sexta-feira, 17 de junho de 2011

A LIBERDADE E O DIREITO À SINGULARIDADE

                                               Jorge Bichuetti

O asilo e os hospícios não nasceram para cuidar... Originaram-se da necessidade da Reforma Urbana de limpar o tecido social dos que andarilhos do vento não queriam ser suprimidos pela normalidade que, então, se institucionalizava... O capitalismo, para expropriar e explorar a força de trabalho, necessitava de homens servis... então, recolheu mendigos, doentes, velhos, andarilhos ,loucos e os trancafiou entre muros, para que a vida corresse leve, tranquila e acovardada.
Os muros caíram... Porém, urge que se erga a luta pelo direito à singularidade.
Somos singulares...
A repressão é a força bruta que silencia a singularidade rebelada e insurgente. A repressão nega a vida; a vida é singularidade que caminha, dialoga, sonha e brilha...
A medicina , muitas vezes, serviu de capataz desta ordem, deste ordenamento... Classifica e dá o título de doente aos que não são o homem de normalidade, o homem servil e apático, o homem de améns...
A lei quando criminaliza modos de vida serve a esta mesma lógica.Não é a política do Bem comum que a guia; ela é dirigida pelo ideal de todos sejam rôbos, sem desejos e sonhos singulares.
A saúde mental cuida... de sofrimento mental; não cuida de modo de vida, modo de vida quando abordado é agenciado para que ganhe potência na alegria e na emergência de uma expressão criativa da singularidade.
Não existe, assim, cidadania, nem saúde mental, sem direito à singularidade.
A inclusão social é hoje um viés do trabalho da saúde mental.
Nossos sofrimentos cristalizam e nos levam à morte porque o mundo nega a eles uma possibilidade de existir entre, com, junto com a humanidade. Morre-se, assim, de exclusão, de segregação, de estigmatização...
Negar a própria singularidade é aviltar-se, fragilizar-se, desumanizar-se, vulnerabilizar-se... tornar-se presa indefesa num mundo de predadores cruéis.
Hoje, já se fala , inclusive, em cura da loucura: cuida-se e trabalha-se a reabilitação psicossocial para que ele, o dito louco, possa vivenciar sua singularidade de forma criativa, includente, com alegria, não-violência e arte.
É princípio da clínica antimanicomial que o que se busca com o tratamento é a emancipação, cidadania e solidariedade... Trabalha-se para que os ditos loucos caibam na sociedade.
Um novo olhar, um novo agir... A vida de inclusão - direitos humanos e direitos à diferença.
Lutamos e clinicamos por uma sociedade sem manicômios...
Lutamos e clinicamos por uma nova humanidade, por um povo por-vir...
Lutamos e clinicamos pela democracia real pela construção de um outro mundo possível.
Assim, que perceber que saúde mental é marcha de liberdade, recorda de Nise da Silveira,, pioneira da Reforma psiquiátrica, que querendo entender os delírios, dialogava, sem sucesso com um psicótico que olhava para o céu e dizia - barco, barco... Perseverante persistiu, ouvindo-o... E um dia, ele lhe disse: Ora, ora... Barcos entre estrelas...
Que os barcos entre as estrelas do infinito possa afetar poeticamente a humanidade, para ela compreenda que singularidade é pulsação da vida que anseia-se liberdade, novidade, mudança, devir...


                          MARCHA DA LIBERDADE
18 DE JUNHO - 14:00 - IGREJINHA DE SANTA RITA
                 LIBERDADE, LIBERDADE
               ABRE AS ASAS SOBRE NÓS

2 comentários:

Rosi Alves... disse...

Eu amei esse texto estou com uma amiga e não sei mais como ajuda-la ela não quer reagir dorme 2 dias diretos e fica acordado 2,não quer ir ao medico disse que não adianta nada perdeu tristemente os sonhos isso eu creio...as pessoas pensam que ela esta ótima mais só toma banho quando vai na rua e uma pessoa totalmente anti social só vai a rua raramente ela pede ajuda o marido e ele diz o que quer que eu faço se eu já pago seu plano e você não tem coragem nem de ir ao medico...Doutor não sei sinceramente o que fazer com ela,ela e tão boa pessoa um coração gigante mais ao longo dos anos só piora uma pessoa que trabalha e agora nem sai na rua engordou 25 quilos.ela esquece as coisas não se concentra esta na faculdade mais não consegue estudar mesmo sendo a distancia faz prova de três em três meses mesmo assim no dia da prova ela não vai.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Rosi, no CAPS - onde trabalho recebemos gente sofrida, assim, e elas reconstrem suas vidas - com traços singulares mas com convívio, auto-cuidado, alegrias... A medicação nestes casos, como o que você me citou é fundamental.
Abraços com carinho,
se você desejar mais informações terei imensa alegria de conversar; abraços, jorge