quinta-feira, 19 de maio de 2011

AS ENCRUZILHADAS DO HUMANO EXISTIR

                                                  Jorge Bichuetti

Não se pode negar que vivemos diversas encruzilhadas... Nosso modo de ser e existir já não nos contempla: angustiados, tristes, famintos de afeto e companhia, vazios sem esperança, estamos em crise... Uma crise da humanidade... Uma crise da falência da vida desumanizada...
No amor, já não sabemos suportar a ilusão de liberdade imersos num profunda e cinzenta solidão...
Superamos a repressão sexual, conquistamos o amor livre... Abandonamos o ideário do amor romântico: metades fadadas ao sofrimento do desencontro...
Todavia, não inventamos um novo modo de amar... Reificamos o descompromisso, a ausência de vínculo e a sexualidade esvaziada de afeto e ternura... E, na verdade, temos sido infelizes e funcionamos ainda movidos pela falta, pelo anseio de simbiose, pela triangulação edípica, pela possessividade indireta, ciúme não-dito...
Para reinventarmos o amor, escutemos algumas valiosas sugestões: o amor é um encontro de potência que se realiza num cuidar de si e numa ética... Para Foucault, há que se construir no dia-a-dia dos vínculos a ética da amizade; para Leonardo Boff, a ética do cuidado; e para o velho sempre atual Espinoza, a ética da alegria...
Daí, nasce conjugando-os um novo amor: doação, partilha, cumplicidade, ternura, companhia, liberdade e alegria...
No cotidiano, sentimos os vácuos na vida e no caminho gerados pelo individualismo...
O individualismo nos vulnerabilizou... Desconectou-nos das potências que emergem da vida de coletividade e nos fez escravos das fragilidades do nosso próprio ego... E ele nos levou à superficialidade da vida de espetáculos e a hipertrofia canibal da competição; tornou líquida as relações e solidificou nosso própria solidão.
E a cruz pesa... Sozinhos podemos tão pouco... neste funcionamento paranóico, nos isolamos e nos alienamos da nossa condição de humanidade que faz que o outro seja também eu, eus... Agora, rodopiamos tontos e vertiginosos neste buraco negro...
Necessitamos de reinventar nossa vida como vida de coletividades, tribos, multidão... E o outro não compramos no consumismo coisificante do mercado, para viver nosso reinserção numa sociabilidade onde re-tomamos o outro como vida nossa, vida comum, redes, rizomas, coletivos vitalizantes, teremos que escutar as lições do Fórum Social Mundial, política, filosofia e psicologia da crise: não sobrevivemos sem uma profunda e radical retomada da solidariedade - generosidade e compaixão...
No correr das horas, outra encruzilhada: o fatalismo e niilismo nos mata, asfixia existencial...
A aridez da vida sem esperança não nos libertou; nos escravizou a uma permanente apatia, acomodação e covardia... Omissos, vegetamos...
urge, se desejamos a felicidade, precisamos urgentemente nos apropriar , de novo, da história, história - sonho e utopia... Não nos potencializamos sem que venhamos a viver o caminho como artesãos do próprio destino.
Resistir, rebelar-se, indignar-se, insurgir... compõe o corpo guerreiro e dá sentido à vida...
Estas reflexões ligeiras e singelas falam do que sentimos no dia-a-dia vendo a vida descolorida e anémica da nossa geração que sepultou numa só pirâmide Marx, Cristo e Sartre... E junto deles foi-se a poesia, a magia e a utopia... Não percebemos que o sistema não os queria porque eles eram e é amor demais... esperança sem limites... um incessante busca da alegria. Eram a poesia do amanhã no hoje...
E agora sufocados nos vemos morrendo de tristeza, desesperança e desamor...
Ressuscitemos, então, a vida...

18 comentários:

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

Meu querido companheiro,que texto lindo...intenso, reflexivo ...admiro seu talento e criatividade ...você é uma manancial que sempre nos surpreende ... abraços fraternos

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

ADILSON, FICO FELIZ... SUA AMIZADE ENOSSAS TROCAS ME ENRIQUECEM E DÃO FORÇAS DE CAMINHAR, SONHANDO.
aBRAÇOS COM TERNURA, jORGE

Hermenêuticas de Lou disse...

Dr. Jorge, parece-me que Mário Quintana quando diz... "Nada é tão comovente como a realidade";.... Graciliano Ramos quando diz "Se levanto o punhal para assassiná-los, os paradoxos zombam de mim. Quanto mais zombam de mim, mais os admiro, por sua inconsistência sedutora";.... Clarice Lispector quando afirma que "Amor é não ter inclusive amor É a desilusão do que se pensava que era amor"; e....., finalmente... Greagório de Mattos quando sabidamente afirmou.... "A cada canto um grande conselheiro Que nos quer governar",.... enfim, a realidade de Quintana, está nos paradoxos de Graciliano onde o amor é apenas desilusão segundo Clarice.... que nos fere ao perceber o poder sempre egoísta presente em cada canto do existir, segundo as palavras de Gregório. Apenas um pout-popurri à moda poética. Maravilhoso seu texto. Abraço da amiga Lou Moonrise.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Lou, como é bom um diálogo onde multiplicamos e vamos criando nova vida para um texto, agregando as ressonâncias... acho fascinante... e suas escolhas literárias revela uma densidade suave. Me encantou pensar com estes autores num diálogo de muitas vozes.
Abraços com ternura e carinho, Jorge

Concha Rousia disse...

Ahhh pensei que nunca ninguém escreveria um texto com o que eu concordar tanto, é isso que acontece, sozinhos, moramos despovoados, perdida a comunidade a tribo que nos acompanhava, levo gritando isso também, mas nunca com tanto saber como o que tu exprimes neste texto que fala... Maravilha, e sabes. sem comunidade não se gera cultura, só se consome o que vem de fora, acabamos todos sendo terminais de consumo... isto aqui entre nós é o mais parecido a uma comunidade que a gente pode chegar a ter no futuro... Agradeço te saber aí, mesmo na fragilidade da técnica na que não aprendi a confiar, mesmo que a uso...Um abraço de vida para ti, com carinho, Concha

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Concha, uma frase de Deuze que me encanta diz "Somos todos desertos povoados de tribos, faunas e floras."
Desconectamos de nossoaas tribos , e nos apartamos da fauna e da flora. A hora é de reconstruir nossas coletividadese vivê-las de modo alegre e libertário.
Abraços com carinho, Jorge

Fernando Campanella disse...

Há um longo caminho pela frente, Jorge, na solução do impasse a que nós, humanos, chegamos... um longo caminho. A competição, o individualismo, e exploração bruta, o lucro, o subdesenvolvimento...tudo isso clama por uma transformação porque nos martiriza. Um longo, penoso, caminho à frente, mas não sem esperança. A utopia amplia horizontes.
Grande abraço, obrigado pela visita ao meu blog, pelo carinho.

Concha Rousia disse...

Em 2009 escrevi isto passeando pela cida de Santiago de Compostela, mas podia ser qualquer outra:

Despovoadas

Detecto o sofrimento humano
nos rostos esculpidos da cidade

Rijas enrugas de um olhar sem ver
de um olhar para dentro
mas a um vazio...
a um mundo desabitado
um mundo cheio de ocos
cheio de abismos escuros
que nascem nas pupilas
duns olhos que são tristes janelas
de brilhos apagados...

Dentro o sofrimento das gentes
que vivem despovoadas
que moram sozinhas em seu
imenso interior...
desproporcionado,
infinito mesmo.

Concha Rousia

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Campanella, sim, temos problemas acumulados nas diversas linhas da vida - do afetivo ao social, do mundano ao político: a vida pede transformação para que ela seja para todos a oesia da alegria e ternura da compaixão. Abraços com ternura, Jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Concha, tua poesia me levou a ver passando diante de mim a multidão dos que nos procuram com dores, lágrimas , fatalidades... perdidos dentro de si numa imensa solidão...
Tua poesia instia, retrata a vida e clama por mudança,Abraços com carinho, Jorge

Anônimo disse...

Dr. Jorge,

Sinto uma melancolia ao perceber como parece que voce desconhece a visita de Cristo na terra.Tão simples: mil pensadores são matemática,Jesus é aritmética.É amor,humildade,compaixão.Frases simples e profundas.Não me refiro ao luxo da Igreja Católica.Jesus é Jesus. As igrejas são invenções, orgulho.Jesus, meu amor, que lhe proteja. De

Nuestro Cielo disse...


Boa noite, Jorge!

Nós, Wilson e Sanzinha, viemos avisar que agora nós escrevemos juntos em um novo blog, o Nuestro Cielo. Como sua amizade é importante para nós e não queremos perder o contato, pedimos que você nos visite em nossa nova casa e nos siga lá. Segue o link:

http://lonuestrocielo.blogspot.com/

Já estamos te seguindo com nosso novo perfil. 
Os blogs "Bom Ruim Assim Assim" e "Jardim Secreto de Sanzinha" serão excluídos. Pode até excluí-los de sua lista de visitas.

Então é isso! Esperamos você em nossa nova casa!

Um beijo grande e um abraço apertado!

Wilson e Sanzinha.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Denise, não desconheço; somente, não quero banalizá-la; assim, que tiver um tempo irei abordá-lo: seriamente como vida libertária e de amor.
Abraços com carinho; Jorge Bichuetti

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Wilson e Sanzinha, agora mesmo, durante minhas postagens; irei e os seguirei na alegria de o amor precisa ser cantado: sinto-os como um canto de afirmação do amor contra os ventos do desamor e os redemoinhos da solidão.
Abraços com votos de luz-paz-bom ânimo para o lo nuestro cielo...
Com ternura e caminho, meus abraços, Jorge

Anônimo disse...

Dr. Jorge,
Bom dia.
Banaliza-me mas não faça minha cruz muito pesada.
Tenho que poder carregá-la.
Saudade de voce!
Beijo Denise

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Denise, nunca a banalizei; por favor seja clara, pois, não tenho dubiedades: sou teu amigo, e não quero nem gerar ilusões nem lhe tratar mal.
Abraços, Jorge

Anônimo disse...

Te amo,sem ilusões,porém gostaria de uma amizade mais intensa,mais chegada.Feliz,risonha........
Não tenha receio.
Quem sabe ser sua irmãzinha.


Poxa adoro vc!

Denise

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Denise, não se decide ser irmão; isso é fato que acontece pela afinidade e pela vivências em comum... É sintonia... Desejo-lhe toda paz e alegria do mundo. Abraços, Jorge