sexta-feira, 13 de maio de 2011

PROCESSOS INSTITUINTES:: A LUTA - VIDA DA MULHERES... NUM PROJETO INSTITUINTE DE PRODUÇÃO DE PAZ. - ENTREVISTA COM A PSICÓLOGA JOSIE SOUZA....

1.      Josie, sempre lutadora e cheia de sonhos, no que constitui o projeto Mulheres da Paz? Onde ele existe? O que visa?
  
O projeto Mulheres da Paz foi desenvolvido pelo PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) e em parceria com o município de Uberaba através da Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS), veio a concretizar-se enquanto ação de prevenção da violência e criminalidade em nossa cidade. É um projeto que tem se espalhado por várias cidades e em diferentes estados brasileiros. Em Minas Gerais, Uberaba é a terceira cidade a ser contemplada, seguida de Contagem e Santa Luzia.
O foco de atuação do projeto incide sobre crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social, acreditando-se na combinação entre a potência e a sensibilidade das mulheres para identificarem as demandas e fortalecerem as redes sociais de apoio para posteriores encaminhamentos.
Foram selecionadas 100 mulheres para compor o projeto em Uberaba, em sua grande maioria são mulheres que, de algum modo, já atuam como lideranças comunitárias em seus bairros, o que facilita e potencializa o processo de identificação, mapeamento e encaminhamento das demandas insurgentes.
O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) de Uberaba, foi o dispositivo educacional seleto para capacitar as Mulheres da Paz em distintas temáticas que fomentarão a ações do projeto. Dentre as temáticas, estão: Acesso à Justiça, Direitos Humanos e Mediação de Conflitos, Lei Maria da Penha, Apoio Psicossocial, Ações do PRONASCI, Conhecimento Básico de Informática e várias outras que estejam correlacionadas com a prevenção da violência e a busca pela paz.
As 100 Mulheres da Paz receberão um incentivo financeiro caracterizado como benefício no valor de R$190,00 reais por mês durante os doze meses de execução do projeto, e serão acompanhadas e respaldadas durante todo o percurso por uma equipe técnica composta por Psicóloga, Assistente Social, Advogada e Assistente Administrativa, ressaltando que a coordenadoria municipal do projeto possui uma sede na Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS).
Os objetivos preponderantes do projeto se concentram em desenvolver atividades de afirmação da cidadania para emancipação e fortalecimento das mulheres na prevenção da violência contra a mulher; reeducação e valorização dos jovens com sua respectiva participação e inclusão em programas e projetos sociais de Uberaba e do PRONASCI, que almejem a promoção da cidadania; fortalecimento das redes de organizações e movimentos parceiros que ofereçam atendimento e suporte psicológico, jurídico e social às demandas apresentadas.

2. A mulher hoje é ainda submissa e vítima de violência?

Infelizmente sim, apesar de serem claras e explícitas as conquistas que as mulheres alcançaram ao longo do tempo, ainda vivemos em uma sociedade patriarcal marcada pelo excesso de machismo, de masculinização dos valores morais, éticos, educacionais e profissionais. Ainda somos vítimas de uma violência vermelha e branca que provém do machismo da política, das leis, de algumas práticas religiosas, do entendimento ainda obsoleto do que venha a ser família, dos dogmas e pré-conceitos que se entrelaçam nas relações entre os gêneros.
            A força e a brutalidade ainda se configuram como atributos acentuados na auto-afirmação e na insegurança da sociedade para lidar com questões cotidianas e universais, deste modo, a fragilidade e a sensibilidade são negadas, criticadas e violentadas, sendo ainda sinônimos de fraqueza e impotência.
Faz-se necessário o incremento de medidas de promoção e de prevenção que abarquem a emancipação da mulher como afirmadora de sua cidadania, que desenvolvam o potencial para analisarem e gerirem suas próprias vidas acrescendo-se de autonomia, independência, fortalecimento de seus vínculos sociais e afetivos, ampliação da rede de contatos e acesso aos seus direitos, para que não se submetam a situações de risco ou de exposição direta à violência.

3. O que pode a mulher no trabalho de reinvenção do mundo numa perspectiva de um novo mundo, terno e solidário?

Fazendo referência à Rosa de Luxemburgo, com todo seu alento, diria que o trabalho das mulheres é: “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.
Para ousar sonhar tal utopia ativa e lutar por esse novo mundo porvir, é necessário que se tenha a sensibilidade de se aperceber das desigualdades que tanto castigam grande parcela da humanidade, ter a força para escancará-la aos olhos nus da sociedade e a ousadia de resistir às forças que tentam aniquilar a mudança e o novo.
Dito de outro modo, é necessário se engravidar do mundo, gestá-lo possibilitando sua criação e pari-lo, não sem dor, para libertá-lo em seu crescimento, em seu devir criança e neste sentido, a mulher, enquanto corpo disposto para a criação, para o nascimento do novo, encontra em sua singularidade a seiva necessária para transformar e fazer pulsar um novo mundo.
Por outro lado, pensar a mulher, ainda, enquanto ser que sofre inúmeras violências e, portanto, sente dor, nos faz lembrar Nietzsche quando ressalva que somente aqueles que experimentaram o intenso sofrimento são capazes de se transformarem em espíritos livres, pois podem transformar o próprio sofrimento em livramento, assim como o jardineiro que parece cultivar algo feio de princípio, até extrair a beleza que há nele.

 4. Qual é o trabalho das Mulheres da Paz? E como podemos ajudá-las?

As Mulheres da Paz são mediadoras sociais entre as demandas da comunidade e a rede de serviços existente no município. Para tanto, realizam visitas às famílias necessitadas, acolhendo suas angustias, identificando a problemática ali encontrada e com o subsídio da equipe técnica, realizam orientações e encaminhamentos que atendam as reais necessidades suscitadas naquele ambiente familiar, mormente as que estiverem relacionadas aos jovens com faixa etária situada entre 14 e 24 anos, que se configuram como objetivo central do projeto.
Cabe ressaltar que, para além das visitas domiciliares, as Mulheres da Paz, com o apoio de parcerias em diversos segmentos, órgãos e serviços do município, também possuem o papel de desenvolverem ações comunitárias que envolvam significativa parcela da população, promovendo práticas de lazer, esporte, educação, profissionalização, cuidados com a saúde e outros que estejam relacionados com a prevenção da violência e criminalidade.
Deste modo, é de suma importância que a população uberabense esteja consciente de que as Mulheres da Paz existem para trazerem mudanças positivas para as famílias e para o município, e que para tanto é necessário que se unam as forças, as vontades e os desejos por uma nova forma de se viver, pela construção de uma cultura da paz, pelo acolhimento e direcionamento aos jovens que irão dar continuidade à vida em nosso mundo, e que possam evoluir junto ao progresso da ternura, da sensibilidade, da alteridade e do amor.

5. Josie, diga  sobre suas esperanças com este projeto...

A cada minuto, somos bombardeados pela extrema violência que vem assolando todo o mundo. Imagens e notícias estarrecedoras cravam em nosso peito o punhal da indignação, da revolta e da injúria pela perversidade existente, e a ferida que ali se instala, dói pelas vítimas que sofrem com os ataques desenfreados das violências, sejam elas quais forem.
Nossos jovens estão se entregando cada vez mais cedo às drogas, ao tráfico, à criminalidade, parecem ter-se esvaziado os sonhos abrindo uma enorme cratera no caminho para o futuro. Não obstante, a fome, a miséria e a falta de acesso aos direitos básicos garantidos pelo tão aclamado “Direitos Humanos” e outras Leis, têm enegrecido os dias de um grande contingente de seres humanos, que deveriam ser cheios de vida, produtividade, criação, desenvolvimento, etc.
Não podemos ser coniventes com esse espetáculo de horrores, não podemos nos submeter às máquinas despóticas e alienarmos nossos sonhos, nossas utopias ativas, nossa luta. 
Numa mulher a vida flui: liberdade e ternura...
Aqui vimos o que se pode se trabalhamos com a potência do amor; e agradecemos  de coração a nossa amiga e militante do novo, do mundo que se transforma: nossa guerreira Josie, terapeuta e militante das utopias libertárias...


8 comentários:

Tânia Marques disse...

Parabéns, Jorge e Josie, pela entrevista realizada. Ela representa um voo rasante de esperanças em cima do lixo mundano que temos hoje. Jorge, observa no teu blog que postaste duas vezes a pergunta três. Beijo nos dois!

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Não estou conseguindo governar o blog: está previstoo a aparição de dez postagens e elas somem, só fica quatro e eu vou vendo, tá muito difícil postar... Abraços com ternura; jorege

Tânia Marques disse...

Josie, a nossa língua portuguesa também é podre de machista e sexista. Basta verificar que quando temos dois substantivos, um feminino e outro masculino, a concordância deles com o adjetivo no plural é feita somente com o masculino, que vem a ser o predominante na língua para outras regras. Beijos

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, a vida é uma caminhada por libertação. O machismo é uma pedra neste caminho, pedra pesada e áspera.
Abraços com carinho; Jorge

disse...

Obrigada Tânia, como disse ao Jorge, minha maior esperança é que o projeto continue a ser movimento, que possa fluir entre a comunidade, e que quando se deparar com muros, possa conseguir escorrer pelas fendas, pelas gretas, e que sendo micro político, as Mulheres da Paz e suas ações possam se espalhar feito margaridas e gramas verdes e vistosas pelo chão árido que tem condenado nosso povo.
Agradeço pelo espaço e por aqueles que desejam ser nossos parceiros na luta por um mundo de paz!

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Josie, um grande abraço; belíssima entrevista; pena que hoje sofremos com o blogger que não funcionou bem. Abraços com carinho, Jorge

Concha Rousia disse...

Interessante projeto, as mulheres sempre sao mediadoras nos tempos e áreas de conflitos, a humanidade por cima de fronteiras e idiologias.. Sou uma admiradora da Rosa Luxemburgo, parabens a Josie e a Jorge por este belo trabalho, abraços com carinho para ambos, Concha

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, são projetos que vão abrindo as janelas da vida para o amanhã.
Abraços com carinho, Jorge