sexta-feira, 29 de abril de 2011

GEOGRAFIA DA NEUROSE

                                                           Jorge Bichuetti

Todo texto na realidade um diálogo... Não-totalizável. aqui, conversaremos sobre algumas linhas da vida que atravessam, permeiam a problemática da neurose. e as situamos numa perspectiva de conjugá-las com outras já mais debatidas, não desejando dizê-las num propósito de substituição das teorias existentes, nem de hierquicamente conferir a elas um lugar de destaque. a vida é rizoma e o rizoma não tem centro diretor nem hierarquia; é pura multiplicidade.
Então, vejamos...
Somos neuróticos... muito neuróticos. Vivemos num mundo neurótico e neurotizante.
O mercado neurotiza... Por muitos viezes. E um deles é que a perda de sentido do valor uso das coisas e reificação, divinização, do valor de troca nos desumaniza, coisifica-nos, e assim nos perdemos de nós mesmos, passando a construir uma ideia de felicidade dado pelo valor que outro me confere e ele já não vê no dia-a-dia do sociedade de mercado como gente -  desejo, sonhos, história -. somos os bens que possuímos; portanto, alienados do que pensa, sente, deseja o nosso coração. Somos invisíveis na nossa humanidade. E de tanto ser visto objeto e nos objetos que possuímos, passamos a não conviver bem e com alegria com o que somos na intimidade da nossa subjetividade subterrânea: evitamo-la, negamo-la, diabolizamo-la... E subsumidos pelo mercado, não percebemos que nele só a possibilidade da neurose, já ele é insaciável. Sempre nos faltará algo, e sempre temeremos não ter o que outro estará vendo como valor, a coisa que faz o ser humano valorizado. Deste modo, escondemo-nos, inconscientemente, numa repetição neurótica onde nos evitamos, onde fugimos de nós mesmos, onde esvaziamos nossas linhas de vida singular. Perseguidos pela coisa que dá valor a uma vida no capitalismo e sentindo inatingível, pela própria natureza do mundo das trocas, onde "tudo é sólido desmancha no ar" instauramos uma contínua e perene angústia.
Tendemos, assim a na vida que substitui o valor do ser pelo ter, e inviabiliza no ser o devir... nos tornamos infelizes e desvinculados da potência  da vida que se move e renova,produz sentido e dá saltos e coisas que passamos a ser se retraem, ossificam, cristalizam numa repetição, um rodopio na desumanidade, vida de imobilidade, tristeza perpetuada na repetição dos nossos sintomas neuróticos.
A fixação é dada pela desumanização, também... já que não no capitalismo a vivência suave e terna da nossa prop´ria humanidade que compõe-se de espírito guerreiro , mas, também, de fragilidade, vulnerabilidade, quedas e derrotas.
A diabolização da neurose que é a mesma marginalidade que vive todo insucesso, como se a vida não incluísse " um sucumbir", nos inibe na mobilização dos recursos internos e externos para passar... movimentar-se, flexibilizar-se, sair do redemoinho da repetição neurótica, explorando a intensificação das linhas de potência da nossa singularidade..
Aqui, trabalhamos somente um olhar... vimos o que a coisificação, a desumanização e transformação do ser humano em mercadoria e da vida em mercado faz com nosso existir neurótico.
E isto nos revela que para superar a neurose urge que resgatemos um existir de valorização do ser e do ser do devir...
Afirmar-se na arte e na solidariedade, na ética e na coragem de sonhar nos tira do redemoinho, onde o ser vale nada, como nos acrescenta Oscar Wilde:" Vivemos num tempo em que as coisas desnecessárias são as únicas necessidades.Hoje, sabemos o preço de tudo e o valor de nada."


7 comentários:

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

Belissimo texto ... um texto reflexivo .... e atual
abraços meu caro amigo ....

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Adilson, que legal que tenha gostado; irei tentar ir vendo outras linhas da vida e suas conexões com a neurose. Abraços com ternura; Jorge

Tânia Marques disse...

Jorge, este seu texto sugere um ensaio. Fico babando em cima dele, as relações estabelecidas por você são pertinentíssimas. É um olhar sensível sobre o tema e, mais do que isso, a sua singularidade assumiu lentes teóricas que se projetam universalmente. Beijos onde você desejá-los colocar.

Anônimo disse...

Lindo o texto... Jorge Belissímo.... um grande abraço..

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, na solidão de quem se prepara para trabalhar um fim-de-semana, acho que o beijo ficaria ótimo nas utopias... Um desabafo, contente. Sei que será ótimo e que vamos criar; mas que vontade agora de dizer é fim de semana , vamos vagabundear... A vida é inter-a~ção e eu ajoelhado louvo o blog , a internet por nos fazer viver sem tant a solidão.
Abraços com carinho. jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, na solidão de quem se prepara para trabalhar um fim-de-semana, acho que o beijo ficaria ótimo nas utopias... Um desabafo, contente. Sei que será ótimo e que vamos criar; mas que vontade agora de dizer é fim de semana , vamos vagabundear... A vida é inter-a~ção e eu ajoelhado louvo o blog , a internet por nos fazer viver sem tant a solidão.
Abraços com carinho. jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

um abraço me anima; me faz sentir entre pessoas, gente.
Com carinho meu sincero abraço, cheio de vida no entardecer que nos leva a refletire a sonhar com um novo dia;
Abraços, jorge