terça-feira, 26 de abril de 2011

A MODERNIDADE DAS PEDRAS DURAS: APONTAMENTOS AVULSOS.

                                                    Jorge Bichuetti

A fome e a miséria degradam a vida, nublam o horizonte e entorpecem os sentidos. O pão nosso é pão dividido, mesa farta...
A miséria é uma pedra no caminho da paz.
Letargia não é paz.
O povo na miséria se contorce nos espinheiros de um permanente pesadelo.
Não se pode acomodar, cruzar os braços e aquietar-se conivente: a vida e a paz não medram entre pedras que estão envenenadas,contaminadas e intoxicadas pelo sangue do povo oprimido e excluído; elas, a vida e a paz, não convivem com a carência mortal nem são cegas diante da origem dos tesouros acumulados , riqueza e abundância, que retratam que o povo oprimido e excluído é povo espoliado.
A vida clama por justiça...
Justiça é a vida e a paz nascidas do pão multiplicado, que é pão da vida e pão da paz, com os bens, de novo, pela natureza apropriados, para que sejam de todos. Comum, comunhão... Bens de partilha e de produção do bem. Bem Comum; bens de comunhão...
Por esta utopia, a vida e a paz se rebelam, guerreiam, lutam indignadas...
A vida é teimosia, rebeldia, inovação...
A paz não é covardia, negligência, omissão, paralisia...
Toda injustiça convoca, clama, invoca as forças disruptivas da mudança.
A vida salta, a paz pulsa...
Enxergam, não tergiversam, vêem na mais-valia o veneno, o tóxico, a virulência corrosiva que endurecem, petrificam e esterilizam as pedras duras da fome e da miséria , da ignóbil desvalia.
                                                          ***
Casa e rua se realizam na vida do ser humano como co-existência...
Meninos de rua... Povo da rua... Sem tetos...
Asilos e orfanatos, instituições totais...
Realidades cruéis: pedras duras.
Negam a vida que se potencializa na co-existência do acolhimento e da intimidade da casa e do espaço público de encontros e trocas heterodoxas da rua.
A ausência da casa e a carência de liberdade e segurança da rua inibem a germinação da vida, potência e devir...
A cidade necessita ser meio, máquina, espaço de vida e para a vida.
A vida anda petrificada...
Há pedras duras que definham a vida...
Há seres humanos sem casa...
Há seres humanos sem rua...
Há seres humanos apartados da vida...
E a vida os quer... a todos.
                                                           ***
O fascismo, terror de estado, e os microfascismos, violência capilarizada no cotidiano são  inimigos da vida: radicais, diretos, irreconciliáveis.
Pedras duras: liquidez petrificada, espetáculo robotizado numa crueldade maquiavélica e simulação hiper-realista do nazismo ressuscitado...
A vida pede passagem...
A vida deseja fluir...
A vida é integridade, suavidade, ternura, florescência, liberdade...
A vida não compõe, não inclui, não convive, não negocia, não respeita a sua negação nos inimigos que a exige, para que permaneça vida, que seja vida-guerrilheira, vida-rebelada, vida-combate...
                                                          ***
A vida é vida singular e vida de coletividades: vida da humanidade.
Toda exclusão, segregação, discriminação, marginalização é pedra dura.
Solidificações inibidoras da vida...
                                                         ***
A relva só medra nas pedras que são do caminho; há pedras que são, para a vida, impedimentos, bloqueios, cerceamentos do livre caminhar.
Pedras duras... Forças sólidas e robustas que se reguem e funcionam como precipícios inviabilizando o caminho.
O caminho é vida e não vida sem caminhos...
                                                         ***
Existem pedras duras...
E há a vida...
A guerra encontra-se instalada...
A vida não adormeceu no sofá da sala, nem se hipnotizou com as teclas dos computadores...
Liquefeitos, simulacros e simulações, espetáculos... podemos cair nas armadilhas da ilusão. Do Capital ilusionista...
Contudo, não esqueçamos a vida persiste sonhadora e enamorada dos horizontes amplos e libertos, ela combate as pedras duras...
A pergunta, é: com quem ficaremos?...

4 comentários:

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

POIS É MEU COMPANHEIRO...NOSSA HUMANIDADE ....EIS A QUESTÃO ....ABRAÇOS

Haiti
(Nossa humanidade: Eis a questão!!!)

Olhos perdidos, que fitam sem ver.
Emudecidos, fotografam a miséria do espaço.
Olhos sem brilho! Que brilho poderiam ter,
Um olhar perdido, triste, sem pão, sequer um naco...

Mãos que suplicam migalhas oferecidas,
Tímidas e envergonhadas.
Silenciosas mãos estendidas,
Sem esperança, coitadas!

A palavra presa na garganta
Grunhidos sem som, antecedem ao grito
Questionam, humanidade que não se espanta.

O mundo se dividiu entre ricos
Crianças famintas,doce inocência!
Corpos sem leitos esparramados no chão,
Que houve?Perdemos a descência?
Somos humanos ou não?

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Adilson, sua sensibilidade poética é um clamor pela vida e uma janela para o amor.Belíssimospoemas. Abraços com ternura, Jorge

Tânia Marques disse...

Jorge, uma luta rebelde contra os espinhos das rosas e as pedras do caminho. Caminho com você por esta vida cigana, como nômades que somos, para sentir as dores da humanidade e buscarmos saídas para os nossos sentimentos e angústias. Driblar a exclusão e todas as amarras que a sustentam é uma questão pontual. Beijos

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, a sinto, assim, uma desbravadora de novas auroras e um pensamento claroe límpido sobre a vida e as lutas do homem por novos caminhose novos horizontes; seguiremos juntos. Com poesia, reflexão e intervenção pela vida.
Abraços com carinho; Jorge