
De também sentir saudade,
Será grande a minha dor,
Por saber que, nesta vida,
Minha viola querida
Há de passar constrangida
Às mãos de outro cantador. ''
Minha Viola/Patativa do Assaré.

1 Aliez. E (org). Gilez Deleuze: uma vida filosófica. RJ, Ed. 34, 2000
1 . Assaré,Pativa do. Cante lá que eu canto cá. Petrópolis, Vozes, 2000
1 Baremblitt, G. Compêndio de Análise Institucional. RJ, Rosa dos tempos, 1994
1 Baremblitt, G. Introdução á Esquizoanálise. BH, Inst. Félix Guattari, 200
1 Baremblitt, G. Saber, Poder, Quehacer Y Desejo. Buenos Aires, Nueva Vision1988
1 Foucault, M. Microfísica do poder. RJ, Graal, 1990.
1 Freire, P. Pedagogia do Oprimido. RJ, Paz e Terra, 19
1 Touraine, A. Critica da modernidade. Petrópolis, Vozes, 1994
1 Vázquez, AS. Filosofia da Praxis. RJ, Paz e Terra, 1977
1 Vásquez, AS. Entre a realidade e a utopia. RJ, Civilização Brasileira, 2001

                                                                                                         

Esquizodrama do devir, da fragilidade às potências...

ESQUIZODRAMA DO DEVIR : DEVINDO-SE NOVO E POTENTE DE NOSSAS PRÓPRIAS FRAGILIDADES


jorge bichuetti

maria de fátima oliveira



indrodução breve: O devir se dá favorecido por alisamentos de espaços que segundo guattarri em caosmose são a loucura, a arte, a criança, a paixão e as situações de crise.

Deleuze acrescenta a enfermidade como situação caosmótica.

Negri o interpreta dizendo que é a velhice.

Este é um esquizodrama que pergunta: qual é a potências das nossas fragilidades?



                                            Esquizodrama:

Aquecimento: exercíos de alongamento e de bioenérgética, hiperventilação com danças tribais que são intensificada ( com sons guturais e retiradas de funções corporais ) até o cansaço máximo.

Movimento 1: - identificação do ponto/parte do corpo mais frágil;
                      - formação de grupos;
                       - breve dálogo sobre o frágil.

Movimento 2: - montagem de máquinas de guerra não bélicas, através das conexões entre as partes frágeis;
                      - uma performace da máquina montada...

Movimento 3: - criação de atos potentes pelas máquinas montadoas:
                       • como máquina de amar,
                       • como máquina de cuidar
                       • como máquina de lutar
                       • como máquinas de viver, alegremente...

Movimento 4: - conexões das máquinas, uma rede de máquina;
                      - criação de uma dança coletiva, de uma canção ou som melodioso, e exploração do espaço com alegria, suavidade e bravura...

Movimento 5: - todos retornam ao círculo, e procuram identificar uma potência que desconheciam em si,
                      - se fazem pequenas perfiormaces individuais do que desejam levar para a vida destas potências ouvidas ou desconhecidas, ou ainda não atiualizadas...

Encerramento: -Celebração coletiva com samba-enredo da vida e da alegria...
                        - trocas e conclusões...

DIÁRIO DE BORDO: O QUE É UMA CLÍNICA AMPLIADA NA SUA RADICALIDADE?

DIÁRIO DE BORDO : A MÃE TERRA

                                                     jorge bichuetti





Madrugada. A Lua dorme tranqüila e nem sente ciúmes da estrela da manhã que resistindo no céu, de lá, me espia com raios enamorados...
Silêncio... Busco uma palavra... Algo que me acordo e faça do meu dia uma aventura nova... Busco o homem : este bicho de labuta e sonhos...
Não fui... no futebol, na hora do gol estava impedido.
Não fui... escritor, as folhas transportaram na lixeira.
Não fui... político, as disputas diárias nublavam os ideais.
Continuei, sonhador e terapeuta.
Luto, resisto, sonho...
Quero Direitos Humanos, e me assusto com o Congresso Nacional que teima burocrático e conservador e ameaça a aprovação do estatuto-vida elaborado pelo governo.
Quero a vida ... e a quero abundante.
Entretanto, um tucano faminto aparece no meu quintal, dizendo-me do desmatamento, da monocultura, dos agrotóxicos, perda do seu lar.
Enchentes, terremotos, tsunamis...
Nossa mãe terra chora...
Quero a fé do meu povo nos seu passado místico e gritar, entre a fé de uma oração e a digna raiva: Vinga-nos, Pachamama... Nos salvem, Mãe Terra...
Na rua, o caos... Um jovem emagrecido e trêmulo aspira a morte numa pedra, é o Crack, para ele que não pode ser craque.
Na casa oculta do bairro, uma mulher espancada e nas suas feridas sangram um povo que permite suas filhas vítimas da opressão do macho inseguro e cruel, do machismo que uma expressão, do ponto de vista psicológico, entre o fascismo e o homossexualismo enrustido.
No asilo, um velho, terno e sábio, agoniza de solidão.
Nos presídios, a violência institucionalizada.
Em todo canto, a fome.
Quero a vida ... e a quero abundante.
Contudo, me rodeia as forças da morte inútil, arbitrária e injusta.
Um sem-teto dormindo na calçada fria, agasalhado por um jornal velho.
Um gay espancado; um negro discriminado...
Que fazer? O que pode um terapeuta?
O terapeuta é o ser da escuta... Escuta as dores, angústias, frustrações...
Acumula um conhecimento, uma foto: o mundo e suas mazelas.
A Mãe Terra intervém e roga: dêem a vida o direito de viver!
Indignemos... e com ousadia e coragem, busquemos no Livro As tres ecologias de Guattari, um caminho.
Urge intervir... Buscar na ação e na luta, a harmonia criativa entre o homem e a natureza, entre o homem e o socius e entre o homem e sua própria subjetividade e as subjetivvidades dos diferentes.
O divã, agora, é o mundo...
E um mundo que nos fala, com lágrimas e sangue: um outro mundo é possível e necessário.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

POESIAS : ECOS DA VIDA...

                                                                 Mãe

                                                                      
                  jorge bichuetti

Nenhum bem há,
nenhum tesouro existe...
Maior é colo de mãe
onde
se descansam os aflitos.
e, nele, o homem
sonha,
voa livre
e sorri;
podendo saber chorar
o seu pranto de menino.

 
                                                        ************
 
Nuvens

                                                                                      jorge bichuetti




                                                              
                                                               Céu cinzento. Nuvens...
Trovões, chuva...
No alto, a vida ensimesmada.

Quem dera pudesse
navegar
nas nuvens
e encontrar,
na escuridão de uma tempestade,
uma estrela escondida
desejando vir morar
nas nuvens
dos meus desencantos ...

**********

Brasil

                                                                                        jorge bichuetti


Pau-de-arara. Choque elétrico.
Um povo sem palavras...
Um jovem morto na prisão...

Anistia. Cara-pintadas...
Jogos de solidariedade...
Um país em reconstrução...

A história alerta, vigia
e, num coro de anjos,
incansável, grita:
- Tortura, nunca mais!...

         **********
PELA APROVAÇÃO DO PROGRMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS - 3!...

LIBERDADE, LIBERDADE...
ABRE AS ASAS SOBRE NÓS...

ONDE MORA A LIBERDADE?...



                                                     ROTINA E EXPONTANEIDADE

                                                                                             Jorge Bichuetti

O dia-a-dia corre e nele nos vemos absorvido por uma rotina repetitiva e insípida.
Todo dia, tudo igual...
Sob controle, passamos o tempo.
Trabalhamos, relacionamos... Enfim, vivemos.
E sobreviventes descobrimos o homem subtraído da sua própria humanidade.
O homem se destaca pela sua capacidade de intervir, criativamente. Ser da história, ele constrói destinos, desbrava horizontes, re-faz o mundo.
O mundo segue... Agora, com a vida globalizada tornou-se um império sem fronteiras.
Diluíram as fronteiras. O espaço se reorganizou e caíram os muros. Porém, hipertrofiaram os mecanismos psicológicos e sociais de vigilância e controle.
Todavia, a violência alastrou-se e a contravenção institucionalizou-se. A corrupção generalizada é a “ética” do novo modo de ser das relações sociais degeneradas.
O preconceito camuflado revitaliza no socius o ideal nazista. E este se evidencia no moderno modo de excluir: a inclusão diferencial.
Existe espaço para todos. Espaço desigual. Possibilidades pré-definidas.
... E, assim, vamos. Seguindo vamos desapercebidos da triste realidade que nos limita. Excluídos, nem percebemos. Vemos o mundo e nos vemos integrados.
Cremos nas regras sociais, embora quando analisamos os limites da nossa rotina diagnosticamos a triste condição do homem: a morte civil.
Os atestados de óbito não assinalam, todavia padecemos de uma gradativa e cruel morte, a morte da nossa potência de cidadão.
O homem precisa, deste modo, ser resgatado. Reabilitado...
Necessitamos re-aprender a viver e conviver criativamente.
Observando a vida, a sociedade de controle, igualmente detectamos o teor revolucionário da expontaneidade.
Ser expontâneo é ser rompendo os limites do controle. É ser na liberdade do resgate do humano.
Perdemos nossa espontaneidade. Somos pré-fabricados pelas expectativas do socius internalizado.
O mundo nos fez prisioneiros e aceitamos a prisão.
Até que um dia, de pânico ou depressão, de tédio ou loucura, descobrimos o valor de ser livre, criativo e pleno.
Isto é, um dia desejamos ser... Ser humano, ainda que para isto tenhamos contra nós o mundo.

MESTRES DO CAMINHO : JUVENAL ARDUINI

O MONSENHOR DOS DIREITOS HUMANOS

Juvenal Arduini, um guerreiro... Lutador incansável, sempre tem estado numa caminhada de vida, onde o sonho de liberdade e dignidade, justiça social e solidariedade o torna de forma inquestionável o Monsenhor dos Direitos Humanos.
Escritor primoroso, intelectual brilhante...
Sua obra: Estradeiro, Homem-Libertação, O marxismo, Destinação Antropológica, Horizonte de Esperança, Ousar e Ética Responsável e Criativa...
Suas lições – um legado que necessita ser estudado e vivido.
Aqui, selecionamos algumas preciosidades que sendo verdadeiros faróis, podem nos ajudar a viver com maior alteridade e, igualmente, podem nos ajudar a transformar o mundo e a vida.






                                                          
                                                                


                                                             
“ O homem é capaz de partir e de chegar. Mas, o que o define mesmo é a estrada. Mais do que ser de chegada e de partida, o homem é um ser da estrada. É um eterno caminhante. É um peregrino obstinado. É um estradeiro infatigável. Não resiste ao apelo do horizonte. misterioso que lhe pede novos passos.” Estradeiro, p. 157

“ Ser homem não é somente mostrar uma realidade já existente,mas converter-se em nova realidade.” Estradeiro, p. 169

“ ... há pessoas-diálogos e há multidões-monólogos.” Estradeiro, p. 191

“ A presença do outro pode até ser infernal. Mas, a ausência do outro é mais que infernal. É o inferno.” Estradeiro, p. 194

“ Queremos que o amor se responsabilize pela nossa vida, mas não pensamos em responsabilizar-nos pela vida do amor. Desejamos que o amor nos resolva os problemas, mas não nos dispomos a remover os obstáculos que lhe atrapalham os passos. Esperamos que o amor nos faça crescer, mas pouco fazemos para ele cresça. Exigimos muito do amor, mas pouco ou quase nada lhe oferecemos.Tornamos o amor responsável pelo nosso destino, mais falta-nos a coragem de assumir o destino do amor.” Estradeiro, p.201

“ A solidão habitada é o espaço onde se celebra o encontro do mundo.” Estradeiro, p. 64

“ O homem é ser capaz de refazer-se.” Estradeiro, p.70

“ O sujeito da criatividade é o ser humano, e não o tempo...
Nossa gente reclama DiáKrisis ( decisão criativa ). Exige decisão corajosa e iniciativa criadora para gerarmos outra história, outra vida, outra esperança. Este é o apelo fascinante que deciframos nos rosto padecido de nosso povo injustiçado, mas ainda não desesperado.” Ousar, p. 13

“ A coragem é ativante. Leva a agir com a alma e o coração, com obstinação e com risco. A coragem tem espírito de vanguarda. Não se amoita na retaguarda.” Ousar, p. 44

“ O homem é liberdade criadora...
No nosso mundo de hoje deveríamos ser humanidade emancipada. Humanidade que se autodefine e se autoconduz. Todo ser humano deveria ter condições de pensar, decidir e agir com autonomia. Cada personalidade teria de ser existência emersa, e não submersa, voz emancipada, e não soterrada. Cada ser humano deveria ser carvalho resoluto, e não folha flutuante. Cada consciência deveria ser foco de resistência lúcida, e não fagulha apagadiça.” Ousar, p. 71

“ A revolta justa inclui paz sólida...
A rebelião do amor emancipa a humanidade humilhada.” Ousar, p. 74

“ A solidariedade aglutina consciências, vozes, braços, criatividade, ousadia, e obstinação, para concretizar o projeto da nova humanidade co-responsável. É tempo de tecer a rede de solidariedade mundializada. E acender focos de conspiração solidária por todos os recantos do universo.” Ousar, p. 114

“ A sexualidade tem afinidade com a alegria. Nela, não deveria haver amargura e remorso.” Ousar, p. 125

“ A humanidade não pode capitular e submeter-se a um sistema desumanizante... O grande compromisso é globalizar a dignidade.” Ousar, p. 153

“ Há muito que desterritorializar. Há que alijar a mentalidade submissa. Há que emergir. E aventurar-se. E dizer a primeira palavra. E arriscar o primeiro passo. E fazer o primeiro salto. Há que peregrinar infatigavelmente. E estalar estruturas. E originar nova humanidade.Lançar sementes mais adiante. Irrigar chão seco. Recolher colheita farta. Nutrir desnutridos. E festejar a vida. Há que ser nômade seduzido por novos horizontes.” Ousar, p. 171