sábado, 29 de janeiro de 2011

DEVIR ÍNDIO: A MAGIA DE UM CORPO GUERREIRO

                                                    Jorge Bichuetti
                                                         “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.” Manifesto Antrófago, Owvald de Andrade
No canto de Rita Lee, já notamos nosso fascínio pelo modo de vida dos índíos:
"Se Deus quiser
Um dia eu quero ser índio
Viver pelado
Pintado de verde
Num eterno domingo
Ser um bicho preguiça
Espantar turista
E tomar banho de sol
Banho de sol!
Banho de sol!
Sol!..."
E este fascínio se revela, igualmente, no campo da esquizoanálise, quando, acrescentamos aos n devires, um tipicamente, tupiniquim, o devir  índio.
Então,, perguntamos:  o que o torna fascinante, e o que ele na sua vida desvela das nossas fragilidades , limites e
vulnerabilidades?
Somos homens cinzentos. De terno e gravata. Urbanos. Sedentários. Individualistas. aprendemos com livros e receituários . Somos racionalistas.Céticos. E laboriosos e, também, servis...
Não temos conseguido a felicidade e a plenitude. Adoecemos e nos cronificamos nas doenças que passam, então, à condição de centros da nossa vida.
Temos um Deus que arbitra e nos condiona  a uma cultura de culpa e ressentimento.
Separamo-nos da natureza e a historizamos.
O devir acontece... Se agencia condições de facilitação para a sua emergência. Ele, então, nos singulariza e nos multiplica... em novos eus. Com ele, saímo da rotina de um subjetividade repetiva e restritiva, e desbramos novas potências e um novo modo de ser e existir.
O índio é... e pode...
Vive comunitariamente e se agrupa na tribo. Não se submete  às dorças colonizadoras, pois não abre mão do seu corpo guerreiro, do direito à preguiça e da sua negação a uama vida servil.
Anda nu... Pinta-se... Pensa e crê, eassim, vive com um pensamento mágico e com processos ritualísticos alegres e festivos.
Caminha em harmonia com a natureza e com ela comunga vida e fé...
Um guerreiro...
Um homem tribal...
Um jeito de pensar e sentir com magia e rituais....
Ele dança e canta...
Caça e pesca, porém, nunca acumula... Busca no trabalho o suprimento de suas necessidades. e isto lhe basta...
Sem pre festeja... sempre descansa... sempre brinca....
Aprende pelas experimentações: mergulha no que pode um corpo...
Ama a própria liberdade....
                                                            ***
Quando, então, buscamos nosso devir índio, estamos desejando um modo de ser e existir que é antagônico à subjetividade capitalista, ao familialismo edípico, ao servilismo e passividade, e à racionalidade técnico-instrumental....
Queremos o guerreiro, a magia e os rituais, a preguiça, a liberdade, a vida em sintonia com as matas, a fauna e a flora, o belo do luar, do sol e das estrelas, a dança e a festa, o direito de experimentar e a força do corpo que nu, deslumbra com sua pele colorida e ornada de penas...
                                                           ***
E, finalizando, esta breve escrita, deixo-lhes dois poemas de fino humor do modernista Oswald de Andrade sobre os encantos dos índios que o Brasil escondeu e que do Brasil, por tantos anos, se esconderam:
Brasil
        Oswald de Andrade
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
Erro de português
              Oswald de Andrade
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

UM ÍNDIO - OS DOCES BÁRBAROS

2 comentários:

Marta Rúbia de Rezende disse...

Jorge querido, por falar em corpo guerreiro, esse troço aqui (os vídeos) é muito interessante
http://rhizome.org/editorial/2010/dec/15/elements-of-vogue-a-conversation-with-ultra-red/
beijo
Marta

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Marta, vejo ainda hoje. Obrigado pela dica... com beijos e carinhos. Jorge