segunda-feira, 25 de abril de 2011

DIÁRIO DE BORDO: COMO SURFAR NAS ONDAS DA EXISTÊNCIA?...

                                                        Jorge Bichuetti

O quintal da minha casa vê o dia amanhecendo com algumas nuvens, talvez, choverá... A roseira graciosa festeja... Os álamos erguem-se no infinito me ensinando na manhã de um novo dia que a vida mora no lugar que depositamos nossos sonhos. Os beijos andam recolhidos, poucas palavras, nenhuma flor. O limoeiro está no seu apogeu: frutos, sucos, tequila e cachaça... são visitados, cheios de serventia. O pé de romã. As samambaias. As espadas de São Jorge, a folhagem de oxum, o boldo... Recebem a água das minhas mãos, mirando nos meus olhos. Desconfio. pressinto que eles não entendem o que é para os seres humanos uma segunda-feira...
A lua dorme, ontem reinou... leu comigo Nietzsche. Gostou do velho passarinheiro.
Ah! como Nietzsche nos ajuda a viver, a sobreviver, a resistir e emergir, novamente, alegres, dionísicos, com desejos de sonhar e intensamente viver.
Nietzsche odiava os que não pensam e são cheios de palavras, sempre um sim ou um não... Concordam, discordam, nunca acrescentam seu próprio pensamento. Uma criação... Odiava o absolutismos das verdades soberanas, rainhas virgens, porém, venenosas, da filosofia...
Odiava o moralismo estigmatizante e a exclusão perversa...
Lutava e lutando descobriu os guerreiros que podiam aniquilar estes modos de existir que danificam o verdejar da vida.
Nomeou-os: o riso - a ironia alegre e vivaz; a dança - o movimento do corpo que liberto ocupa , encantado e encantador, os espaços do mundo; e a música - sons que diziam sobre o não-nomeado, sobre o que não está contido nas palavras que vivem de dizer o já conhecido, a média, o medíocre.
O riso, a dança, a música... eis os guerrilheiros nietzscheanos.
Somos um mundo verborrágico, de verdades imaculáveis, de certezas imperiais...
Somos um mundo de cinzas, contido, movimentos robotizados, um mundo triste...
Somos um mundo onde a musicalidade não toca o corpo, é barrada na lógica que decifra e no modismo que a massifica, tornando-a silenciosa e amorfa...
Todavia, desejamos viver e ser... Ser feliz, ser digno da vida.
Podemos descobrir o novo peregrinando nos territórios da vida-experimental; mas, quase sempre, estamos sobrevivendo da vida dada pelos costumes, pelo ditado pela razão hegemónica do já instituído... Evitamos experimentar... E não experimentando, ficamos vulneráveis às verdades que nos ditam o que fazer, o que pensar, no que crer, no como existir...
Capturados, tememos os inimigos do devir, do novo, da mudança...
Quando ousamos dar um passo, queremos guerrear com as armas da tristeza, da paralisia e do corpo insensível... Aí, estamos na cova do leão, sem conhecer onde mora a magia dos pequenos, dos que vivem longe da força bruta dos sistemas organizados e ruminantes que se impõem, dominadores contumazes e cruéis.
E o Nietzsche chega e mansamente, diz: eis suas armas, eis suas magias, eis seus caminhos...
O riso desmonta os sistemas lógicos da opressão pois os ferem no seu tendão de Aquiles... A seriedade, o ranzinzo, a sobriedade mascarada, com gesso não-colorido...
A dança os intimida, pois são apolíneos, só conhecem o que pode agradar o olhar que espia; não o percute a vida, despertando-a como liberdade e alteridade, uma novidade que seduz todos os sentidos e a pele; este coração da vida.
A música desperta as potência do que pode um corpo... O faz pulsar, vibrar, voar... Exorciza nossos demónios, sérios e sisudos, e nos dá desejos, potências e sonhos... Ela atualiza a aurora e nos conecta com a linha do horizonte...
Assim falou o velho passarinheiro...
Abandonemos, então, a servidão e acomodação, e nos permitamos grávidos das belas e encantadas estrelas bailarinas...


4 comentários:

Augusta Carlos disse...

BOM DIA PASSARINHO!
" Todavia, desejamos viver e ser... Ser feliz, ser digno da vida"
" (...)a vida mora onde depoistamos nossos sonhos.."

Felizes os que tem uma morada para sonhar com dignidade a vida.

Te esperamos na festa das creches, vide e-mail.


Obrigada por ser o transcritor de sentimentos.

Bjs

Augusta

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Augusto, quero ir festar e sonhar com meu povo de sonhose alegrias.
Abraços com carinho, Jorge

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

Falando em versos ...
Sobre a vida
(Um poema para reflexão)

A dor visita a alma.
Visita e vai embora,
O prazer é passageiro,
Fugaz e estranho,
Vem como uma onda,
Marola, cresce e passa,
Anda por onde a dor anda,
Disfarça a felicidade,
Impede que o amor nasça.

Seja aqui ou acolá,
Não adianta fugir,
O centro da vida
É onde a vida está.
(©by Adilson S. Silva)

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Adilson, bravo, guerreiro poeta. Um carinhoso abraço, Jorge