quinta-feira, 9 de junho de 2011

POESIA: O TEMPO PERDIDO

                                    VIDA NO SERTÃO
                                                           Jorge Bichuetti

Lua cheia. Vida no sertão...
Cavalgada viola
cachaça fogão-de-lenha:
um fantasma no porão;
no céu, u'a estrela cadente -
um sinal um feitiço uma sombra
na prosa
na roda
da vida
que escorre na chuva,
voa no vento, 
lentamente... Há sempre
os rodeios da paixão
o sereno da aurora
um vago caminhar
nas estradas nuas,
junto dos versos cantados
pela alegre passadara...

Sertão: dedilhado
na romaria 
dos pés descalços
das almas puras
dos que no horizonte
enxergam 
no por-do-sol
uma silenciosa e clemente ave
Maria...

Maria do do Sertão, Marias
das dores 
dos sonhos
da vida anônima
da agonia aguda
das preces piedosas
das folias vadias,
Marias no sertão: 
uma criança oferece uma flor
e, logo, a esquece nos folguedos do peão;
as mulheres se ajoelham e cantam
e seguem na labuta do sabão;
os homens tiram o chapéu
e a santificam com votos e promessas,
mas, de pressa, se voltam para o mundo
de gado, cartas e mulheres
que também são Marias,
Marias enraizadas  nos calvários
do Sertão...
do sertão que a todas ama
no florescer
das matas
que são capelas da natureza
onde a vida encontra o céu
na sementeira do amanhã...


                                         FESTEJOS
                                                        Jorge Bichuetti


Na fogueira, o pau
queimado encorpa
carvão de acender
as chamas da festa
que entrelaça vidas
numa louca dança
de passos incertos
e sussurros, pios,
toques espertos
do amor tão perto
quanto o luar
que agora já é
brilho na pele,
ardência e frescor,
do desejo - raio
o corpo da paixão...


Roda gira
no trovejar
dos pelos roçantes,
feito vento de agosto
que par o céu leva
as secas folhas, antes
folhas do chão...



                         HAIKAI
                                       minueto da roça

um terço de fé
roça o corpo da vida
na hora do trovão 


AINDA HOJE
Jorge Bichuetti

Indigente, imploro
um segunda; 
nenhuma hora...

Podes me dar
o que se rouba
no estalar  do beijo...
esperado
na imensidão
do tempo da saudade...


                                     ESTA FLOR
                                                        Jorge Bichuetti

Esta flor sem nome
na beira da estrada,
singela e bela,
guarda em si o encanto
das noites esquecidas
quando a lua brilhou só...


6 comentários:

Rosi Alves... disse...

Amei demais...

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Rosi, u'a tentativa de ver este universo interior-sertão-cerrado... a poesia no caminho das buscas interiores.
Abraços com carinho, jorge

Alzira Borges disse...

O sertão é um estado de tão ser cerrado! Adorei também o manifesto dos poetas vivos: "não olhar nunca para o outro lado"! Beijos

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Alzira; eles são belos na alma passarinheira... No sertão, só a amplidão do cerrado nos tira dos redemoinhos do tempo; ali , no horizonte... brilha o porvir.
Abraços com carinho e ternura; jorge

Paulo Francisco disse...

Vim lendo, lendo e parei aqui.
Agora vou voltar e fazer o caminho todo de novo.
Gostei muito.
Um abraço

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

paulo: sua presença me anima e me inspira nesta semana de loucas ocupações... Abraços com carinho; jorge