segunda-feira, 4 de abril de 2011

POESIA: ASAS DO POVO DA RUA

                               PADRE JÚLIO LANCELLOTTI
                                                                     Jorge Bichuetti

Este homem calvo, forte
e terno, cheio de amor;
entre o povo da rua
é o Cristo, um salvador...

AH! um audaz lutador
que nunca se abateu,
sempre seguiu adiante,
só servindo com louvor...

Um dia se viu caluniado;
tinha , agora, a sua paixão,
como a teve Jesus...

Orando, desesperado,
sentiu que o povo da rua
era os filhos do calvário.


                    POVO DA RUA, POVO-MARIA...
                                                                  Jorge Bichuetti

Debaixo do viaduto,
cobertos de notícias,
folhas secas do passado;
ardia de febre e frio,
confundindo as estrelas
com as luzes da favela.

Não tinha ninguém,
era só... pura solidão!...
vivia de esmola,
da bondade e do desprezo,
já nem recordava
o que sentia um corpo
quando a vida lhe dava
um carinho...

Sem ninho, só... tão sozinho,
sonhava em vão
com um copo de água,
uma mão na testa,
uma vela, uma prece...
Tudo caía no silêncio
da sua vida de escuridão...

Assim, partiu... agonizou,
lentamente... delirando
ver Nossa Senhora e sua mãe
segurando suas mãos,
numa última e cantada oração:
- ave, voa... Ave, Maria!...


                             MENINO DE RUA
                                                           Jorge Bichuetti

Um menino sangra
e suja o asfalto;
um tiro certeiro
derrubou a ave...

Homens de ternos,
fardas e blusões,
gritam: ave de rapina!...

A vida treme e os deuses
de todos os credos,
ajoelham e oram...

Uma deusa preta,
negra santa, amorosa,
o envolve no seu manto
azul e dele tira u'a estrela
e a entrega ao menino,
rezando, mimosamente:
- Vem, cá... meu doce...
meu doce e pequeno
passarinho....

                          PEQUENA HISTÓRIA
                                                      Jorge Bichuetti

Bala, bola de gude,
pipa, bolhas de sabão,
carros de carretel,
a bola e o gol,
o banho no rio, o vento
no corpo nu...

Alegrias perdidas. Infância
trucidada
por um mundo
que só dá um destino:
- craque ou crack!...

Êta, mundo... Por que?...
és tão grande
e não consegues...
Mundo mundão
mundin:
um beco de tão pouca opção!...


                         MORTE CIVIL: ASSASSINATO COLETIVO, VÍTIMAS E ALGOZES...
                                              Jorge Bichuetti

Povo das matas,
índios, gays, mulheres,
povo-negritude,
loucos, trabalhadores,
cantem, sonhem...
Cantem a Internacional
ou Vandré;
cantem os sonhos
e a esperança....
Contudo, não olvidem
a lágrima
na calçada
de um povo sem ninguém...

Cristãos, anarquistas,
trotskistas e comunistas,
democratas e autonomistas,
lutem, sonhem,
cantem...
porém, inclua
um verso
um terço
um berço
para eles que vagam
errantes
e que são pura pele,
feridas e cicatrizes...

Eles sofrem, sangrando
morrem;
e vivos ou mortos
não possuem nomes...
lápides nuas,
e nas calçadas o escrito
nunca lido:
- aqui jaz o povo da rua...


                         PROCURA-SE UM ANJO...
                                                            Jorge Bichuetti

Há anjos protetores
para tudo...
Santa Barbára, na chuva;
nas matas, Oxossi...
O índio tem Tupã...
Há até santos para dívidas
e outros para objetos perdidos...

Santo Antônio casa
e a Nobre Rita dá a visão...
Os animais não foram esquecidos;
adotados, são hoje protegidos
do Pobrezinho de Assis...

Deus, Olurum, Alá,
Deuses dos druidas
e dis indus...
Há deus bravo,
há Deus zen....

Há Deus dos ares
e das encruzilhadas...

Agora, não sei porque
ninguém da céu ou da Terra,
arruma, com jeitinho ou sedução,
um anjo para o povo da rua
que ajoelha e implora.
caídos e pisados,
numa anônima calçada....

2 comentários:

disse...

Nunca vi mendigo tão brando. A fome, a seca, noites frias passadas ao relento, a vagabundagem, a solidão, todas as misérias acumuladas num horrível fim de existência tinham produzido aquela paz. Não era resignação. Nem parecia ter consciência dos padecimentos: as dores escorregavam nele sem deixar mossa. (...) Humilde serena, insignificância, as mãos trêmulas e engelhadas, os pés disformes arrastando as alpercatas, procurando orientar-se nas esquinas, estacionando junto dos balcões. Restos de felicidade esvaíam-se nas feições tranqüilas. O aio sujo pesava-lhe no ombro; o chapéu de palha esburacado não lhe protegia a cabeça curva; o ceroulão de pano cru, a camisa aberta, de fralda exposta, eram andrajos e remendos (RAMOS, 1981, p. 228-229).

E continuo a me perguntar: E o que estamos fazendo de nós? o que estamos fazendo do outro?

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Josie, estamos nos pndo no caminho e penso que o que você fala nos diz, profundamente, pois é uma questão: por que tanto se não vamos acolher? ... o que estamos fazendo?... penso que teríamos que algo fazer... mais, co mais amor e radicalidade.
Abraços com ternura, Jorge