sexta-feira, 22 de abril de 2011

BONS ENCONTROS: SAÚDE MENTAL E PRÁTICAS ANTIMANICOMIAIS

         ENTREVISTA COM PAULO AMARANTE
                       “As pessoas precisam  de reposição de vida”

O sanitarista Paulo Amarante, pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (Laps/Ensp/Fiocruz), editor da revista Saúde em debate, do Cebes, é defensor intransigente da inserção social da pessoa com alguma “situação mental”.
Nesta entrevista, ele critica a contra-reforma do mercado privado da loucura, aponta avanços como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que rompem com a idéia de que lugar de louco é no hospício. e lembra o trabalho inspirador de Franco Basaglia — que esteve em Barbacena em 1979 — para sugerir a integralidade da pessoa como foco da discussão, num movimento que transborde a área da saúde: “As pessoas também precisam de reposição de vida”.

- Qual é o desafio da saúde mental?
- A transformação da concepção social sobre a loucura. Ações médicas, sanitárias e assistenciais podem transformar o modelo manicomial num modelo em que as pessoas continuem inseridas em sua vida, comunidade, família. E também as relações de poder estabelecidas com alguém considerado portador de algum tipo de situação mental — os termos “doença mental” ou “portador de transtorno mental” acabam mantendo a idéia de transtorno como marca principal de identidade.

- Que ações exemplificam essa visão?
- Seria injusto escolher uma ou duas. Temos mais de 1.000 Caps que, com mais ou menos resultados positivos, representam ruptura desse lugar social, da idéia de que lugar de louco é no hospício até o fim da vida, de que é improdutivo e incapaz de viver com a família — pressupostos atribuídos à loucura para retirar as pessoas da sociedade. Hoje, há uma rede importante de serviços inovadores, com diminuição nas internações psiquiátricas. Boa parte das pessoas antes internadas hoje está em projetos sociais, culturais, de trabalho.
Estamos fazendo levantamento para o projeto “Loucos pela diversidade”, do Ministério da Cultura, cujo primeiro passo foi uma oficina na Fiocruz com a presença do ministro Gilberto Gil. Um inventário das experiências: há centenas de grupos musicais, teatrais. A rede de Caps e projetos forma um modelo rico em diversidade.

- Abordagens multidisciplinares...
- Isso. Por exemplo, no futebol: em São Paulo existe a “Copa da inclusão”, em que jogam usuários, parentes, voluntários...

- Com profissionais não necessariamente da área médica.
Exatamente. No caso dos usuários, evito falar em ressocialização. Falo em transformar as relações sociais. Quando se vê que o outro não está excluído da sociedade, mas de uma certa concepção de sociedade, percebe-se que há lugar para a participação desse outro. Quando o trabalho sai do modelo “uniprofissional” e une outras especialidades, valorizando a equipe, vê-se que o projeto precisa de jornalistas, antropólogos, músicos, sociólogos, pintores, professores de educação física. O grande Afonsinho, jogador histórico do futebol carioca e brasileiro, trabalha organizando times. Uniu os dois perfis, médico e jogador. Há uma rede grande de projetos de vida, de invenção de possibilidades de vida.

-A proposta de integralidade do SUS...
- Exato. A integralidade deveria ser trabalhada no SUS do mesmo modo que trabalhamos a saúde mental — procurando inovar. Baseamo-nos numa frase de Basaglia: “A psiquiatria sempre colocou o homem entre parênteses para se preocupar com a doença”. A doença é um abstrato, uma experiência subjetiva que só existe na experiência de alguém. Mas a psiquiatria fez da doença algo material, escrevendo livros e deixando como pano de fundo o próprio homem.

-Como nota de rodapé?
- Sim. Transformou-se o homem em nota de rodapé da doença. Nosso grande desafio é saber se as pessoas sentem fome, frio, em vez de interpretar sintomas dessa fome e desse frio. Basaglia citava o exemplo da menina que pedia um pente e ninguém lhe dava. Alegavam que era psicótica e jogaria o pente fora ou faria dele uma arma. Basaglia pediu que dessem o pente a ela, que simplesmente se penteou. Temos que ver a pessoa: percebe-se que ela quer amor, trabalho, comida, música... Vida. Não queremos apenas um sistema de saúde mais humanizado, adequado aos princípios da cidadania, mas romper com a idéia de que as pessoas precisam apenas de saúde e assistência médica: elas também precisam de reposição de vida. Por isso, nosso trabalho transborda o setor da saúde.

- Qual o principal obstáculo?
- É político: ainda há um grande mercado privado da loucura, milhares de leitos conveniados com o SUS, exercendo uma contra-reforma muito significativa, pois tem influência na imprensa, nos poderes, cria visão diferente para as famílias. Quando falamos em extinguir manicômios — tendo em vista o cemitério aqui de Barbacena, onde a maioria dos 60 mil internos foi enterrada como indigente —, eles vêm com argumentos que passam a ter certa legitimidade a partir de suas alianças. Afirmam que o SUS não quer se responsabilizar, que o Estado reduz custos para se eximir. Criticam até o neoliberalismo do Estado, numa grande inversão de conceitos. O SUS ainda não conseguiu estabelecer outra relação no público-privado, grande investidor na área da saúde mental e grande captador de recursos do SUS. A indústria da loucura é um mercado muito forte.


2 comentários:

Luciana disse...

oi jorginho voltei como voce esta dizendo sobre a loucura fiz um comentario na assemblia que e so dizermos que fazemos parte do caps ja somos discriminados como loucos mas nao pensao que um dia poderão estar no nosso lugar assim penso se as palavras não são mais bonitas que o silencio emtao e preferível não dizer nada beijos saudades de você helidamar

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Helidamar, a vida nos pede coragem e ousadia; o mundo discrmina, porém, se aprendemos a viver com alegria, respeitando nossas dores, vamos desbrando horizontes de liberdade e paz no nosso próprio caminho. Abraços carinho, Jorge