sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

DIÁRIO DE BORDO: CUIDAR É SER NINHO...

                                         Jorge Bichuetti

No quintal, abraçado com o verde altivo e aconchegante dos meus álamos... deixando as rosas penetrarem meu corpo, para um diálogo secreto com o meu próprio coração... fiquei... A Luinha me mostrava o céu, dizendo que o nublado anunciava chuva e que a hora era de recolher-se... A beijei mil vezes... Não lhe incomodei com a pergunta que ruminava, inquietante: por onde andam meus passarinhos... Voam lépidos, fugitivos... temem o temporal... eu. impotente, reconheço que ainda não aprendi a ser ninho...
Relembro dos já incontáveis anos de trabalho... Minha profissão é a de cuidador... Mas, como se eu não sei tecer ninhos?...
Já quis que o meu coração fosse um cavalo alado, uma borboleta, um anjo, uma muralha nas trincheiras das lutas... e ali, na serenidade do meu quintal entre o verde e a imensidão, aprendo o que não me ensinaram nem na escola nem na vida: cuidar é ser, por um tempo, o ninho acolhedor e continente para o coração dos que voam assustados com a tempestade.
Aprenderei a ser ninho... a devir ninho...
Com quem?...Muitos que eu conheci é que eram ninho... partiram... A velha guarda, pouco a pouco, foi-se... hoje, reúne-se em outro lugar...
Não os incomodarei com a minha ignorância...
Embora, não posso deixar de reverenciá-los: a ternura de de Dom Hélder, a suavidade guerreira de Madre Maurina, a altivez singela e estelar de Florestan Fernandes e Paulo Freire... Darcy... Deleuze-Guattari... Quanta gente vivia e lutava na arte de ser ninho...
Meus passarinhos não cantam... só ecoa o meu desassossego: onde estarão?... A chuva jã entoa seu canto, é canto de vida... mas, canto que clama por ninhos...
Apalpo meu corpo: quando espaço com capacidade de acolher... Sou ombro, mãos, pele, coração... Sou colo... Eles se azulariam em conexão com as estrelas do infinito, se eu os permitisse ninhos... Ninho do pássaro que voa na tempestade; ninho do amigo que chora na solidão... ninho do povo da rua que peregrinam... ninho do garoto de Belém que permanece relegado às intempéries de uma estrebaria... ninho do povo indígena... dos travestis... dos dependentes químicos...
Quanta dor! É a vida dos que nas tormentas não possuem o colhimento amoroso e terno de um ninho...
Mesmo nos nossos vínculos... quanta distância, amargura, ciúme e solidão... caminhamos juntos, somos amigos ou amantes... mas não ninhos...
Sejamos ninho... o amor - acolhimento... o amor - cuidado... o amor - partilha...
Meu pai e minha mãe sabiam esta arte, eram ninho... quando pequeno, nos meus temores e fragilidades, deitava nos seus braços e aninhado ouvia: um canto de fé na alegria do morro...


4 comentários:

Paulo Cecilio disse...

Pode um texto ser denso, porém leve? Pode... a suavidade dos ninhos da vida nos convidam a ser artesões de cais, que acolhem as naus cansadas...
Hoje vou espiar mais de perto os ninhos de minhas Juritis... Excelente texto!

Metalurgia das letras disse...

Jorge! "Que ninho maravilhoso" Ser ninho é de fato cuidar e torna-se responsável por tudo que conseguimos conquistar e cativar.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Paulo Cecílio, amigo e companheiro, sua apreciação me acolhe e dá paz... um grande a braço, jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Metalurgia das Letras: cuidar é dar srenidade e calor, vida partilhada na aventura de reerguer-se e seguir... abs ternos, jorge