segunda-feira, 13 de junho de 2011

DEPENDÊNCIA QUÍMICA: CRIMINALIDADE OU CRISE DA VIDA QUE NOS PEDE ACOLHIMENTO, CUIDADO E REINVENÇÃO DO COTIDIANO...

                                                Jorge Bichuetti

A dor humana é pulsação da vida; e a dependência química é dor humana... Não é crime, é lágrima que pede cuidado, acolhimento e vida reinventada.
O mundo tende a excluir o que lhe parece difícil... Excluímos, para depois reconhecer que a exclusão agravou, cronificou, dilacerou vidas... Do orfanato ao hospício, do leprosário aos asilos... as instituições totais excluem da vida social o que questiona os limites do capitalismo e da própria ciência.
Projetamos no outro na nossa incapacidade, a nossa limitação, a nossa meiocridaded social e científica.
As drogas sempre foram usadas pela humanidade... E as usamos no cotidiano. De fato, são experimentações vitais e amplificadores do estado de consciência, como afirmam, respectivamente, Deleuze e Rotelli.
a criminalização só gera o agravando da dor que não é inerente ao uso, mas aos problemas sociais e de saúde da dependência.
Repressão, criminalização, segregação não são atos de cuidado nem de políticas de inclusão social. São punições; violência legalizada, contudo, violência arbitrária que fere os direitos humanos e fere a ética do cuidado.
Muitos dirão que se trata de prevenção...
Dirão, porém, dizem uma mentira... Primeiro, nos países aonde se conseguiu a descriminalazão e direito ao cultivo não se teve um surto epidêmco de dependência química; segundo, a proibição é contrária  a própria compreensão que se tem do desenvolvimento psíquico que percebe o amadurecimento se dando numa luta de rebeldia com o instituído. Vide Totem e Tabu de Freud...
Não minimizo as dificuldades da clínica da dependência química...
Dificuldades nossas de cuidadores que os queremos sóbrios numa vida cinzenta, sem alegria, de total desvalia...
Não se trabalha Reabilitação Psicossocial decretando a morte civil do outro.
Afirma Rotelli que os serviços de cuidado necessitam ser mais sedutores do que o universo da repetição compulsiva, da dependência.
Frei Beto diz que ninguém suporta anormalidade e que assim a superação da dependência química envolve a reinvenção da vida e do mundo: uma causa, uma paixão, um mundo de alegria e bons encontros...
Existem questões que precisam se r clareadas para todos:
- não é verdade que seja impossível um uso não-compulsivo;
- não verdade que uma droga leva à outra;
- não verdade que não seja dramático e perigoso o buraco negro da repetição compulsiva...
A repetição compulsiva, a dependência, grave e dramática, é problema clínico; e não policial...
Há que reinventar os modos de cuidar... Há que se mudar os paradigmas dos trabalhos de educação popular...
Problema coletivo; não crime do usuário...
Os usuários cometem delitos; que respondam pelos delitos... e não pela sua singularidade, pelo auto-governo de suas vidas, nem pela pobreza dos trabalhos clínicos.
Seria o mesmo criminalizar o sexo, quando não se tinha ainda muito domínio sobre a clínica da Aids...
Quem cria a rede mundial do tráfico não é o usurário... é a economia informal, a conivência e integração entre os que normatizam a vida económica e os grandes capitalistas do tráfico...
Busquemos pensar a vida norteando nossa dignidade pela ética dos calores fundamentais da vida: o amor, a liberdade, a solidariedade, o direito à diferença e os direitos humanos...
Viver é perigoso... Nem por isso vamos criminalizar a vida.

4 comentários:

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

Bom dia meu amigo ... belo e lucido texto , e ai vai uma pequena contribuição
Abraços

DEPENDÊNCIA QUÍMICA- MAIS AINDA

A FAMÍLIA NO CONTEXTO DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA

O papel da Família é um fator fundamental tanto na dependência como em seu tratamento.
O processo terapêutico familiar se destina às pessoas emocionalmente envolvidas com os problemas decorrentes do uso, abuso e dependência do álcool e de outras drogas e suas implicações na estrutura sócio-familiar.
A terapia familiar é importante tanto na intervenção como recuperação do dependente químico. Os membros da família se constituem em "vítimas primárias" da dependência, além é claro, do próprio dependente. Vitimização, super-proteção, culpa, raiva, mágoa, auto-piedade, privações e desespero são sintomas observados em familiares dos dependentes que estão na ativa ou que estão iniciando um tratamento.
Tem-se observado que os familiares possuem pouco ou quase nenhum conhecimento sobre drogas, álcool e suas implicações para compreender a necessidade da participação no processo terapêutico e poder lidar satisfatoriamente com o problema.
Preconceitos e sofrimentos acumulados pelos familiares interferem no processo terapêutico. A família necessita discutir seus pontos de vista, melhorar a qualidade das relações e organizar-se estruturalmente, de maneira a auxiliar na recuperação de toda a família
A problemática das terapias familiares com dependentes químicos tem um caráter muito complexo e deve-se compreender que as famílias estão sofrendo uma condição danosa ao próprio bem-estar físico e emocional e outras perdas.
O Processo terapêutico objetiva expor OS JOGOS que podem estar encobrindo o cerne da questão e auxiliar as famílias no processo de intervenção , buscando lidar com as atitudes de resistência , descartando discussões infrutíferas sobre conceitos certos ou errados, culpa ou inocência.
A meta é estimular a comunicação entre os membros e promover o reconhecimento do papel de cada um , bem como demonstrar como o envolvimento dos familiares no processo beneficia o desfecho terapêutico

Tomando consciência
Parece-nos que a única maneira de modificar o sistema familiar adoecido, quando a coisa toda se torna insuportável, é ajudando as pessoas envolvidas a entender o sistema e ver seus papéis nele, ajudá-los a ver sua própria dependência ao dependente.
É só com essa compreensão, que cada membro da família pode se responsabilizar pela sua parte no sistema.
A práxis é no sentido de fazer todo o esforço possível para respeitar a situação da família – entende-la e reassegurá-la de que é totalmente possível. Nós , terapeutas, tentamos sentir quão importante as relações dependentes são para a família e respeitá-la verdadeiramente , olhá-la sem julgá-la, apreciá-la. Aí, juntos, tentamos examinar as relações e tentamos ajudar a família a encontrar o seu próprio caminho.
As famílias precisam lidar com a negação, com a ilusão de controle; lidar com mal-entendidos, defesas mal-estruturadas, estigmas e desconhecimento em relação às diversas dimensões do problema da dependência de substâncias psicoativas.

Paulo Francisco disse...

Muito boa sua colocação. Adorei.
Texto leve e ao mesmo tempo uma porrada na cara da gente.
Um abraço grande.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

adilson: como sempre nos enriquecemos com suas colaborações... Me parece que cuidar é montar novos vínculos entre todos e a vida.
Maravilhoso! abnraços com ternura; jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Paulo Francisco: vamos tematizandoe liberando os temas e as dores dos seus preconceitos para que possamos devir cuidado, cuidado-amor. Abraços com carinho, Jorge