terça-feira, 10 de maio de 2011

DIÁRIO DE BORDO: O RIO DA MINHA ALDEIA

                                                   Jorge Bichuetti

Mergulho no perfume das rosas do meu quintal; meu corpo acaba de despertar-se com o orvalho, suave e acolhedor... Noite estrelada, madrugada. O verde na penumbra me conta do medo que ele sente das fuligens que vento traz, lhe contando histórias de desmatamentos e queimadas... O limoeiro me provoca: não é hora de festejar, irmão; uma tequila agora e adeus dia produtivo... A Luinha se move silenciosa, mira as estrelas e me olha... Me pergunto: ciúme, admiração, contemplação... Segredos do coração...
Nosso coração é um bicho misterioso; gosta de mover-se com o luar, acelera e se aquieta segundo as forças da paixão...
No ar ressoa antiga canção: "quem nunca curtiu uma paixão..."
Sexo e amor: veredas do coração... Dor e alegria, sonho e desespero, êxtase e precipício... Voos e quedas, vida.
Binários, dividimos e beatificamos o amor e demonializamos o sexo.
Será a vida, assim?...
O erótico é uma liturgia do amor e o amor é o altar da sexualidade. Ambos, campanários da vida...
Por que condenamos tanto o amor e o sexo? Moralizamos, estriamos, normatizamos...
Por que o vemos como um pecado, crime marginal na calada noite? Ou ruminação inominável na solidão de um canto qualquer?...
Na verdade, tememos a força disruptiva do amor... Fugimos da magia do prazer e das alegrias da sexualidade...
Qual a nossa cena temida? a promiscuidade, a perda de controle, o ciúme, a inveja, a vida de um outro...
O sexo e o amor rompem, inegavelmente com dois componentes mágicos do alicerce da nossa subjetividade individualista, competitiva, narcisista e onipotente...
Eles abalam as estruturas do império do Eu... O outro entra no nosso universo e nos afeta e nos revela... Desperta ternura, solidariedade, cumplicidade, gentileza, compaixão, generosidade, partilha...
São bandidos subversivos, inimigos da ordem: do mercantilismo, do pragmatismo e da acumulação...
Sexo e amor são pulsações vitalizantes da vida solidária...
Aí, os capturamos e os transformamos: pintando-os com o servilismo, com a dominação e subordinação, com as ralações de poder que os aniquilam na sua potência revolucionário e os modificam, formatando-os  como aguilhões da vida.
Esquecemos da alegria de amar e se dar e passamos a vivenciar um foco hipnótico o desejo de ser mamado.
Selamos suas manifestações, tatuando-lhes com os estigmas da propriedade e da exclusividade: vivenciamos as triangulações amorosas.
Nos tornamos co-dependentes... Asfixiados e asfixiantes...
Matamos o amor, mecanizamos a sexualidade...
Amor e sexo é liberdade e compromisso, alteridade e responsabilidade, doação e ternura... Não é competição, triunfo e pose... Não é fusão, é encontro...
Ante estas reflexões matinais, sob a vigilância atenta do luar, das estrelas e da minha pequena lua, ouso dizer: o amor é o rio que nos leva para o mar da vida plenificada... mas, ele é o rio da minha aldeia; se o navegamos, seguimos cheios de vida. Porém, muitos o perde : uns o querem, vorazmente, bebe suas águas e depois, chora as agruras do deserto; outros, o polui, jogando nas suas correntezas os detritos da nossa miséria; e há ainda os que sempre param, pois, querem O Tejo, o rio da aldeia alheia...
Aqui, chegamos, longe do mar... Mas não desconhecemos que vida que é mar é a nossa destinação.
Antes que o canto das sereias edípicas nos seduzam, paremos e observemos que tudo é amor e tudo é sexualidade...
E para que as lágrimas não se tornem o rio das nossas vidas, acordemos: amor é o suave e terno da solidariedade e é o existir solidário da suavidade e da ternura... O restante são águas contaminadas, vidas no redemoinho do egoísmo...

10 comentários:

Sumaia Debroi disse...

Que gostoso é acordar com uma sua leitura...
Bom dia meu querido e até sábado!
Sumaia

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Sumaia, sua presença me enche de vida, vida alegre e da paz. Querida que você, se possível, lesse e comentasse o Ecologia, subjetividade esaúde mental, tenho medo de ter comentido equívocos básicos.
Meu carinhoso abraço, um dia luminoso.Ternamente, Jorge

Concha Rousia disse...

É mesmo assim, Jorge, meu querido amigo, tememos a força incontrolável do amor, certeza... esquecemos a alegria e ficamos com a preocupação de não ser amados, quando o que realmente nos pertence é o nosso sentimento, mas descuidamos ele... Como é bom ter acesso a teus textos, onde encontramos pensamento e lirismo em perfeito equilíbrio o que facilita a leitura, um prazer te ler, procuremos esse rio do amor. Abraços de carinho, Concha

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Concha, querida amiga, concordo contigo: fugimos do amor e nos escondemos na gruta da carência... Eu também gosto profundamente de ler teus escritos; li hoje sobre a noite e seus mistérios... miragens acordadas do sonho que espera o sono.
Uma preciosidade.
Abraços com carinho, Jorge

Tânia Marques disse...

Jorge, foste perfeito em tua análise sobre o amor. Esse amor que nós conhecemos, como sendo um amor de verdade, também é fruto de um sistema que aprisiona, sufoca e asfixia o ser gente na relação social. Vejo-o como uma simbiose a qual um dos amantes se nutre da vida-energia do outro parasitariamente, isso necessariamente preconiza que um dos dois precisa sempre ceder para manter presente um desequilíbrio interno mas com aparência de equilíbrio externo. Aquela dualidade maniqueísta proposta pelo tipo de sociedade em que vivemos. Uma proposta de amor libertário resolveria esse impasse, seríamos sempre felizes por estarmos vivendo de acordo com a nossa lógica, com a ética combinada entre os pares. Bj.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, sua análise é valiosíssima: quando mais jovens, sem teoria, na afetação pura e simples, definiamos este amor como amor de vampiro. Um amor que inibe a outra vida, que contrai ; sendo que a potência amorosa é expansão partilhada e quietude cúmplice, sendo livrese responsáveis.
Abraços com carinho e muita ternura, Jorge

Mila Pires disse...

Jorge...preciso destacar:"Amor e sexo é liberdade e compromisso, alteridade e responsabilidade, doação e ternura... Não é competição, triunfo e pose... Não é fusão, é encontro..."
E nesse encontrar, na maioria das vezes nos perdemos de nós mesmos e daqueles que pensamos amar!Cá estou pensando neste "encontrar"...em como se dá isso e quão complexo é...
Feliz em te ler...
Abraços...com carinho...

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Mila, penso cá sem muito cuidado com as teorias que é um encontrar longe do espelho; vivemos muito com o outro sem ver, sentir e amar o outro.Amamos nossas projeções enossas identificações. Se o outro existe, ele nos revoluciona... ou não nos vinculamos.
O amor é a grande travessia; Abraços com carinho, Jorge

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

é ...é isso o amor não tem pressa....é como o rio de Guimaraes Rosa .. que não quer chergar ...."o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira.."
O amor é essa correnteza , manso.... abraços amigo

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Adilson, e nós, então, precisamos de um curso de canoagem. Amigo, alegre, lhe abraço, com carinho e ternura, Jorge