sexta-feira, 10 de junho de 2011

CINCO NOTAS SOBRE A DEPRESSÃO

                                             Jorge Bichuetti

Não se pode negar que vivemos tempos tristes... e que a depressão é epidêmica; avoluma-se, mutila e gera desencanto, desânimo e perda da potência de viver e ser feliz.
Aqui, abordaremos cinco apontamentos sobre a depressão... num tentativa de refletir no caminho da produção inventiva da vida e da alegria.
Nota 1. Depressão é a humanidade negada na intimidade de uma existência.
Nos deprimimos retirando de circulação as forças vitalizantes e energizantes da vida. Negamos e tememos nossa realidade íntima: nossa raiva, nossa agressividade, nossa desamor. Ela é culpa que corrói as entranhas de uma vida. Culpa imaginária. Culpa pela ambiguidade que emerge nas nossas perdas diárias.
A vida é paradoxal; não é uma linha reta... tem curvas, altos e baixos; amor e ódio.
A indiferença é a antítese do amor; o ódio por mais que nos assuste compõe a experiência amorosa.
Ele é a voracidade do amor no impulsivo negar da ausência psíquica ou física do outro.
Quando aceitamos que a não-violência e a contenção do ódio é esforço ético, e não expontaneidade pulsional da vida; não nos deprimimos porque já não tememos nossa força guerreira que é obstruída na depressão.
Amar é gerenciar, com suavidade e ternura, a cólera e a irritação, a raiva e o ódio; inclusive, os que expressam em atos.
Viver é aceitar-se humanidade peregrina no caminho do auto-crescimento...
Nota 2. Depressão é o medo da ponte, passagem-travessia.
Diante do novo e da mudança; da dificuldade e dos abismos que pedem um salto... o medo nos invade e se ele nos domina quedamos paralisados na fronteira entre o precipício e a ponte que se transitada nos levará para os territórios da vida remoçada, reinventada onde pululam novas vivências e novas alegrias.
A depressão é um estágio da vida, vida estagnada diante dos chamados do horizonte que a quer vida nova.
Estagnados, nos impregnamos com os vapores anestesiantes e nevoentos que sobem do fundo do abismo.
A vida perde cor e sentido... pois onde estamos já não encontramos energia, razão e motivação para existir...  a depressão é um estar no muro entre o abismo, que é a negação da nossa capacidade de dar sentido e alegria, e o outro lado, onde podemos nos reinventar e novamente sentir a pele arrepiando-se com os movimentos da existência...
Nota 3. Depressão é a chibatada da tristeza negada.
Na vida estamos submetidos a uma imperceptível ditadura... A ditadura da felicidade, da beleza, da vitória e do poder. Esta ditadura nega o humano demasiado humano da vida que se dá entre as expansões bailarinas da alegria e o recolhimento meditativo da tristeza. A vida é também feita de momentos tristes, de quedas, de perdas , de equívocos... Não aceitando a tristeza, não a  gerenciamos... mergulhamos nela com sentimento de falência e falidos nos deprimimos. A tristeza é um tempo entre uma paixão alegre e a acumulação de potência-força para buscar, caçar, inventar uma nova paixão alegre.
O mundo rejeita a lágrima...
O mundo exclui os tristes...
O mesmo fazemos internamente... e não aceitando este momento que passará, mergulhamos enfraquecidos nos redemoinhos da depressão.
Nota 4. Depressão é a alegria não inventada.
Cada singularidade precisa inventar a sua alegria; seu modo de desfrutar do tempo e da vida.
Preguiçosos e acomodados, esperamos a alegria como um regalo da vida; é ela não vem... a alegria é invenção, produção... a alegria é a descoberta íntima da que nos possibilidade sorrir, bailar, voar, amar, sonhar e brilhar.
se não encantamos nossas vidas, elas se vêem presas fáceis das bruxarias da depressão.
Nota 5. Depressão é asfixia.
Vivemos num mundo deprimente...
Deprimente porque coloca junto das tormentas de lágrimas da multidão...
Deprimente porque é excludente e estrangulador de vidas...
Deprimente porque é cinzento, sisudo, opressor...
E deprimente porque quer deprimidos... para que não acordemos o grito indignado por uma nova vida.
O sistema não deseja que superemos nossas depressões; nos quer acomodados , apáticos e submissos...
Nos deseja desenergizados, desvitalizados... por isso reforça na capilaridade normativa da vida uma vida sem sonhos, sem arte, sem magia, sem paixão, sem poesia...
O mundo silencia o guerreiro e a estrela bailarino que somos...
Asfixiados, nos deprimimos...
Todavia, se ousamos ver o novo e a mudança, a vida de intensidade e solidariedade, combatemos... combatemos o mundo de exclusão e incluímos na nossa a intensidade da vida de humanidade que é a lágrima , mas também é a poesia do amanhã e magia dos voos libertários e rebeldes que se vividos no hoje excomunga do nosso  caminho as trapaças da depressão.

10 comentários:

Rosi Alves... disse...

Bom dia querido...emudeci diante desse texto.linda sexta feira!

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Rosi, querida, veja como na realidade a vida devia ser caminhos pra alegria... abraços com ternura; jorge

Loubah Sofia disse...

Bom dia Meu Amigo querido.
Que leitura preciosa...
Não imaginas o quanto tuas palavras, ilumina meu espírito.
Vir aquí é como fazer um retiro espiritual, a qual lições nos são aplicadas com imensa ternura, a qual voltamos para o lar, mais firmes e renovados.
A depressão é uma praga que impesta a humanidade e por incrível que pareça os animais estão afectando-se também, mas um dia algures isso há de mudar, tal qual o efeito borboleta, começa-se com um pequeno movimento e voillá! começa o milagre!

Um carinhoso abraço e grata sempre,sempre por partilhar a beleza da Tua alma conosco.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Loubah: querida amiga, escrever com o pensamento nos amigos e trabalho que floresce no entre... somos os que sonham e se angustiam... naõ fugimos: sonhamos com o nvo, amor vida poesia; e nos angustiamos com a dor que apunhala o coração da vida.
Obrigado pelo carinhoe pela amizade; seguiremos sob fluxos do luar e do cantar dos passarrinhos; abraços ternos. Jorge Bichuetti

Claudia Licursi Stacciarini disse...

Adorei! informativo e poético. Parabéns.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Claudia: seja sempre presente; pois a razão de escrever é o desejo de partilhar.
Obrigado pelo carinho;
abraços ternos, jorge

Concha Rousia disse...

Que bom entender assim a depressão, no contexto da vida e não como um rótulo um diagnóstico que nós patologiza diminuindo nosso potencial curativo... Este texto teu é desses que eu imprimo para ler com calma, obrigada por tuas valiosas partilhas... E sim, vivemos tempos tristes, é difícil não ter razoes para nos deprimirmos, mas também sempre temos razoes para a alegria e a vida... Eu tenho muito presente sempre a Viktor Frankl e como ele vivia num campo nazi era judeu, perdeu manuscritos valiosos, e ele acho sempre sentido à vida, e ajudou a toda a gente à sua volta... Tu também ajudas a muito gente meu amigo, celebro a tua existência, abraços com carinho e alegria, Concha

Deixo-te com este pensamento de Frakl:
"Se não está nas tuas mãos mudar uma situação que te produze dor, sempre poderás escolhes a atitude com que afrontes esse sofrimento"

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

concha, a doença é a codificação desumanizate que nega que o que temos: são modos de andar a vida...
A alegria é possível entre lágrimas... O porvir é tecido na fronteira entre o abismoe o alvorecer inusitado do devir..
Que belo ViKtor^a generosidade é a força do guerreiro...
Abraços a ti a compostela e aos poetas e aos jovens guerreiros ViKtores da pós-modernidade.
Abraços com carinho; jorge

Maria Eugênia Maluf disse...

Olá meu amigo Jorge,que maravilha voce desnudar a sua potencia, sentimentos,pensamentos e explicação sobre o assunto depressão.Quero estudá-lo com muito carinho...
Como sempre arrasouuu!!!....
Abraço Carinhoso,
Maria Eugênia

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

maria Eugênia: seu carinho me alimenta e sua inteligência me oinspira a estudar maise mais... abraços ternos, jorge