sábado, 23 de abril de 2011

BONS ENCONTROS: JEAN PAUL SARTRE E A LIBERDADE

                                 ENTREVISTA COM JEAN-PAUL SARTRE

sartreEm uma entrevista concedida por Jean Paul Sartre a Serge Lanfaire  , publicada por Le Nouvel Observateur, em seu número 188, correspondente à semana do dia 19 a 25 de junho de 1968, o menos importante é sua análise do Maio francês, dessa versão pop daquelas barricadas e daqueles comuneiros que talvez podiam filosofar mal, mas sabiam morrer bem, parafraseando José Martí, quando escrevia sobre os poetas da guerra de 68. Por Eliades Acosta Matos (Cubarte)
Em meio à sua análise do que chamou “a contra-violência” estudantil e seus implacáveis adjetivos contra De Gaulle (O Velho, o chama), Sartre nos oferece certas definições, quase em chave, do que é, e o que há de ser, a liberdade e o pensamento crítico. Como se trata, do mesmo modo que há 40 anos, de uma assinatura pendente para o socialismo que pretende ser a alternativa do capitalismo decadente, essas palavras em sua boca adquirem um novo brilho, como se tivessem sido pronunciadas para debater hoje, entre as guerras genocidas que Obama continua e as notícias de que a crise econômica global, longe de estar concluída, entra em uma nova fase.
- “Se se julga ao que não é julgado – afirma, referindo-se aos professores da Sorbonne, mas intuímos que a toda autoridade – não há verdadeira liberdade”.
E não mente.
Sobre o saber, ou seja, o conhecimento, afirma:
- “Todo saber que não é constantemente criticado, superando-se e reafirmando-se a partir desta crítica, não tem nenhum valor… O que é o saber? Sempre é alguma coisa nova, que já não é o que se acreditava, porque se realizaram novas observações e novas experiências com métodos e instrumentos melhores. E portanto, estas novas experiências são, por sua vez, discutidas por outros sábios, alguns retardatários e outros mais avançados…”
O caráter eminentemente conflitivo, ou seja, dialético, da cultura, define-se na próxima definição, tão sensível como rotunda. 
- “A cultura só pode transmitir-se, se se deixa que as pessoas, em todos momentos, tenham possibilidade de discuti-la… A única maneira de aprender é discutir. É também a única maneira de fazer-se homem. Um homem não é nada senão um ser que cumpre isto: alguém que é fiel a uma realidade político-social, mas que não deixa de colocá-la em dúvida. Claro está que pode se apresentar uma contradição entre sua fidelidade e sua dúvida, mas isto é algo positivo, é uma contradição frutífera. Se há fidelidade, mas não há dúvida, a coisa não vai bem: deixa-se de ser um homem livre.”
Longe de admitir a domesticação da idade e dos costumes, Sartre nos anuncia:
- “A universidade está feita para formar homens capazes de duvidar… Estou seguro de que Raymond Aron nunca duvidou de si mesmo, e, por isso, na minha opinião, é indigno de ser professor… O que Aron faz é pensar sozinho frente à secretária, e pensar o mesmo durante 30 anos… Agora que toda França viu completamente desnudado o Sr. De Gaulle – conclui – é preciso que os estudantes possam olhar Raymond Aron nu. Só lhes devolverão sua roupa se aceitar a crítica…”
Foram ditas as palavras inteligentes, conclusivas. Sartre, o míope, diverte-se e zomba: trata-se de um tema essencial, inevitável: o da Liberdade.
- "Pois, como se maneja o socialismo com esta santa palavra?
Há respostas vociferantes e também silenciosas. O importante é a constatação de que o normal é a liberdade e o estranho é a tirania. Disso falava Sartre.
O tema da liberdade é um dos temas mais centrais de nossa época. Trata-se de um antes e um depois, como se anuncia. Não haverá paz, nem delicadeza, nem processo natural, se não se tem em conta seu perfil, sua origem, seu desejo…
Não há mais. O socialismo ou é libertário ou não será. Por isso seus inimigos encarniçados tudo fazem para que caiamos na armadilha de limitá-la, na miragem do controle excessivo, da asfixia.
Liberdade e socialismo são a mesma coisa. Por isso nós, socialistas, temos sido, como dizia Martí, portadores de toda a justiça. Seria imperdoável, por carência, mediocridade ou covardia, ficarmos a meio do caminho."
[*] Jean Paul Sartre: “El movimiento estudiantil: una crítica radical de la sociedad”, em (entrevista) “68 francés: 40 mayos después”. Editorial Ciencias Sociales y Ruth Casa Editorial.
Fonte: http://www.cubarte.cult.cu/paginas/actualidad/conFilo.php?id=15038
Tradução: Lucas Morais.


           " NÃO SE DEVEM PROCURAR SUPER-HOMENS"  
                                                                        SARTRE

"Quando digo 'um homem feito de todos os homens', isso vale tanto para mim quanto para os outros. Significa que há entre as pessoas uma profunda afinidade e que o que as separa são as combinações. É melhor levar a cabo em si mesmo a condição humana em seu aspecto radical do que enfrentar diferenças específicas, como o que chamamos de talento — que é um crime contra si mesmo e contra os demais —, pois enfrentar o talento é como enfrentar aquilo que nos separa, aquilo que nos distingue. Quando digo que sou 'qualquer um', quero dizer que as diferenças — que são objetos de orgulho, de busca e de ambição — poderiam ser muito modestas, mas na verdade fazem com que a pessoa se mutile. Ao contrário, aquilo que eu não posso realizar — porque esta é minha contradição burguesa — passa a ser uma forma de relação extrema com a morte, com a necessidade, com o amor, com a família... e ao mesmo tempo é também um instante de perigo, que faz com que nesse momento de impossibilidade se consiga tocar a verdadeira realidade humana. É como entender no conjunto de relações vividas as situações limites de nossa condição. É por isso que respeito muito as pessoas que vivem nessas condições. Por exemplo, os camponeses cubanos antes da revolução. Eles viviam na miséria e no sofrimento. Na minha opinião, eles representavam infinitamente melhor o que significa ser um Homem do que o Sr. Montherlant, por exemplo. É exatamente isso que quero dizer. Penso que, nessas condições, ser 'qualquer um' é não só uma realidade, como também uma tarefa. É como rechaçar todos os rasgos distintivos para poder, aí sim, falar em nome de todo o mundo. E só se pode falar em nome de todo o mundo sendo todo o mundo, e não buscar — como fazem alguns de meus pobres colegas — ser um 'super-homem'. Antes deve-se ser exatamente o contrário: o mais Homem possível, o mais parecido com os demais. Trata-se de uma Tarefa. Estou completamente de acordo com um dos ideais de Marx, que espera que quando uma mudança radical na sociedade tenha suprimido a divisão do trabalho, não haja mais a possibilidade de haver escritores apegados às pequenas particularidades de um escritor, da mesma forma que não haverá mineiros ou engenheiros. Haverá apenas homens que escrevem, e que poderiam estar fazendo outra coisa, mas que naquele momento apenas escrevem. Porque a atividade de escrever está ligada à condição humana, é o uso da linguagem para definir a vida. E se trata, portanto, de algo essencial. Mas justamente por ser essencial não deve ser confiada a especialistas. Atualmente essa função está confiada a especialistas devido unicamente à divisão do trabalho. Na verdade deve-se conceber Homens que sejam polivalentes."

Fonte: http://www.webartigos.com/articles/15679/1/Palavras-de-Sartre-1-Parte/pagina1.html#ixzz1KFN4j7K5
            

Um comentário:

Diego Araújo da Rosa disse...

Jorge,

adorei seu post sobre Jean-Paul Sartre.

Em resposta, deixo aqui um pouco das minhas idéias sobre o pensamento do autor:

Analise de máximas sartreanas:

1°) "Não há determinismo, o homem é livre". No entanto, a de se considerar que Sartre acreditava que "a experiência precede a essência", quer dizer, se, por um lado, estamos condenados à liberdade, por outro, somos escravos dela, na medida em que ainda não experimentamos.

2°) "O existencialista não crê na força da paixão". Este modo de pensar contraria o de Shakespeare. Em "Romeu e Julieta" o escritor inglês conduz um casal de amantes ao suicídio, contrariando a razão.

3°) "O homem é o futuro do homem". Sim. Como só a experiência é capaz de nos revelar o verdadeiro sentido das coisas, o futuro pertence à contemporaneidade. Porém, a de se ressaltar que, muitas vezes, repetimos os erros do passado, ou seja, a História não é um acontecimento linear. Logo, o inverso também é válido - o homem é o passado do homem.