sábado, 22 de janeiro de 2011

DIÁRIO DE BORDO: UM VOO NA IMENSIDÃO

                                                                         Jorge Bichuetti

Madrugada. O galo não cantou... Os pássaros aninhados no quintal permanecem adormecidos.
Só a lua, esta companheira inseparável, aquietou-se nos meus pés, e com seus olhos meigos e ternos observa sorrateira o que anda crepitando nos meus pensamentos.
A vida é sempre uma aventura. Perigosa, necessária... vive-se, e não se sabe os rodopios do destino nem o quanto de vida é marcada por um ou outro desatino.
Só os audazes e intensos admitem a verdade filosófica de que viver é o sentido da nossa caminhada...
Poucos vivem, acostumamo-nos a seguir escravos do sobreviver...
                                                        ***
Existem momentos que é tempo de silêncio e oração...
Então, não quero o ruído das palavras que perturbam... Das palavras ruidosas que ensurdecem a vida para que não escutemos as vozes silenciosas dos nossos corações.
Não há palavra que diga o indizível, nem que nos tornem fortes diante do inominável...
A dor da perda de um coração querido é um destes instantes... Tempo de silêncio e oração.
E, também, tempo dos abraços: abraço forte e caloroso, verdadeiro... e não oficial.
Eis a razão que no silêncio da madrugada quando somente os anjos cantam, eu escrevo... Não, palavras sábias, nem verdades consoladoras. Escrevo de coração para coração, mediado pela minha fé no carinho dos anjos e na grandeza Dele, o coração maior....
                                                    ***
Iara, amiga e cidadã.. Mulher de riso suave e alegre, olhar meigo e terno. Rosto, andar, vida de guerreira.
Chora... Não chores... Chora...
Chora a tua dor, deixando que suas lagrimas reflitam o arco-íris bendito que nascerá no teu coração como reflexo mágico da presença da vida que continua e, por sabedoria e ética, nunca separa os que amam...
Não chores... se as lágrimas que nos maltratam e nos ferem te falarem de um fim e do nada... Elas servem como escouadoro das nossas dores cruentas, mas desconhecem os mistérios da vida que nunca se perde nas veredas da imensidão.
Chora.... o pranto que como um riacho límpido lava-nos a alma dos miasma da incerteza e da descrença e que se sedimentam no solo do seu leito o fantasma da dúvida....
Iara: amiga leal, mulher vanguardeira... Uma amante da cultura, uma professora dedicada...
Não temas a dor cruenta do hoje, pensa no porvir e olha a vida com a magia de quem a sabe muito maior do que um conjugado de neurônios submetidos aos ponteiros do relógio.
O tempo não mede, nem aprisiona a vida e seus esplendores...
Teu doce e gentil Hermano não morreu... os jornais noticiam os fatos do dia-a-dia, desconhecendo os mistérios da eternidade.
Ele - moço faceiro e sensível- voou... Voou com sua moto e hoje mistura o azul de suas asas com o azul acolhedor e belo do infinito.
Lá, ele desenha novas auroras...
E canta, modernizando o repertório dos céus e o cancioneiro dos anjos...
Muitos te dirão que esta lágrima de saudade não tem fim...
Quanta mentira! Não há separação nem adeus para os que se amando, permanecem na intensidade da vida que nunca acaba, unidos e abraçados, compondo no silêncio do afeto o seus eternos poemas de amor.
Já dizia Monsenhor Juvenal Arduini: vida e morte são faces de uma única realidade, o que permite, aos que amam,viverem em permanente comunhão.
"Todos estamos juntos no lar dos pensamentos".
E você seguirá... com a mesma força das Mães da Praça de Maio na Argentina que afirmam viverem, pois são a memória e possibidade de vida dos seus filhos no chão do mundo.
E quando a dor da saudade te magoar.. Mira o céu estrelado. E não deixes de ver no brilho das estrelas as faíscas de vida e jovialidade do teu filho, agora, também, filho da própria vida e um cavaleiro da alegria e da paz nas suas andanças no azul tão azul do infinito que o verás e não notarás tuas asas,  que  já  se misturam  com os caminhos da imensidão onde brilha, canta e brinca, tendo suas mãos guardadas pelo abraço de Deus....
                                            ***
Aqui, no mundo, não lidamos serenamente com a fatalidade.
Nem temos a audácia de perceber no sistema, um modo de viver que dá tão pouco aos nossos filhos.
Gostamos do trágico dos jornais de domingo...
E esquecemos que nossas dores muitas vezes só anunciam a vulnerabilidade do que chamamos nosso império existencial.
Um acidente... Uma fatalidade... Coisas do destino!
Já o mesmo não podemos dizer da vida instituida que dá tão pouco a todos.
Quando alguém parte... Perguntamos: por que não viveu mais?
E cremos que Deus é a resposta,; creio, no entanto, que Deus faz a mesma pergunta... Não pelo tempo curto ou longo. Um minuto é uma vastidão de possibilidade de vida intensa e potente.
O que Ele - o criador, não compreende é porque o mundo se compõe de tantos vazios e de tanta devastação, fazendo do breve, o brevíssimo, por nossa podre escuridão.
" Que brilhem a vossa luz"...
Aprendamos a intensificar as potências da vida... Excomunguemos o medo e a covardia, a acomodação e carência de sonhos... Isto, sim, é morte na vida...
Um voo na imensidão é vida na vida que florece sempre primaveril, desenhando nos caminhos do amor sem adeus a apoeteose de  um novo alvorecer... Um belo poema de amor!...

2 comentários:

Ana Clara disse...

Obrigada pela força, Jorge.
Muito lindo o seu texto. Suas palavras vão de encontro com a nossa dor, são compreensivas e dão conforto.
Muito obrigada.

Ana Clara (prima-irmã de Hermano)

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Ana Clara, meu abraço e minhas orações... sei que hoje no azul límpido do amor de Deus, ele vive...
e vive no amparo e carinho do Senhor que é sempre amor multiplicado e ternura sem fim.
Ele - o Cristo, o nosso deus menino, há de acolhê-lo e com ele estar nos paramos da imensidão.
peço, igualmente, a jesus: força e fé para todos vocês...Abraços, com carinho, ternura e fé. Jorge