sábado, 5 de fevereiro de 2011

MICROPOLÍTICA E REVOLUÇÃO

                                              Jorge Bichuetti

Ouvimos , cotidianamente, dizerem: eu não gosto de política...
Tudo é político...
Quando revelamos nosso descrédito com a política, estamos falando de uma política. Da macropolítica: a política molar dos partidos e do estado, das grandes organizações e da ideia de que política trata de conquistar o Poder.
Nietzsche disse, com propriedade que na vida tudo é relações, relações de dominação ou de subordinação.
E acrescenta que podemos ser ativos ou reativos...
Se ativos: criamos, afirmamos, inventamos, transformamos...
Se reativos: nos paralisamos ou simplesmente reagimos sob as forças da culpa e do ressentimento.
O que seria, então, esta nova ação política que se auto-nomeia micropolítica?
Micropolítica  é a intervenção nas molecularidades da vida.
Dizia Guattari que " militar é agir"
Então, podemos inferir que a produção de ações de transformação da realidade no dia-a-dia, lidando com as dores, problemas, dificuldades e limites do homem e dos coletivos, na dimensão molecular da vida que flui nos próprios espaços da existência.
Recorda o manifesto surrealista: transformar o mundo, mudar a vida...
E aborda os temas da própria vida e das subjetividades: a sexualidade, o racismo, a opressão das minorias, a ecologia, os direitos humanos, a opção sexual, os sem-tetos e os povos da rua, a arte e cultura, a comunicação, a violência contra a mulher, gays e crianças, o isolamento dos idosos em asilos, as instituições totais e muito mais..
Busca criar uma vida não-fascista.
E se inventa novos dispositivos de se agir, militante, politicamente, onde se evita e se nega o centralismo, as hierarquias duras, a uniformização e ausência da diversidade, e os programas prévios...
Fomenta-se: a criatividade, a transversalidade, o trabalho das redes(rizoma) e a ideia de que política é discurso e eleição.
Política é vida.  Vida ética e libertária. Vida solidária e inclusiva...
Cria-se ações de mudança... então, somente, pautas reivindicatórias.
Não privilegia o estado; mas, sim, o descontrói na medida que vai produzindo na caminhada um novo mundo e novo modo de viver e existir.
A revolução não é descartada... Nem é uma obra do amanhã.
Ela se dá no dia-a-dia... Em cada sim, em cada não... E, principalmente, se dá na partilha e na construção de processos de inclusão e de cuidado, de defesa dos direitos e de mudanças de atitudes... Se dá como resistência e como invenção criativo do novo já.
Assim, se materializa uma sociedade de amigos e uma luta libertária "por uma nova Terra, e um Povo por-vir.

4 comentários:

Marta Rúbia de Rezende disse...

Jorge, O que é filosofia? do D& G é de releitura. A cada leitura, novos clarões. No capítulo "geofilosofia", há uma passagem esplêndida sobre a revolução. Filosofia, utopia e revolução. Aponta para a transvaloração da "decepção" com a política e à "descrença" revolucionária" em utopia da imanência". Ou seja, se há traição no projeto de revolução, novas lutas são relançadas. Se as revoluções "não deram certo" (?), isso não quer dizr que o conceito revolução perdeu sua via imanente. D&G resgatam o conceito de revolução em Kant, em que o que mais importa é o entusiasmo com o qual a revolução é pensada no aqui e agora. Ou seja, trata-se de conjungar a imanência universal do pensamento (conceito) com o aqui e agora.

" A título de conceito e como acontecimento, a revolução é auto-referencial ou goza de uma auto-posição que se deixa apreender num entusiasmo imanente, sem que nada, no estado de coisas ou no vivido, possa atenuá-la, sequer as decepções da razão." D&G - O que é filosofia?, p. 131.

Se o neoliberalismo criou um ambiente anti-revolucionário, anti entusiasmo com a vida política e social, o que a gente está vivendo agora, é a transvaloração desse ambiente de morte num ambiente de retomada em novas bases do movimento de conjugação do conceito de revolução com a as realidades locais(aqui e agora).

abraço a todos
Marta

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Marta, penso que o agir militante e a revolução eram o fogo e o ar que alimentam esta maquina - Deleuze e Guattari... No Biografia Cruzadaas, Guattari chega a dizer que o sentido maior do Antiédipo era ativar a chama da utopia para que eeesta acessa detivesse os desastre do terrorismo, que para ele, emergiria, diante do refluxo do maio de 68; e ele passa dois anos tentando artucular uma Federação de Ongs, grupos de esquerda , arte etc, para criar um campo de luta pela revolução...
Relerei o O que é filosofia?
Pois venho pensando muito no mundo e na vida, as forças do pessimismo e as forças da utopia...
Beijos, Com carinho,
Jorge

Marta Rúbia de Rezende disse...

O que é filosoofia? e Ant-Édipo, certamente ambos estão nos livros mais importantes do século XX. Gosto deles demais, assim como de Mil Platôs. Mas O que é filosfia? considero o principal livro da dupla. O livro da maturidade. Um livro simples. De relativa facilidade na leitura. Elegante. Calmo. Claro. Sem mistérios. E amplo, generoso, compreende toda a filosofia, da pré filosofia à filosofia que está por vir. Deveria ser amplamente ensinado nas escolas. Não como guia, como dogma, sim como hipertexto, leitura rizomática que permite acessar não só o pensamento integral de D&G como toda a filosofia. Além disso, ele desdobra-se em práticas de vida, em questões contemporâneas de relevância que encaramos no dia-a-dia. E é belissímo como literatura esse livro. Estilo impecável!!!

Fica aí minha sugestão UPopular Juvenal Arduini ter um curso de filosofia. A educação do pensamento é a mais importante de todas.

beijo Jorge amore, amoroso, amorado.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Querida, sempre com ideias cheias de vida, sonhos e caminhos novos... Ontem, na plenária, houve, muita gente que se mostrou interessado no campo da filosofia.
Vamos tentar organizar...
Me encanta a ideia de viver esquizoanaliticamente...
Quanto leio o pequeno texto: crítica ua um critco severo.. Vejo ali: um modo de pensar, um modo de produzir ideias e conceitos, e um modo de viver...]
Abraços, com saudade.
Jorge