terça-feira, 13 de setembro de 2011

DIÁRIO DE BORDO: GRACIAS A LA VIDA!!! VIVER É TECER O PORVIR COM A PRÓPRIA PELE...

                                              Jorge Bichuetti

Céu claro no amanhecer; o orvalho umidificando meus sonhos... Os álamos e o vento tecem, no alto, um suave bailado... Pássaros cantores entoam hinos pela vida... Não consegui ver o luar e dele me despedir... O sol chegou... Luínha se agitou, vendo minhas lágrimas... Escuto Violeta Parra... Abraço minha pequena e como se orasse com ardor a mas cálida das orações, canto: Obrigado, obrigado a vida e aos que vivendo nos legaram caminhos e horizontes... Gracias a la Vida... A aurora chega aluminado o viço e o vigor de um novo dia: com a aurora canta a esperança dos nossos mártires... Dos que se deram para que voltasse a aurora, pondo fim a uma noite interminável que acinzentou o horizonte e a vida, deixando-nos, nós, o povo da América Latina, na escuridão do medo e na asfixia da desesperança...
Que no caminho das nossas vidas honremos o legado por eles: vidas pela vida, vidas pela causa... vidas ceifadas na escuridão que com seus gritos na agonia, acordaram a vida adormecida e o povo desperto soube buscar o Sol... E, hoje, somos caminheiros e guardiões... Caminhamos, adubando e cuidando da terra semeada; e vigilantes, velamos pelo Sol da liberdade...
A vida é caminho... No caminho, tecemos floradas de ternura e voos para o porvir...
Viver é empoderar-se no caminho e enternecidos, sentir-se corresponsável pelos rumos da vida e pelo destino do mundo...
A história não é um fruto mágico que cai expontâneo da árvore da vida... A tecemos: com palavras e silêncios; com reflexões e ações; com nossa agir valente e com nossa subserviência covarde... 
Todo dia, em cada minuto, a vida é reescrita, reiterada na mesmice ou reinventada na ousadia da mudança...
Paira no ar os ventos indignados dos que lutam...
Ecoa nos nossos corações as palavras e os cantos dos que foram, cruelmente, martirizados para que a vida não fosse a noite interminável da escuridão tirânica dos que roubaram do céu das nossas almas o sol do alvorecer...
Hoje, vivemos nos caminhos da liberdade... liberdade conquistada com sangue, suor e lágrimas dos nossos mártires guerreiros...
Assim, nesta manhã, com o canto de Violeta Parra, pergunto-me: o que temos feito da liberdade?...
A liberdade legada está pulsante e viva, brilhante encantada, nas nossas mãos?...
Ou, a temos delegado aos outros... e esquecidos que ela é nossa, vegetamos entorpecidos, despreocupados, não assumindo como problema nosso o que é feito no caminho... caminho do nosso povo.
Participamos, lutando?... Gritamos, indignados, exigindo direitos e vida em abundância para nossa gente?...
A cidadania não se restringe ao ato de votar... é exercício permanente de participação ativa nas trincheiras da luta onde as forças da vida e da morte, do amor includente e da indiferença excludente, da solidariedade generosa e de compaixão e da ganância individualista e espoliadora... se enfrentam, peleam, guerreiam e da vitória de uma ou de outra, nasce o destino, a realidade de alegria e paz ou de tristeza e tortura íntima para o nosso povo.
E nós? Que temos feito?...
De que lado temos intervido?... De que cor temos pintado o horizonte vivido na caminhada do nosso povo, povo nosso, nossa gente, nossa humanidade?...
A vida é tecida no dia-a-dia... o destino é forjado na luta cotidiana...
Neste minuto, quantos choram?... quantos estão sendo violodados nos seus direitos?... quantos padecem, solitários?...
Viver é comprometer-se radicalmente com a própria vida para que ela seja a vida florescente para todos...
O nosso riso e alegria egoísticos... é cinismo, diante da lágrima do povo que oprimido, chora... que excluído, desespera-se... que espoliado, agoniza...
Um dia, nossos filhos e netos, acordarão na madrugada, e sentirão na pele a vida que lhes legaremos....
No dia de hoje, abraço Violeta Parra, ouvindo seu canto e digo: Gracias, Violeta... nos legaste a liberdade...
Que os nossos no futuro tenham motivo de amanhecerem nos abraçando, sob o sol da vida remoçada!... A pior morte é vida que na omissão ou na crueldade, se tece vida esquecida... ou vida desprezada...


2 comentários:

Paula Andreoli disse...

Os pássaros aqui também entoam seus hinos. A neblina esmaece a paisagem. O sino toca. Ouço a voz de Juju. Promessa de mais um dia para nos encantarmos. Mas estou triste, meu coração dói!

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Paula: um dia, senti-me tão doído que fui me encontrando no redemoinho de lágrimas e ali no meio do ventaval catei forças para voar , buscando minha estrela bailarina... Meu carinho -ternura- ombro... num ninho passarinheiro. Abraços ternos, jorge