terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

MESTRES DO CAMINHO: HILDA HILST E A POTÊNCIA DO DESEJO

O Desejo não é nunca entendido como funcionando a partir de uma falta fundamental, num sentido praticamente metafísico, como na Psicanálise. Desejo também não está ligado 'a nenhuma Dialética. Desejar é produzir. Remete à Fábrica que é o Inconsciente. Remete também 'a criatividade, que permite a infinitude de Linhas de Fuga. ( DO SITE BEIRA )

Do Desejo

de Hilda Hilst


E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
(Do Desejo - 1992)

 * * *

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
( Do Desejo - 1992)

* * *

Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
(Da Noite - 1992)

6 comentários:

Marta Rúbia de Rezende disse...

Como a letra D é sortuda: Desejo, Divino, Dionísio, Deleuze, Dia, Ditirambo, Devir, Desconhecido...

Bom dia Jorge, bom Dia amigos, o sol é novo toDos os Dias. E o Desejo também.

Hoje é o Dia D. Volto às aulas. Será que vou aguentar chegar na letra Z?

Vou Dar umas sumiDinhas, amigos, infelizmente. Este 2011 promete muito trabalho (espero que sem Desespero). Mas estarei aqui sempre que puDer.

Beijos Jorge, obrigaDa por tuDo. LinDos poemas eróticos hoje no blog. aDorei. Turbinou o meu, o seu, o nosso, o vosso...

Um cavalo alaDo traça horizontes na paisagem Da Lua.

M

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Marta, sua companhia é com d... devires divinos doces dálias diadorin dados no ar, vento e luar...
Bom re-começo das atividades: que Apolo e Dionísio lhe abrace e lhe intesifique a vida e a caminhada... Abraços, Jorge

Anne M. Moor disse...

Adoro Hilda Hilst!

bjos
Anne

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Anne, ela me fascina; porém, conheço pouco.. Nossa Marta foi quem me lembrou dela... para trabalhar o tema do desejo.
Abraços, Jorge

Samara disse...

PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR.
de Hilda Hilst


I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca

Austera. Toma-me AGORA, ANTES

Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes

Da morte, amor, da minha morte, toma-me

Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute

Em cadência minha escura agonia.



Tempo do corpo este tempo, da fome

Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,

Um sol de diamante alimentando o ventre,

O leite da tua carne, a minha

Fugidia.

E sobre nós este tempo futuro urdindo

Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida

A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.



Te descobres vivo sob um jogo novo.

Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,

Antes do muro, antes da terra, devo

Devo gritar a minha palavra, uma encantada

Ilharga

Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar

Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo

Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.



II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.

Matéria-menina a tua fronte e eu

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.



Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa

De núpcias e caminho

É tão diversa da tua fronte descuidada.



Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água

Meu existir anfíbio. Passeia

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.

(...)



[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]

[in Poesia: 1959-1979/ Hilda hilst. - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Samara, sempre com uma rica fonte de novas poesias e canções. Hilda é maravilhosa; se parece com a sua ternura sensual e seu brilho de mullher, flor vermelha num noturno encanto da vida enluarada de prazer..
Abraços, Jorge