domingo, 2 de maio de 2010

DIÁRIO DE BORDO: DESINSTITUCIONALIZAÇÃO E DONA IVONE

                                                            LIBERDADE, LIBERDADE...
                                                                      JORGE BICHUETTI

   A educadora e dedicada prestadora de serviços sociais da cidade de Uberaba, Dona Ivone Aparecida Vieira da Silva esteve presa por ordem do poder judiciário.
   Seu crime: respeitar os direitos humanos, o estatuto da criança e do adolescente e o processo de dignificação da vida, através da substituição dos modelos manicomiais por processos de acolhimento e cuidado baseados na desinstitucionalização.
  Ela é presidente e responsável pelo Lar da Caridade que institui o acolhimento das crianças e dos jovens via Casas-lares.
  A justiça uberabense não parece conhecer, nem respeitar a trajetória da transformação das instituições totais em serviços humanizados e libertários.
   Trabalham na lógica asilar que nasceu para excluir e não cuidar...
    A Reforma Urbana necessária à instituição da exploração capitalista não podia conviver com os loucos , os velhos, as prostitutas e as crianças que na rua viviam seu abandono.
     Foram isoladas, em asilos, cuja lógia Gofmann enunciou com clareza: barreiras arquitetOnicas, incomunicabilidade, amontoado uniformizante e despersonalizante... era o lixo fora do olhar do mundo que seria ordenado pelos apitos da fábrica.
     Desde o seu nascedouro, o Lar da Caridade trouxe consigo um força instituinte: o amor...
     Com a evolução da sua história, ousa agora modernizar-se, radicalizando sua humanização.
    O processo de Casas-Lares é o amor ganhando expressão de liberdade e humanização.
     O Cristo, um dia, na cruz, diante da sua espúria condenação, olhou a multidão e disse: eles não sabem o que fazem...
     Podemos dizer o mesmo do judiciário uberabense?
     Não sabem o que é desinstitucionalização? Não sabem o que é acolhimento? Não sabem o que humanização do cuidado?
     Se sabem, parecem desejar a pertuação da lógica de depósito, onde entre muros se depositava o humano que não cabia na vida do status quo e ali era esquecido...
    O amor de Dona Aparecida combinava um jeito de cuidar caloroso, mas que necessitava já de um passo adiante.
    Continuaremos a tirar do nosso olhar e empilhar em asilos e hospicios, aquilo que nos incomoda, Senhora Justiça?
   Ou inventaremos o novo com o compromisso de evitar a degradação do humano?
   À Dona Ivone, o nosso abraço e respeito...
   Ao judiciário, nossa perplexidade numa mescla de dúvida e repúdio...
   Talvez, necessitemos de uma reciclagem urgente para não atropelemos os caminhos da história na sua produção de vida e liberdade, justiça social e humanização da sociedade.
  
 
                                                    

2 comentários:

Unknown disse...

estou aqui refletindo como é difícil lhe dar com instituições totalitárias, e entender esse sujeito institucionalizado,com a perda da sua subjetividade.Quando isso será mudado meu Deus, a forma de lhe dar com seres HUMANOS!

Te adoro, abraços

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Sueli querida, vale uma vida... Reabilitar os que se tornaram trapos humanos e que necessitam de agentes libertários do cuidado e dispositivos amorosos e transversais que possam re-descobrir sonhos e projetos, um jeito de ser e viver criativo e livre, terno e generoso.
Apagar as Instituições Totais e suas sequelas é o desafio em nós e fora de nós. Vale.Com imenso carinho, jorge