terça-feira, 8 de março de 2011

UM NOVO MODO DE EXISTIR E CAMINHAR: A ESQUIZOANÁLISE NO DIA-A-DIA...

                                                                  Jorge Bichuetti

Por fim, uma proposição que, definitivamente, assassina o ego.
Um soco na boca do estômago do individualismo e do narcisismo...
" Nada do foi, será..."
Eu pensei ...
Eu criei...
Eu construi...
Eu inventei...
Eu arquitetei...
Eu amei...
Eu...
Nada nasce de um criador, criamos e vivemos nos entres das nossas conexões.
O riso e a lágrima, a obra de arte e o conceito da ciência, meu espanto e minha ousadia... tudo emerge de um entre.
Fabricamos, tecemos, construimos e sentimos imersos em conexões que nos afeta e que são por nós afetadas; sendo, assim, toda autoria se despersonaliza para ganhar uma dimensão onde o contexto e os entres deste encontro assumem o papel da verdadeira autoria.
O que eu escrevo não me pertence como propriedade criativa, escrevo nos entres das relações que efetuamos e que geram espaços lisos para o novo ou estriamentos que nos subjugam às velhas repetições.
Um soco, uma punhalada... na ideia de autoria... e um soco, uma punhalada na nossa moral de culpa e ressentimento.
Tudo nasce dos entres...Se nos vinculamos a um fascista, podemos agir com crueldade e realizar atos abomináveis; e se nos conectamos com expressões de generosidade e ternura vivenciamos atitudes nobres e sublimes, devimos bondade...
Nada de nos esquivar das próprias responsabilidades, pois , elegemos nossas conexões e, delas, nascem  um emergente de um devir terno e suave ou as velhas e caducas repetições neonazistas.
Eu, uma rosa, uma taça de vinho, uma canção romântica e você; resultam num amor sensual e terno, intenso e fecundo...
Eu, armas, drogas, lixo e lama, crueldade e furor assassino; produzem uma desgraça...
Um único eu em diferentes entres gera caminhos diversos.
A autoria da lei da gravidade está nos entres de Galileu, a árvore, a maçã e tantos outros eus e , inclusive suas leituras e vivências anteriores, que ali o permitiram deduzir, que um corpo tende a cair sob a pressão de uma força que o atrai...
Aprendemos com muitas dores e lágrimas que não somos donos da verdade, nem da vida: elas se dão nos entres..  contudo, somos chamados a pensar nos entres que elegemos para nosso processo de criação e de existir...
                                                                    ***
Vivemos escudados no absoluto... Verdades inquestionáveis; mentiras inadmissíveis...
Cada olhar desvela algo da vida e se trabalhamos com a flexibilidade dos es, vamos ganhando expansão, potência e vida...  Já se usamos os excludentes e sectários és: vamos nos restringindo e perdendo o que o outro encontrou e que poderia nos ser útil na nossa aventura de viver e crescer...
A conjunção e nos amplia, amplifica e nos intensifica...
A verdade excludente do é nos isola, nos limita e nos reduz...
A multicidade dos es nos tornam heterodoxos e ecléticos, porém, com mais vida e amplidão...
                                                                     ***
A  vida está dominada por autorias inquestionáveis e verdades absolutas e excludentes, por estriamentos que nos formatam o querer, o pensar e o próprio existir...
Se desejamos a alegria e a liberdade, o novo e a mudança cabe-nos roubar de todos e compor um conjunto que nos permitam experimentar, caminhar, criar e sonhar...
Longe, das restritivas seitas sectárias; perto do devir...
Assim, podemos inventar linhas de fuga que, escapulindo das totalizações castradoras e repressivas, nos possibilitem viver o novo: a suavidade da produção desejante e a ternura dos voos libertários para além dos limites da razão instituida que é somente a razão da vida individualista, competitiva, onipotente e narcissita; que nos leva a todos ao abismo da desesperança e da solidão...

4 comentários:

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

Bravissimo,
e assim falava Zaratustra "Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas?"
Com muito sentido vemos a questão da autoria , o que pertence a quem?
Somos um dentro, um fora e um entre , a nossa relação com o mundo é de co-pertencimento ..nada é fixo ,tudo é dialético entre o caos e a transformação ...tudo é devir
Abri esse pensamento falando do Grande "astro", mas o grande astro é uma estrela , portanto femea ...foi uma forma sutil de homenagear as mulheres no seu dia e a luz que elas trazem ao mundo...
Um grande abraço

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Adilson, além de valoroso, é especial... concordo contigo e digo:
a vida pede brilho, e teremos que aprender com elas...
abraços com carinho, jorge

Tânia Marques disse...

O espírito de Michel Foucault deve estar te aplaudindo em pé de onde ele estiver agora. Foste muito coerente e inteligente na tua abordagem sobre a questão da autoria. Há um narcisismo explicável pelo próprio sistema, ser o "dono das ideias", ganhar dinheiro, fama, prestígio com isso.Quando na realidade, essa questão é tão irrelevante diante do que, por meio das nossas pesquisas, da sequência das descobertas alheias (estudos), do nosso discurso, podemos contribuir para o bem da humanidade. O egoísmo e egocentrismo que permeiam a questão da autoria, hoje e sempre, têm a ver com as purpurinas, com os louros do sucesso, com os holofotes, tudo tão fugaz! As "verdades" são temporárias, a cada instante enxergamos a vida e os acontecimentos de modo diferente, decodificamos, a cada crescimento íntimo, uma mesma leitura feita de modos antes nunca pensados. Parabéns! Aqui, no teu blog, eu encontro o que eu preciso para ratificar as minhas impressões. Beijos em teu coração!

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, estava sentado, refletindo e pensando, já didde essas coisas do entre e dos es. porém, será não deveria sermais direto... A primeira vez que ouvi esta desmontagem das autorias , lembro-me, que me revolucionou... Assim, decidi postar desta forma singela: direta.
Tânia, muito me alegra seu carinho, e com imensa ternura que le envio muitos abraços, jorge